OPINIÃO
13/03/2014 18:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Papa Francisco: 'homem do ano' para os gays?

Experimentamos um verdadeiro salto quântico na atmosfera reinante. Francisco está liderando essa mudança de tom revolucionária.

"Fortiter in re, suaviter in modo" era o mote de Claudio Acquaviva, um dos mais famosos jesuítas da Contra-Reforma. Ele poderia ser traduzido como "forte nas ações, delicado nos modos". Com esse lema, vemo-nos presos no dilema que representa o primeiro jesuíta na corte do papa, especialmente evidente em sua última grande entrevista.

A maneira de transmitir informação, particularmente a delicadeza do tom, mais uma vez levou a mídia a explodir de júbilo pelo papa.

Isso vai tão longe, que no fim do ano passado a revista LGBT "Advocate", de renome global, escolheu o papa Francisco como Personalidade do Ano por sua posição liberal em relação aos homossexuais.

Estávamos de fato acostumados com um ambiente de homofobia paranoica, assim como de discriminação contra as mulheres, sob o papa Bento. A orgulhosa e imediata rejeição de qualquer coisa e tudo o que não se encaixasse no conceito beneditino de igreja do rebanho conservador restante havia se tornado evidente. E agora experimentamos um verdadeiro salto quântico na atmosfera reinante. Francisco está liderando essa mudança de tom revolucionária. Sua advertência para não nos prendermos a detalhes e particularidades, como homossexualidade e aborto, pode ser vista como uma crítica a seu antecessor que não poderia ser mais marcante e decisiva.

Se o catolicismo fosse apenas um sentimento, este tema poderia ser confiantemente deixado nesse nível de euforia. No entanto, o método brando dos jesuítas sempre teve o objetivo de tornar a questão mais palatável e assim fazê-la ser aceita. O catolicismo é fundamentalmente feito de uma doutrina que determina muito concretamente o modo de vida e a política da igreja. Mas Francisco demonstra pouca coragem para mudanças quando se trata dessa doutrina. Quando a discussão se torna concreta, o papa se esquiva e foge, coloca contraperguntas e insiste em respostas ambíguas. O que quer dizer quando Maria é considerada mais importante que um bispo comum, mas o papel concreto das mulheres continua basicamente o mesmo? Em que ajuda os homossexuais o fato de sua existência, como seres humanos e fiéis, ser tolerada, mas por outro lado eles não poderem de fato realizar essa opção, pois sua autorrealização continua sendo um "pecado", uma "ferida social" no ventre da igreja?

No entanto, podemos ler claramente a posição do papa jesuíta nas entrelinhas. Quando se trata de conteúdo duro, Francisco prefere se manter um "filho da igreja" e só oferece soluções tradicionais. Mais uma vez, a semelhança com o cardeal Acquaviva é surpreendente. O "suaviter in modo" deste deriva da obra intitulada "Curando as Doenças da Alma". Francisco indiretamente retoma esse título ao ver a sociedade como um grande campo de batalha, cheio de almas deferidas. Nessa visão completamente antimoderna, a igreja torna-se um "hospital de campanha". Os religiosos assumem o papel de enfermeiros, que esperam os pecadores arrependidos no confessionário, para curá-los. Esse é também exatamente o lugar que o papa Francisco vê ultimamente para os homossexuais, que pecaram por viver sua sexualidade. Se eles se sentirem realmente arrependidos e desejarem melhorar, então esse é o lugar onde lhes oferecem o perdão da igreja. Os homossexuais, portanto, podem ser aceitos como vítimas feridas, arrependidas, com a consciência pesada, que buscam simpatia e compaixão. Resta a questão de se Francisco está consciente de que essas feridas são muito claramente a consequência da demonização da homossexualidade pela igreja.

Um hospital de campanha não apenas exige enfermeiros gentis, mas também um médico que segura firmemente o bisturi. Isto só será necessário quando os homossexuais conscientemente se erguerem e exigirem igualdade. Assim, quase simultaneamente com a entrevista do papa, o Vaticano enviou um claro sinal político da igreja, na pessoa do cardeal Coccopalmerio. Durante uma conferência na Santa Sé, o cardeal fez o público saber que as leis contra a homofobia não devem ser permitidas na Europa. A homossexualidade é objetivamente maligna e as pessoas devem poder mostrar isso claramente. O próprio papa Francisco pediu ao regime francês que revogue a legalização do casamento gay no país.

E assim, rapidamente, vêm à luz a amarga verdade e as duras realidades por trás das amistosas cortinas do "suaviter modo".