OPINIÃO
28/11/2014 15:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Crônica: O Extravaso

Bem, foi um pouco mais do que isso, mas imagine que ele agora está hospitalizado em estado grave. Os médicos dizem que ele pode não sobreviver ou ter sequelas graves... É uma tragédia urbana.

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Ontem testemunhei algo terrível - meu vizinho foi linchado por ter lavado a calçada de casa. Bem, foi um pouco mais do que isso, mas imagine que ele agora está hospitalizado em estado grave. Os médicos dizem que ele pode não sobreviver ou ter sequelas graves... É uma tragédia urbana.

Tudo começou com algo que em outros tempos seria considerado absolutamente cotidiano. Eu estava passeando com meu cachorro e o vizinho saiu de casa com uma mangueira laranja enrolada no braço. Achei curioso que ele olhou para os lados antes de preparar o gatilho. Agora, sei que ele queria ter a certeza de que não havia ninguém ali para censurá-lo. Foi só pingar água que apareceram os fiscais.

Falo dos fiscais-mirins, um grupo de jovens militantes que se formou no meu bairro para combater o desperdício de água. "Sr. Fernando, o senhor não pode lavar a calçada." Verdade seja dita, meu vizinho foi um pouco arrogante, "A calçada é minha, a água é minha, então, eu lavo se eu quiser." Um dos rapazes, que faz escola técnica em gestão ambiental, retrucou, "Na verdade, a água é um bem comum e a calçada é do Município. Por favor, contenha a fluxo." Sr. Fernando se irritou, "Eu pago pela água, então, ela é minha e eu faço o que bem quiser com ela."

Foi o bastante para uma mãe que passava entrar na discussão. "O senhor não tem respeito pelos fiscais? Eles são o futuro. Não entendeu ainda que estamos em crise de água. É um egoísta." O insulto insuflou ainda mais o ímpeto de Sr. Fernando, que aumentou o fluxo da água, deixando-a correr pela calçada. Todos se desesperaram. De fato, dava aflição ver a água se esvair daquele jeito, para lugar nenhum. "Pare com isso!", gritou uma das fiscais. "Não paro e pronto. Eu nunca desperdicei água na vida, não fui eu quem causou esse racionamento. Hoje é dia de lavar a minha calçada e vou lavar custe o que custar."

Observando os ânimos exaltados, uma viatura policial encostou na frente do grupo, "O que está acontecendo?" "Esse louco está desperdiçando água. É um egocêntrico! Um insano!" O policial agiu, "Meu senhor, por favor, desligue a mangueira agora." Foi quando Sr. Fernando perdeu a razão, "Não desligo, não desligo e não desligo!" Pior, mirou o esguicho bem no carro do policial e intensificou o fluxo, "Esse carro está sujo. Vamos dar um jeito nisso. Por minha conta."

Todos pasmaram. O policial não teve dúvida, "O senhor está preso. Já pra delegacia." Os fiscais e os transeuntes bateram palmas, "Isso mesmo. Desperdiçado! Inconsequente!" O vizinho permaneceu calmo, "Quero saber a razão oficial." "Desperdício de água e desacato à autoridade." Foi a hora em que ele mirou no gatilho na cara do policial e apertou com força. Depois, voltou-se para os fiscais e ensopou-os inteiros, ás gargalhadas, dizendo, "Vocês estão fedidos, precisam de um banho!"

Ninguém achou a menor graça, claro. Daí, deu-se o linchamento. O policial saiu do carro, arrancou a mangueira de sua mão, enrolou Sr. Fernando pelos pés com a própria, mumificando-o com ataduras de plástico laranja, e dependurou-o no poste. Deram nele até o desmaio, mas durante tudo, o homem manteve um sorriso nos lábios. Foi dessas situações em que não é claro que é o algoz.

Hoje, sinto por Sr. Fernando, mesmo ele tendo provocado a situação. Poderia ter ficado em casa tomando banhos de cinco minutos e reutilizando os respingos para dar a descarga, lavando os pratos num balde e usando o resto de água engordurada para lavar a calçada, assim como eu estou fazendo. Muitos outros, acredito. Naquele dia, ele precisava extravasar. Acabou no hospital...

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