OPINIÃO
07/11/2015 14:45 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

3 vezes #AgoraÉQueSãoElas

Estamos vivendo tempos obscuros no Brasil. Mulheres estão perdendo direitos conquistados com muita luta na história deste país, graças a pulhas como Eduardo Cunha e todo seu poder sobre a sociedade brasileira.

Em resposta a tudo isso, nesta semana a onda #AgoraÉQueSãoElas está tomando blogs, sites, portais, jornais, colunas e redes sociais. Funciona assim: mulheres são convidadas por homens a ocuparem seus espaços. Faço questão de abrir meu espaço no HuffPost Brasil para três mulheres, cada uma com um texto e uma situação diferente.

Preste atenção, leia, ouça, compartilhe. Participe.

Por mais respeito na folia, por Nathália Rodrigues

Quatro dias de intensa farra, liberdade, desprendimento, diversão e fantasia: o Carnaval é o momento mais esperado do ano por mim e por tantos que eu conheço. Gosto tanto que até criei uma máxima: "Não há nada como o Carnaval". Mas também não há nada como o machismo do Carnaval. Porque se tem uma coisa que os caras não entendem é que é possível você estar ali no meio do bloco e não querer beijar ninguém, e não querer que nenhum cara encoste em você. "Mas veio pro bloco fazer o quê?" É o que eu e minhas amigas temos que responder incansáveis vezes, isso quando eu não preciso usar de força física e empurrá-los pra bem longe mostrando que não estou afim de contato.

É difícil, e o pior é que eu sinto que já estou acostumada com essa aporrinhação carnavalesca que, ainda bem, é minimizada pela sensação de chegar ao final de mais um percurso suada e muito feliz.

O machismo (infelizmente) impera no Carnaval. A ideia da liberdade e da folia faz com que muitos homens se achem no direito de chegar, agarrar e simplesmente beijar uma mulher. Eu pulo Carnaval há vários anos e é com alivio que sinto uma crescente diminuição desses ataques mais bruscos, mas ainda assim em 2015 bastava olhar para o lado e ver alguma mulher se defendendo, chamando os amigos homens ou fingindo que tem namorado. Eis um outro ponto muito chato: ter que mentir e fingir que estou acompanhada de outro homem porque só assim o cara vai entender. O respeito não é para mim e sim para um outro homem, fala sério!

E como lidar com os bêbados? Uma vez durante um bloco em Cerquilho um cara chegou literalmente puxando o braço de uma amiga e eu e mais um amigo tivemos que intervir até que ele fosse embora. Algumas amigas me perguntam se eu não tenho medo de ser agredida.

E a verdade é que na hora minha revolta é tão grande que supera qualquer temor. Tanta coisa poderia ser diferente. A começar pela própria mídia que usa o corpo das mulheres (sejam foliãs, passistas ou rainhas de bateria) pra gerar ibope e clique. Durante a transmissão das escolas de samba é nítido o enfoque que os cinegrafistas e fotógrafos dão nas bundas e nos peitos. Sinceramente: qual a necessidade disso? E todo ano é a mesma coisa: o maior destaque no Carnaval é para as mulheres e não para a festa em si.

A mudança deveria ser de um todo e em todos os cenários. Ainda bem que os amigos que pulam carnaval comigo já sabem que é pra deixar as mulheres em paz e somente se houver interesse de ambos, ai sim, ai vai com vontade!

Faltam somente dois meses para mais uma Festa de Momo, ansiedade e coração já ansiosos por mais quatro lindos dias de festa na rua, mas espero francamente que os homens se conscientizem de uma vez por todas a importância de deixar as meninas em paz!

Fica a dica: Mais vale um folião sozinho do que um mala nos irritando!

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Para meninas que não sabem calcular distâncias, por Juliana Ramos

Regina tem cinquenta anos. É mãe de três filhos homens, avó de dois meninos. Mora na periferia. Fez curso técnico de enfermagem e de administração de empresas. Já trabalhou de tudo o que é coisa, tinha casa para sustentar.

Há oito anos, se divorciou. Foi amigável e os dois são amigos até hoje. Mas não casa de novo, não, pelo amor! Mora sozinha e tem orgulho do carrinho velho que suou para pagar cada prestação. Conta emocionada como o carro a ajudou a ir atrás do filho em boca de fumo na madrugada, sozinha. Diz que o salvou da morte, e que hoje ele está limpo e trabalhando, graças a Deus.

Abre o sorriso largo para dizer que tem um namorado lindo, companheiro e que gosta de sair com ele nos fins de semana. Regina tem firmeza na voz. Firmeza de quem precisou muitas vezes se impor. De quem precisou provar, mais de uma vez, que era capaz de fazer, e fez. É mulher como muitas.

