OPINIÃO
20/07/2018 21:28 -03 | Atualizado 20/07/2018 21:30 -03

Fake news: A solução definitiva

"Para evitar que pessoas tenham suas mentes invadidas, nós precisamos tornar os indivíduos menos susceptíveis a acreditar em boatos."

natasaadzic via Getty Images

Desde as eleições americanas de 2016 o mundo vem usando um novo termo: fake news. Isso significa notícia falsa.

Nós sabemos que apesar disso, o fenômeno de fake news, em si, é bem mais antigo que o uso da expressão, pois antigamente apenas usávamos outros nomes como "boato", "rumor", "lorota", etc.

Sabemos também que estas notícias falsas são muito danosas. Podem ser usadas intencionalmente para manipular massas e assim organizar protestos e eleger políticos.

Podem também ser criadas acidentalmente e sem intenção política, mas nesse texto quando falarmos de fake news vamos nos referir ao seu uso político.

Mas pouco se fala sobre como efetivamente combater esse mal. Será que temos uma solução definitiva?

Bom, podemos tentar resolver esse problema de 3 maneiras simultaneamente.

Vamos à primeira delas!

As leis

Podemos começar com uma ideia simples: se queremos acabar com algo devemos proibir por lei!

Tivemos uma noção de como seria a atuação de leis quando, em junho desse ano, o TSE determinou que o Facebook excluísse a notícia na qual afirmava que Marina Silva, pré-candidata da Rede à Presidência, estaria envolvida na Operação Lava Jato e teria recebido propina de empreiteiras.

A tecnologia

Essa ação do TSE não teria nenhum resultado se o Facebook tivesse se recusado a atender ao pedido da justiça. Logo, precisamos contar também com essa rede social.

Além disso, empresas de tecnologia, como a de Mark Zuckerberg, podem também ter suas próprias iniciativas para combater boatos na internet. Um exemplo disso seria a empresa permitir e ajudar usuários da rede a indicar conteúdo falso e reduzir o alcance de páginas que disseminam mentiras ou meias-verdades.

Limitações das leis e tecnologia

Leis e tecnologia parecem realmente fazer parte de uma boa solução contra fake news, e DEVEM ser utilizadas. Porém não podemos fechar os olhos para suas limitações.

O principal problema é: quem decide que notícias devem ser retiradas de circulação?

É claro que se uma notícia for comprovada falsa, ela deve ser deletada. Mas não há nada que garanta que outras (tão falsas quanto) permaneçam intocadas por mera ideologia de quem escolhe, criando assim um filtro seletivo.

Então quem deve ser o escolhedor? O Governo? O Facebook? Minha avó?

Bom, vamos supor uma situação ideal em que exista uma instituição de alta credibilidade onde todos concordam não possuir um viés. Ideal para a tarefa!

Porém, o fato desta instituição ser ideal hoje não quer dizer que ela será sempre assim. No futuro, talvez, ela sofra interferência de pessoas mal-intencionadas. Isso sempre gera uma desconfiança.

Afinal de contas, acho que ninguém gostaria de viver em um futuro (quase distópico) no qual uma entidade decide o que é verdade e o que não é.

Então devemos dar esse poder ao povo?

Novamente, isso não daria certo.

Se houvesse uma "democracia dos boatos" e as notícias com mais votos fossem mandadas para lixeira, isso acarretaria guerras ideológicas entre grupos extremistas. Os que defenderiam um lado fariam mobilizações enormes para derrubar certas notícias que beneficiariam o outro lado, mesmo que tais notícias fossem verdadeiras.

Em outras palavras, mesmo que atualmente tivéssemos um escolhedor ideal (que está longe de existir) não é possível evitar que fake news continuem sendo espalhadas para manipular massas a longo prazo.

Somado a isso, temos a total impossibilidade de deletar alguns meios em que boatos são espalhados. No WhatsApp, por exemplo, informações falsas muitas vezes nem se quer possuem um endereço na internet para ser desativado. Às vezes, são apenas textos de mensagens, áudios e imagens presentes em cada aparelho dos usuários. Tais textos são copiados e colados a exaustão e jamais serão rastreados.

E o fator MAIS IMPORTANTE é que, mesmo depois que uma notícia é reconhecida como falsa e excluída, haverá uma dificuldade de desconstruí-la. Nossa mente simplesmente não consegue desconstruir com facilidade ideias e conceitos já estabelecidos. Para o nosso cérebro é muito mais fácil criar uma informação pela primeira vez do que alterá-la depois.

Então essa é uma guerra perdida?

- O ciclo das fake news

A educação pode ser a única solução definitiva! E para entender, veja o ciclo das fake news:

Reprodução
Um Agente Manipulador gera

Essa imagem serve para mostrar que, para acabar com boatos, precisamos quebrar esse ciclo combatendo uma ou mais dessas três partes: Agente Manipulador, fake news e Massa Manipulada.

O Agente Manipulador

Combater o Agente Manipulador é extremamente difícil, pois, se usada da maneira certa, a internet pode garantir um grande anonimato a um criador de notícias falsas em larga escala.

Para se ter uma noção, imagine que um grupo pequeno de apenas dez pessoas foi contratado para espalhar boatos na internet para ajudar um político nessas eleições. Não é nada absurdo ser deixado a disposição de cada contratado uma quantidade de dez chips de celular.

Da mesma forma, é perfeitamente plausível que cada chip represente uma "pessoa comum" em dez grupos no WhatsApp. Cada grupo pode facilmente ter 100 integrantes. No caso, esses grupos serão compostos por assuntos não relacionados à política, por exemplo: "Torcedores do Flamengo em Salvador", "Vendas e Trocas de usados em Fortaleza" ou "Caminhoneiros de Belo Horizonte".

