Opinião

Por que só nos restou marchar?

Andar pelas ruas é um ato pacífico. Isso combina com as mulheres e a forma como vivenciamos o gênero nas culturas. Mas marchar é também o que nos restou: desacreditamos dos parlamentos, somos ignoradas pelos poderes políticas, cada vez mais nos devolvem para a casa e o cuidado dos filhos como um destino da natureza. O retrocesso político que vivemos - olhem para nossa vizinha Colômbia, onde o acordo de paz é negociado por agendas conservadoras em matérias de interesse das mulheres - tem nas mulheres um dos alvos prioritários. Marchar é a resistência pacífica, mas também a resignação diante da brutalidade de nosso tempo.
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A woman looks on as people gather in an abortion rights campaigners' demonstration to protest against plans for a total ban on abortion in front of the ruling party Law and Justice (PiS) headquarters in Warsaw, Poland October 3, 2016. REUTERS/Kacper Pempel
A woman looks on as people gather in an abortion rights campaigners' demonstration to protest against plans for a total ban on abortion in front of the ruling party Law and Justice (PiS) headquarters in Warsaw, Poland October 3, 2016. REUTERS/Kacper Pempel

Ir às ruas. Marchar e vestir preto. Silenciar-se em meio à multidão em uma cerimônia coletiva de luto. É assim que as mulheres da Polônia resistiram à proposta do governo de alterar a lei de aborto. É assim que gente comum da cidade de Mar del Plata, na Argentina, hoje caminhará pelas ruas. O país fará greve geral de uma hora. Lucía Peréz era uma menina de 16 anos, foi estuprada, empalada e asfixiada. Morreu em tortura. O laudo do Instituto Médico Legal pede decência ao repetir os detalhes de brutalidade dos homens violentos. O sofrimento de Lucía foi terrível; ela foi vítima de feminicídio, uma palavra nova para crime antigo: a matança de mulheres.

Há fatos espantosos na morte de Lucía. O primeiro foi a pilhagem do corpo. Lucía foi matéria bruta para práticas odiosas, a morte se deu por tortura além do estupro. O segundo é o cinismo dos matadores: banharam o corpo, ajeitaram-no para a cena investigativa, e foram em plena presença levá-lo à perícia policial. Argumentavam overdose de drogas. O cinismo dos matadores não deve ser entendido como desconhecimento dos ritos investigativos da polícia, mas como certeza da impunidade. São machos a quem seria autorizada a pilhagem de corpos de meninas. Enfrentavam a polícia como se falassem com vizinhos. Portavam-se como homens solidários ao sofrimento de uma vítima.

O terceiro fato espantoso é o abandono das mulheres. E é um abandono sem fronteiras. Desamparadas pelo Estado, só nos restou sair às ruas. Marchar, emudecer, vestir preto. Se na Polônia foi a lei de aborto, na Argentina, é o feminicídio. Entre nós, há uma lista extensa, pararíamos o país diariamente. É a falência dos serviços de aborto legal, a epidemia do vírus zika, o feminicídio, todos temas considerados delicados para uma crise política e econômica, mas viscerais à sobrevivência das mulheres. Por que só nos restou marchar?

Andar pelas ruas é um ato pacífico. Isso combina com as mulheres e a forma como vivenciamos o gênero nas culturas. Mas marchar é também o que nos restou: desacreditamos dos parlamentos, somos ignoradas pelos poderes políticos, cada vez mais nos devolvem para a casa e o cuidado dos filhos como um destino da natureza. O retrocesso político que vivemos - olhem para nossa vizinha Colômbia, onde o acordo de paz é negociado por agendas conservadoras em matérias de interesse das mulheres - tem nas mulheres um dos alvos prioritários. Marchar é a resistência pacífica, mas também a resignação diante da brutalidade de nosso tempo.

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