OPINIÃO
02/02/2015 19:15 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Blogueiros: os novos-ricos literários

Ser escritor de literatura no Brasil não é tarefa fácil. Quero dizer que não é uma profissão que dá dinheiro. Mais precisamente, que todo mundo ganha mais dinheiro do que um escritor. Não apenas o editor, o cara da gráfica e o dono da Kombi, mas os servidores públicos de todas as esferas (mesmo os que vivem em greve e por justa causa), os flanelinhas e os malabaristas de sinal de trânsito. Pode parecer piada, mas não é. Basta calcular que o autor ganha 8% do valor de capa do livro (que custa em média uns R$30), que quando faz sucesso vende alguns poucos milhares após anos de trabalho.

Mike Licht, NotionsCapital.com" data-caption=" Mike Licht, NotionsCapital.com" data-credit="Mike Licht, NotionsCapital.com/Flickr">

Ser escritor de literatura no Brasil não é tarefa fácil. Quero dizer que não é uma profissão que dá dinheiro. Mais precisamente, que todo mundo ganha mais dinheiro do que um escritor. Não apenas o editor, o cara da gráfica e o dono da Kombi, mas os servidores públicos de todas as esferas (mesmo os que vivem em greve e por justa causa), os flanelinhas e os malabaristas de sinal de trânsito. Pode parecer piada, mas não é. Basta calcular que o autor ganha 8% do valor de capa do livro (que custa em média uns R$30), que quando faz sucesso vende alguns poucos milhares após anos de trabalho. O cálculo é R$6 por 3 mil livros vendidos em cinco anos, o que dá uma média de renda mensal de R$300/mês e não dá nem para pagar a conta de luz e água, mesmo com o racionamento...

Uma escritora mediana, como eu, não chega nem perto de vender esses milhares de livros por anos de trabalho. A minha conta é algumas poucas centenas de livros para o período, o que resulta numa renda mensal de R$30/mês. Se você ficou curioso em saber como eu faço para sobreviver, saiba que moro em cima de uma árvore na Cantareira e me alimento de acerolas e aipos. Brincadeira! O meu marido é um herdeiro milionário. Outra brincadeira! Vou manter meu segredo por enquanto, mas se a dúvida é porque insistimos neste ofício o motivo é transparente: somos loucos e apaixonados e obsessivos e não temos muita escolha. E porque nossa recompensa é ser lido e, sempre que possível, apreciado.

Por isso, desde que me tornei blogueira do Brasil Post, minha vida mudou. Eu passei a ser lida por milhares de pessoas em alguns dias. Ao invés de passar anos escrevendo um romance e esperar outros anos para ser lida por aquelas centenas de pessoas (que raramente se manifestam), eu agora passo uma hora escrevendo um texto que é lido por milhares de pessoas que logo se manifestam euforicamente. Isso me tornou uma espécie de nova rica literária. Não que eu esteja ganhando dinheiro com isso, mas como havia abandonado essa pretensão desde que aceitei um emprego de recepcionista num hotel chique (eis meu segredo), estar sendo lida está me fazendo sentir o máximo! Caminho nas ruas em total deslumbre, como se dirigisse um Porsche vermelho.

Um amigo escritor das antigas já havia passado por isso. Um dia chegou no bar dizendo que nunca mais escreveria literatura, porque o site dele com crônicas sobre a guerra dos sexos fazia muito mais sucesso e de forma rápida. Outro amigo preferiu ser publicitário porque seus slogans sobre sabão em pó eram lidos por milhões de pessoas e isso era mais importante do que suas parcas verdades ecoarem nas mentes de uma dúzia intelectuais (sempre os mesmos). Na época, eu estava começando a escrever profissionalmente e senti pena deles. Como era possível trocarem a arte por um público medido em números quando a experiência artística é eterna e um único leitor é o universo! "Nunca me renderei!!!", conclui na época.

O tempo passou e eu aprendi que a obscuridade corrói, tanto quanto a pobreza material. Escrever sem ser lido e escrever sem ser remunerado vai nos curvando, mesmo que continuemos escrevendo, até mesmo poesia, que é lida e rende ainda menos (meu cálculo da renda média dos poetas de sucesso no Brasil é de R$8/mês). Em reuniões de trabalho, me pego observando que todos na mesa ganham mais com o que eu escrevo do que eu, desde o manobrista na porta, passando pelo diagramador e revisor ortográfico, até a moça que serve o café. Enfim, continuo chorando miséria, mas não público. Aliás, já que vocês estão ai, aproveito para oferecer meus serviços como escritora de cartas de amor, cartas anônimas, discursos de final de ano para empresas ou formaturas, testamentos, etc.

Brincadeira, tá?

Esta crônica é apenas um agradecimento a vocês que estão lendo e curtindo as minhas crônicas aqui no Brasil Post.

Ps: Ah, e também é brincadeira que sou recepcionista num hotel chique. Ele nem é chique, mas vive vazio e é isso que importa, porque assim dá tempo para eu escrever! Agora, eu preciso ir que o gerente acaba de chegar.

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