OPINIÃO
23/01/2015 14:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

A revolução da infância eclética

divulgação

Eu não sou uma mãe bicho-grilo, não mais. Claro que quando minha filha nasceu, tudo no seu quarto tinha sido feito à mão (por mim), os brinquedos eram todos de feltro ou de madeira reciclada e eu tinha a certeza absoluta que ela nunca iria querer uma Barbie ou uma princesa da Disney. Mas, isso já faz alguns anos e hoje eu dou graças a Deus quando ela escolhe uma Barbie que não é loira ou uma das princesas moderninhas da Disney ao invés da Cinderela. Mesmo tendo superado a frustração das expectativas que minha filha seria uma mini-intelectual do mundo lúdico, tem dias em que perco a paciência...

Você que tem uma filha deve ter tido o infortúnio de ouvir falar da Baby Alive. Para os sortudos, informo que são umas bonecas-bebês com os olhos estatelados e um "não sei o que" que as torna objeto de desejo para as meninas e, claro, custam uma fortuna. Entenda, você não adquire uma dessas por menos de R$100 e assim que você faz esse sacrifício sua filha descobre que tem uma outra Baby Alive que não só tem uma chupetinha e uma mamadeira, mas também vem com um pijaminha e fala algumas palavras como "Mamãe, eu te amo" ou "Me dá um colinho". Isso não é nada, até o dia em que ela descobre a Baby Alive Comidinha e a coloca no topo da lista dos presentes de Natal ou aniversário. Acredite, até esse dia você não viu nada...

A Baby Alive Comidinha vem com duas fraldas descartáveis e dois saches de comida "de verdade" (leia-se mix nojento de algo inimaginável e verde para parecer ervilha concebido para a boneca comer sem matar sua filha caso ela ingira). Entenda, a boneca vai comer a comida e vai fazer coco "de verdade" na fralda. Juro que quando fui impelida a comprar essa boneca, que custa quase R$300, além de chorar no caixa do supermercado, não acreditei que ela realmente faria o coco, mas ela comeu o mix (com barulhinho de mastigar) e fez o coco, além de falar cerca de cinquenta frases (por isso, ela é a mais cara de todas). Depois que o botão cor-de-rosa no bracinho dela é apertado a mente das mães entra num espiral de desespero, porque ela nunca mais para de falar e pedir coisas! Ela está com fome, quer água, quer abraço, quer fazer xixi, quer, quer, quer.

No dia seguinte do Natal, pensei que a paz voltaria a reinar em casa, mas não. Lembra que eu disse que a Baby Alive Comidinha vem com duas fraldas e dois saches de comida? Pois bem, eles duraram a refeição da noite e a da manhã, então, precisávamos de mais comidinha e fraldas. Refis, claro! Eles não jogam para perder, os malditos produtores e marqueteiros da Baby Alive, a quem apelidei de Dead Adults. Provavelmente, eles estão vivos, sãos e ricos, mas isso é temporário porque em breve eu os encontrarei. Eis que eles bolaram um SUPER REFIL contendo 15 fraldas e mixes de pós de comida nojenta que custa - R$89.99. Quando vi isso na prateleira, a mãe rendida ao mercado se esvaiu e a mãe bicho-grilo ressuscitou das trevas, "Chega!"

Virei para minha filha, que tem três anos, e expliquei que aquele produto era extorsivo e alienante. Que os caras que produziam a Baby Alive não eram pessoas legais, ao contrário, eram pessoas más que queriam explorar a mamãe e o papai e dominar sua mente. Tudo bem, minha filha não sabe o que é explorar e nem leu sobre alienação, mas ela precisava entender que aquilo tinha limite. Daí, me veio uma ideia brilhante. "A nossa Baby Alive, filha, é especial. Ela é tão especial, que ela não vai usar fraldas descaráveis que não são nem ecológicas. A mamãe vai fazer uma fralda de pano para ela e ela vai comer da nossa comida. Ok?" Não sei se o argumento foi convincente ou o meu desespero foi enternecedor, mas ela topou, "Está bem, mamãe."

Desde a vitória surpreendente da razão, passeamos com nossa Baby Alive vestida com as fraldinhas recicláveis pela praça. Ela come a papinha antroposófica de espinafre e batata-doce feita em casa e estamos todos felizes. Sinto-me vitoriosa ao ponto de conceder uns beijinhos e abraços na Baby Alive quando que ela pede, pede, pede. Não fico nem tão irritada com o risinho ridículo que se segue quando ela consegue. Afinal, a experiência com ela me fez constatar que não preciso ceder em tudo para deixar de ser a xiita dos brinquedos de madeira. Os brinquedos de plástico alimentados por pilhas podem interagir saudavelmente com os tecidos orgânicos e conceitos mais interativos. Inauguramos o conceito do eclético no universo lúdico de casa!

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