Quando ficou desempregada não desanimou. Fez mais um curso com o dinheiro que tinha na poupança e virou professora nas aulas teóricas de direção. Foi usar sua voz firme na sala de aula e descobriu que gostava muito de estar ali.

Foi nessa situação que ouvi a história de Regina pela primeira vez. Toda vez que se apresenta para uma turma nova repete sua história. Diz que é importante que saibam quem ela é e que a partir daí aconteça o vinculo e a troca entre professor e aluno que tanto gosta.

Fiquei feliz por ter uma professora mulher num ambiente tão claramente dominado por homens. Achei lindo que na sala com 20 alunos, metade fossem mulheres como eu. Tudo realmente empolgante até a segunda aula:

- Aí você estaciona o carro assim... E para as meninas que não sabem direito calcular distâncias...

- Meninas? [Eu já espumando pela boca]

- É, meninas entendem menos de carro e distan..

- Regina, cuidado com o que você vai falar...

- Mas é que meninos respiram carro desde pequenos e entendem melho...

O que eu podia fazer?

Disse que ela era machista e que devia tomar cuidado com os exemplos que dava. Ela se desculpou e a aula seguiu. A partir daí comecei a ver Regina de outro jeito. Percebi que toda explicação era pautada nas diferenças de gênero que ela enxergava. Vi que tudo o que havia feito ela se tornar a mulher forte e capaz que eu admirei, também fez dela um reflexo do mundo em que ela sobrevive. Regina não se vê como uma mulher que conquistou tanto por ser mulher. Mas para ela a mulher é o sexo frágil.

As aulas e mais exemplos como este seguiram. Eu não retruquei mais quando vi que as outras mulheres da sala não se ofendiam com o que era dito. A maior parte só queria que a aula terminasse logo, para que todas pudessem voltar pras suas vidas. Eu podia estar cercada de mulheres machistas e não era a hora nem o lugar de travar uma batalha.

Com o passar do tempo, a frustração se transformou em tristeza. Eu queria muito que ela entendesse que não era só uma questão de opinião. Que ela é formadora, influenciadora, educadora. Que tudo o que ela diz reforça os conceitos e estereótipos que homens e mulheres presenciaram a vida toda. Uma mulher com espaço para empoderar outras não é obrigada a se tornar militante dos direitos das outras mulheres. Bastava que ela deixasse o gênero de lado e tratasse todos como pessoas. Mas isso só acontecia dentro da minha cabeça. "As pessoas que tem dificuldade de calcular distancias" ; "Pessoas que se sentem inseguras em dirigir a noite."

- Agora vou passar vídeos com cenas fortes. As meninas que não gostam de ver sangue podem fechar os olhos ou baixar a cabeça.

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O nosso silêncio era lugar-comum, por Juliana Bertolucci

Quando recebi o convite para participar da campanha, fiquei emocionada e pensando no que escrever, em como usar esse espaço de maneira responsável, se queria tratar de assuntos delicados, e o quanto estava disposta a me colocar, ser mal interpretada, ou criticada etc. E fazendo esse rápido balanço percebi a ação de um mecanismo constante na minha vida: a opressão.

A campanha é sobre muitas coisas e uma delas é ouvir. Quero começar meu texto convidando você a se colocar nesse lugar de ouvinte. Sua única ação enquanto lê é essa: ouvir. Só isso? Sim, ouvir com atenção, sem pensar no que vai dizer, no que vai responder, no que vai perguntar. Simplesmente ouvir. Eu agradeço.

Desde cedo fui assediada e abusada, invadida muito intimamente: na minha privacidade, no meu direito a meu corpo e à minha sexualidade, no meu direito a existir. E por quê? Porque nasci mulher. Feminino, prazer, vontade (desejo de vida mesmo), essência e limite colaram-se, contra a minha vontade, a outros conceitos como abuso, culpa, inferioridade, medo, sofrimento, opressão e invasão. Na minha lógica infantil, ser quem eu sou virou o mesmo que dar direito ao outro de fazer isso comigo. E, como demorei anos para ter condições de gritar BASTA!, virou também ser incapaz de dizer não e de me proteger, virou aceitar. Não é só isso que me constitui, mas como aconteceu cedo e o impacto emocional para mim é profundo, perpassa muitas esferas.

