OPINIÃO
20/03/2015 16:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Homenagem à você que é, também, mulher!

Markus Reugels/500px

Pois é, o dia 8 de Março passou e não é mais dia das mulheres. As flores que as secretárias ganharam dos seus chefes estão murchas nos vasinhos. Os chocolates foram devorados e elas retomaram suas dietas. As mensagens de "Feliz Dia da Mulher" recebidas pelo Whatsup e Facebook ficaram para trás nos timelines e, afinal, o que elas significaram mesmo para as receptoras delas: "Hoje é meu dia! Que dia mais feliz!"? Acho que não.

O Dia Internacional da Mulher não é uma data orgânica. Não é um aniversário, uma comemoração religiosa como o Natal ou universal como o réveillon. As mulheres ouvem os votos de "Feliz Dia da Mulher", as revistas surgem repletas de avaliações sobre os avanços & desafios do feminismo e personalidades dão seus depoimentos sobre o que a data significa para elas - missão cumprida - mas fica um vazio...

Qual é o problema real? Direitos iguais? Salários iguais? Padrões estéticos mais flexíveis? Mais tempo no dia para fazer tudo que elas precisam? Leis específicas: para aborto, violência doméstica e discriminação no trabalho? Mais papéis femininos nos filmes de Hollywood? Particularmente para as mulheres acima de trinta anos? Mais livros escritos por mulheres? Mais influência na mídia? Tudo isso e o céu também?

Pode ser. Mas, às vezes, e não que isso desmereça essas demandas todas, sinto que as mulheres querem menos do que isso. Elas querem uma coisa simples e que engloba essas coisas todas, que é ser tratada como uma pessoa, indiferente da questão de gênero. Isto significa não ter as suas idéias, sonhos e atos julgados "por ser mulher", porque isso é um reducionismo. A nota boa na escola, porque é menina. Poder sair ou não de noite, por ser mulher. A escolha da profissão tal, porque é mulher. O humor do dia, por ser mulher. Je suis Deborah, além de ser mulher!

É uma diferença sutil e filosófica. A qualificação "por ser mulher" dificulta às próprias mulheres descobrirem quem elas são de verdade. No seu âmago, a pessoa (dentro da mulher) se pergunta: o que eu seria na vida se todas essas opiniões formadas sobre o que uma mulher é ou não é (e o que deveria ser) nem existissem? Teria tido coragem de falar com aquele menino que eu curtia na oitava série? De estudar física nuclear ao invés de enfermagem? Teria ficando tanto tempo com aquele namorado "bom partido"? Viajado pelo Oriente sem rumo ao invés de fazer intercâmbio na Nova Zelândia? Teria posado nua? Ido morar sozinha mais cedo? Tido filhos? Adotado cachorros vira-latas?

Acredito que é essa a maior reivindicação de todas as mulheres. Poder ser Daniela, apesar de ser mulher. Poder ser Márcia, mesmo sendo mulher. Poder ser Fabiana, sendo mulher e tantas outras coisas. Poder ser Vitória, apesar de detestar saias. Poder ser Mariana, gostando de verde-água. Poder ser Maria, apesar de gostar de filmes de terror. Poder ser Luciana, apesar dos cabelos curtos. Poder ser Ludmila, apesar de ter três irmãos. Poder ser Firmina, apesar de gostar de meninas. Poder ser Felipa, apesar de não gostar do seu nome. Poder ser Clarice, apesar de nunca ter lido um livro de contos. Poder ser Amélia, apesar de não ser casada.

Em suma, poder ver sobressair sua essência única, para além de ser, também, mulher.