OPINIÃO
17/08/2018 11:21 -03 | Atualizado 17/08/2018 11:41 -03

Por que 'Like a Prayer', de Madonna, é o álbum mais importante já feito por uma mulher

Warner Records/AP Iimages
Madonna made history with 'Like a Prayer' album.

Há 29 anos, Madonna lançou o álbum que não apenas é seu melhor até hoje como possivelmente o lançamento mais importante na história de uma artista mulher. Isso não significa que Like a Prayer seja o melhor álbum já criado por uma artista mulher, mas está perto disso. Depois de seis anos em que foi vista como uma frivolidade pop e uma garota disco sem grande importância, finalmente em 1989 a maioria dos críticos de música passou a levar Madonna a sério. Mesmo assim, Like a Prayer merecia ainda mais que elogios surpreendentes da crítica.

Se Madonna e misoginia não fossem praticamente sinônimos, Like a Prayer não apenas teria recebido vários Grammys em 1990 (quando nem sequer foi indicado em alguma categoria importante), como seria elogiadíssimo 29 anos mais tarde pela composição e produção. Se um homem criasse o mesmo tipo de vocais que Madonna em Like a Prayer, os críticos observariam que sua voz não é tecnicamente perfeita, mas nítida, melódica e carregada de emoção. Em se tratando de Madonna, que com certeza nunca conseguiu alcançar as mesmas notas que Aretha Franklin ou Whitney Houston, simplesmente é mais fácil para as pessoas dizerem que "ela não sabe cantar".

Para as pessoas (especialmente pessoas da geração X) compreenderem a importância que Like a Prayer teve para a cultura e a música, elas precisam entender o ambiente repressor no qual o álbum de Madonna surgiu, em março de 1989. O final dos anos 1980 foi governado pela direita religiosa, para a qual a Aids era uma maldição decretada por Deus contra a comunidade gay. Mulheres que pusessem a boca no trombone ou usassem roupas ousadas eram descritas como putas, vagabundas, vadias, etc. A brutalidade policial contra afro-americanos ainda era amplamente aceita, sem muita reação. E namoros inter-raciais ainda eram vistos como um tabu.

Levando tudo isso em conta, vamos analisar as razões por que o álbum Like a Prayer foi um marco tão importante.

O vídeo de Like a Prayer

O videoclipe da faixa-título é cheio de imagens provocantes que assustaram e chocaram a direita religiosa. Mas nenhuma das imagens, que são usadas para puro efeito de simbolismo, é blasfêmia. O mais importante é que Like a Prayer é um vídeo que mostra racismo, sexismo e brutalidade policial. Ele incentiva o espectador a pensar nesses assuntos e superar essas posturas, algo que em 1989 não era visto como "cool". A ideia de um "Jesus negro" também era vista como blasfêmia por alguns, especialmente pela direita religiosa.

O que veio depois de Like a Prayer foi inédito, na medida em que Madonna frustrou a tentativa de censura da direita religiosa. Os esforços dessa direita levaram a Pepsi a demitir Madonna como sua porta-voz, mas não conseguiram prejudicar o sucesso da cantora nem censurar o vídeo – muito pelo contrário. O single e o vídeo de Like a Prayer chegaram ao primeiro lugar nas paradas e continuam a ser clássicos amados, mesmo hoje, quase 30 anos mais tarde. Madonna abriu o caminho para outros artistas não apenas desafiarem a direita religiosa, mas a derrotarem.

A canção Like a Prayer

Mesmo que você não esteja convencido de que o vídeo Like a Prayer é uma obra-prima artística, a canção se destaca por seu valor. A Rolling Stone e a Billboard já a descreveram como uma das melhores canções pop de todos os tempos, e a canção virou um clássico spiritual, mesmo entre quem não é fã de Madonna.

Like a Prayer foi um dos destaques do Live 8 em 2005 e também do concerto Hope for Haiti, em 2010. Ela foi uma das atrações principais do show Super Bowl Halftime de Madonna em 2012. Qualquer apresentação ao vivo da canção tem a garantia de levar a plateia ao êxtase.

"Express Yourself"

Nesta década, Express Yourself talvez seja conhecida principalmente como a canção que inspirou (talvez um pouco demais) o hino de empoderamento LGBT de Lady Gaga Born This Way. Porém, como ressaltou a Gay Times Magazine, também Express Yourself se tornou para a comunidade LGBT uma canção de empoderamento. No final dos anos 1980, entretanto, ela era conhecida principalmente como hino do empoderamento feminino. "Não aceite a segunda melhor opção, baby" virou um slogan de mulheres fortes que estavam fartas de serem tratadas como cidadãs de segunda classe por homens e outras mulheres que ainda se submetiam ao patriarcado.

Ativismo anti-Aids

Bastaria o folheto sobre HIV/Aids que Madonna acrescentou a cada exemplar de Like a Prayer para desmentir a noção de que ela fosse um exemplo negativo ou tivesse uma influência prejudicial sobre a geração do milênio (especialmente as mulheres e os adolescentes). Madonna informou muitas pessoas sobre HIV/Aids e sexo seguro, isso numa época em que escolas, a mídia e as instituições religiosas mantinham distância desse tema. Uma iniciativa como essa em 1989 poderia ter prejudicado sua carreira no showbusiness, mas Madonna sobreviveu e prosperou fazendo a coisa certa e ao mesmo tempo, possivelmente, ajudando a salvar vidas.

Música pop e arte

Uma resenha publicada na Rolling Stone por J.D. Considine em abril de 1989 observou corretamente que Like a Prayer era "o mais perto que a música pop pode chegar da arte". O álbum tratou de temas como a inocência infantil, os traumas de infância, o abuso infantil, o abuso de cônjuges, os direitos das mulheres e a espiritualidade. Ele misturou todos esses temas para fazer o ouvinte não apenas pensar e dançar, mas também fazer perguntas – algumas das quais eram perigosas de se colocar em 1989. Like a Prayer provou que uma artista podia misturar estilo e substância para romper barreiras sociais e musicais. Hoje, 29 anos mais tarde, muitos artistas pop, incluindo a própria Madonna, tentam acertar todos os pontos corretos, como fez Like a Prayer, mas simplesmente não exercem o mesmo efeito.

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