Na medida em que cresci e tomei consciência, esse bolo confuso dentro de mim não tinha muitos espaços de apoio fora. Pelo contrário, a maioria dos espaços e redes com as quais me relacionei e relaciono reafirmam essa ideia de que nascer mulher permite abuso, invasão, subjugação, inferioridade e desempoderamento. Desde ouvir que se "você for tão questionadora assim homem nenhum vai querer ficar com você", "você nunca está satisfeita, o mundo é assim e você precisa aprender a jogar o jogo"; "você não vai viajar sozinha porque é mulher", "essa não é mulher para casar"; "também o que você estava fazendo bêbada com um estranho na balada", "também quem mandou sair de saia curta", "puta mina louca"... Passando pelas propagandas, filmes, jornais, livros etc. etc. etc.. O modelo educacional da não autonomia, os textos conjugados no masculino, as relações familiares, e as estruturas de poder nos ambientes de trabalho pelos quais passei. Os vídeos trocados pelos amigos, muita merda que já ouvi e muita merda que já falei e fiz.

Eu escrevi para a campanha , proposta pelo Think Olga, depois de assistir ao vídeo "Vamos fazer um escândalo" da Jout Jout Prazer. Eu não contei sobre o meu, nem o segundo, nem o terceiro, nem o centésimo, foi ainda depois desses. "Ou quando você já é "mulher feita" e é convocada, mesmo dizendo que não quer, a dar parabéns para uma "pessoa importante na firma", a qual você nem conhece, e ele te abraça pela cintura e fica contando causos de sua vida e faz um "elogio" à sua beleza no meio. Você ali desconfortável por cinco minutos, tentando se desvencilhar, não querendo causar uma situação desagradável... daí você comenta, pra "ver se não é coisa da sua cabeça", e ouve de diversas pessoas que aconteceu várias vezes... eu não fiz nada... o assunto não é confortável mesmo, o que quer dizer a gente precisa falar sobre com muita abertura, delicadeza, tolerância, responsabilização, clareza, assertividade, respeito e amor, pra ele deixar de ser normal, né não?".

Ouvi e vivi outras histórias de assédios nos lugares em que trabalhei. A cada uma e a cada reunião de negociação estratégica fui desenhando como as estruturas de poder/hierarquia estavam baseadas em relações abusivas. Uma vez, ao contar uma série de abusos e assédios morais que vinha vivenciando e presenciando, ouvi de um "superior" que a "instituição funcionava assim mesmo". Respondi que ele tinha uma escolha naquele momento, ser conivente ou se posicionar de uma forma diferente. As instituições são feitas por gente, e a cultura institucional é criada e mantida pelas pessoas. Ele escolheu a conivência. Eu não consegui mais lidar com isso, não quero ser conivente.

Vivemos numa cultura de abusos, está internalizado nas estruturas de pensamento, relação e ação. Vivo numa cidade em que um cara se sente totalmente à vontade para abrir a janela do seu carro e ficar falando impropérios para uma menina de 11 anos. Em que outro acha normal começar uma reunião soltando um "finalmente a gerência mandou uma bonitinha para falar com a gente". Vivo num país em que se sentem à vontade para propor e aprovar o PL 5069/2013!

Ser mulher no Brasil é ser muito corajosa. Lidamos com assédios e abusos e seus impactos em nossas vidas todos os dias. Como comentou uma pessoa querida, "não é porque não falamos que somos menos corajosas, ou fracas, ou coniventes... Não. Me recuso! Sim, queria gritar, sim se fizermos do assunto um assunto mais comum, corrente e discutido, vamos nos sentir cada vez mais empoderadas para fazer um escândalo. Mas se não o fizemos foi porque de alguma forma fomos vítimas duas vezes... do assédio e daquilo que entendemos como possível consequência de fazer o escândalo, o de ser "culpada" pelo assédio, o da não proteção... Que nos empoderemos, escandalizemos, mas que não nos sintamos culpadas de não ter gritado!".

É preciso muita fala, escuta, diálogo, cura, desconstrução, responsabilização, amor e ação para transformar isso. E mesmo sendo difícil para mim, muito escândalo, sem perder a doçura. Como colocou outra querida, "a desconstrução que um escândalo pode proporcionar é maior neles do que em nós, pois o nosso silêncio é lugar comum".

Sobre o amor, uma outra pessoa querida comentou não conseguir "falar sobre este tema com amor. Não sei se devemos". Eu também não sei, na minha história, um pedaço da minha transformação precisou passar pelo perdão e pelo amor para chegar ao empoderamento.

Replicar e fortalecer essas estruturas de abuso, opressão e desempoderamento da outra ou agir para quebrar isso é uma escolha individual, que fazemos a cada instante, muitas vezes sem nos dar conta. Coloco meus pontos de vista para convidar você expandir os seus e ter mais lentes para observar, pensar, sentir, escolher e agir.

Para mim, BASTA! Não aceito esse papel a mim reservado por ser mulher: o de vítima numa sociedade abusiva.

Agradeço por você escolher se colocar nesse lugar de ouvinte enquanto eu falei. Lugar em que me coloco agora, para você falar.

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