OPINIÃO
07/05/2015 17:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Lado a lado

Quem tem filhos pequenos está sempre correndo atrás deles. Outro dia, passeando no parque com minha filha de quatro anos, me dei conta de que caminhávamos em plena harmonia. Talvez porque já tínhamos comido pipoca e tomado café e não estávamos com fome? Talvez porque ambas queriam ir ao aquário? Talvez porque não estivéssemos com pressa para nada? Talvez porque o sol estava brilhando, as árvores reluzindo e importava mais o caminho do que o destino? Me veio a sensação de que a preciosidade desse caminhar lado a lado é rara em geral - e não apenas na convivência com os filhos.

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Quem tem filhos pequenos está sempre correndo atrás deles ou puxando-os pelos braços para conseguir chegar a tempo em algum compromisso. Outro dia, passeando no parque com minha filha de quatro anos, me dei conta de que caminhávamos em plena harmonia. Até o fato de minhas pernas serem mais longas do que as dela tornou-se irrelevante, tal o alinhamento do meu passo com o dela e o dela com meu. Talvez porque já tínhamos comido pipoca e tomado café e não estávamos com fome? Talvez porque ambas queriam ir ao aquário? Talvez porque não estivéssemos com pressa para nada? Talvez porque o sol estava brilhando, as árvores reluzindo e importava mais o caminho do que o destino?

Sei que a sensação foi indizivelmente agradável. Tive vontade de segurar aquela mãozinha para sempre e jamais soltar! Sua raridade tornou-se evidente, tamanho prazer que surtiu em mim. Claro que eu poderia ter atribuído isso ao fato de minha filha estar ficando grandinha e agora ser capaz de me acompanhar num passeio pelo bosque ao invés de ficar tentando colocar algo imundo na boca ou correr atrás dos pombos (igualmente imundos). Mas senti que não foi apenas isso. Me veio a sensação de que a preciosidade desse caminhar lado a lado é rara em geral, não apenas na convivência com os filhos.

Me recordei de minhas amigas da escola, época em que caminhávamos sem descompasso. Tínhamos a mesma rotina, vestíamos o mesmo uniforme, assistíamos às mesmas aulas e achávamos a mesma coisa dos professores. Éramos apaixonadinhas por meninos diferentes (ainda bem!), mas no fundo, era a mesma coisa. Aos catorze anos, deu-se a interrupção disso, quando acelerei o passo e fui morar fora do Brasil. Continuei escrevendo para elas, compulsivamente, na tentativa de compartilhar todas as minhas experiências, como se fosse possível elas vivenciarem o mesmo através daquelas folhas de papel. E, assim, permanecermos de mãos dadas. Mas o tempo foi passando, coisas demais acontecendo e o vão entre nós agigantou-se. As cartas não puderam ser ponte o bastante.

Com o passar do tempo, vai ficando mais difícil o caminhar sincrônico. As rotinas adultas são menos padronizadas. Claro que as empresas se esforçam para criar um ambiente "escolar" nos escritórios, em que todo mundo chega na mesma hora e usa roupas parecidas, na intenção de criar vivências compartilhadas e a sensação de todos trabalharem por uma missão. Mas, dentro de cada cubículo há uma sina. Cada funcionário carrega seus dilemas, ambições e paixões. Nem mesmo o casamento, o suposto lar das caras-metades, é sempre eficaz em estabelecer uma trilha comum. Quantos maridos querem apenas descansar em frente a TV depois do trabalho? Quantas mulheres se contentam em sentarem ao seu lado, ou, estar a lado?

A verdade é que todos nós convivemos com o cabo de guerra das vontades humanas o tempo todo. Os pais de crianças pequenas apenas vivenciam a expressão mais física desse fenômeno, mas a versão abstrata disso está em todas as esferas da vida. Apenas em momentos raros e sublimes da vida nos damos conta que não estamos nem correndo atrás e nem aguardando o outro - a guerra cessa e podemos caminhar lado a lado, de mãos dadas. Foi o que aconteceu conosco naquele domingo no parque, até aparecer um maldito pombo e ela sair correndo atrás dele! Sabe o que eu fiz? Corri junto!

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