Se fizermos as contas, essa equipe de dez pessoas é capaz de atingir, em termos extremamente conservadores, um mínimo de 100 mil eleitores.

Quanto custa isso?

Cada pessoa não precisaria de mais de 4 horas diárias de trabalho (meio expediente) para copiar e colar algumas mensagens nos seus 100 grupos de WhatsApp. Vamos dizer que, por esse emprego, ela ganhe R$ 500 por mês (proporcionalmente mais do que um salário mínimo). Já que são dez pessoas então o valor mensal da equipe seria R$ 5 mil.

Qualquer instituição política ou até indivíduos com fortes ideologias podem ter acesso facilmente a 100 mil pessoas por R$ 5 mil por mês. São R$ 0,05 por possível eleitor atingido.

O que são R$ 5 mil para campanhas presidenciais com orçamentos de CENTENAS DE MILHÕES? Certamente vão investir mais que R$ 5 mil para ter acesso a muito mais eleitores.

Como dito antes, é praticamente impossível descobrirmos quem são as pessoas por trás dessa produção em larga escala de fake news.

Ou seja, é fácil, barato e seguro ser um Agente Manipulador, e a recompensa é alta: invadir a mente das pessoas e fazer elas pensarem o que você quiser.

Fake news e a Massa Manipulada

Voltando ao ciclo das fake news, precisamos nos concentrar em quebrá-lo de outras formas. Precisamos combater uma das outras duas partes: as fake news em si ou a Massa Manipulada.

O combate às próprias notícias falsas já foi explicado, e é feito por meios de leis e tecnologia. É um esforço necessário, porém como foi apontado, possui as suas limitações.

E a Massa Manipulada? Como combatê-la?

É aí que começamos a falar de uma solução definitiva.

Na verdade, não importa o quanto melhorarmos as leis ou a tecnologia para prender Agentes Manipuladores e deletar fake news, pois esses dois sempre irão se adaptar e encontrar um jeito de sobreviver e permanecer fortes.

Lembre-se que a recompensa é alta (invadir mentes). Mesmo com mais restrições e riscos, ainda será um negócio bem lucrativo.

Que tal acabar com essa recompensa?

Para evitar que pessoas tenham suas mentes invadidas, nós precisamos tornar os indivíduos menos susceptíveis a acreditar em boatos.

Só assim iremos diretamente na raiz do problema: a Massa Manipulada.

Sabemos que só existe alguém fabricando "Fake News" (Agente Manipulador) por que existe um grande número de pessoas que acreditarão nestas falsas notícias (Massa Manipulada).

Sem ninguém (ou pouca gente) para acreditar em boatos, não haverá um grande número de interessados em fabricar notícias falsas.

Muito bem, mas e como atingir esse objetivo?

A resposta é ao mesmo tempo simples e complexa: através da educação!

A educação

Já parou para pensar que a maneira de funcionamento de uma escola é basicamente a mesma há pelo menos 200 anos?

Alunos vão para sala de aula para obter aprendizado. Depois, em casa, reforçam o que aprenderam na escola através de um dever de casa.

Esse esquema presume que os professores e os livros didáticos seriam a única fonte de informação dos alunos.

E sabe qual o problema disso?

Por causa desse modelo, nós somos acostumados desde pequenos a ter uma única fonte de informação PARA TUDO. Ao longo da vida temos que nos esforçar para mudar tal realidade, e isso não é ensinado em uma instituição de ensino formal, geralmente aprendemos sozinhos.

Talvez exista algumas exceções para essa regra, como alguns cursos superiores de jornalismo. Porém, isso é feito por mera necessidade da profissão.

Então o que devemos fazer com as escolas? Pagar por mais de um professor para dar a mesma aula? Comprar mais de um livro didático com o mesmo conteúdo? Ou aguardar que cada aluno tome a iniciativa de buscar outras fontes de informação? Lembramos que, antigamente, o aluno precisava ter a determinação de investir horas indo a uma biblioteca para realizar pesquisas em livros, nem sempre muito limpos. O que poderia ativar uma rinite em alguns.

Certamente essas seriam as únicas soluções para o mundo de trinta anos atrás. Porém hoje temos a internet!

Atualmente é só um aluno tirar um celular do bolso e pesquisar sobre Roma antiga, ligações moleculares ou o porquê de não podermos por metais no micro-ondas.

Não demora nem um minuto para que as respostas de diferentes fontes surjam diante dos seus olhos.

Graças a internet hoje os alunos não necessitam ir no bebedouro de informação que seu professor disponibiliza durante uma seca. Atualmente vivemos em um constante dilúvio de informação. Ela está por todo lado.

Então não precisamos mais de professores e nem de escolas?

Longe disso. Isso quer dizer apenas que eles podem atuar de maneira diferente no aprendizado dos alunos.

Se hoje professores são tratados como única fonte de informação, por que não mudamos isso?

Eles podem liberar seus alunos para aprender de qualquer fonte de informação na internet. O seu papel seria o de guiar o aprendizado e ensinar a se fazer uma boa pesquisa com diversidade de fontes.

Mas e os livros didáticos?

Eles poderiam ser, assim com o professor, um guia.

Em outras palavras: professores e livros didáticos poderiam ser encarados não como a única fonte de informação, e sim como um tutor para que o aluno descubra as fontes de melhor qualidade.

E sabe o que acontece quando você desde pequeno está fazendo suas próprias pesquisas para descobrir coisas?

Você vai se tornar um adulto que, ao ver uma notícia duvidosa, não permitirá que esta seja a sua única fonte sobre o assunto, e com certeza vai saber procurar as melhores fontes para formar sua opinião.

Somado a isso, disciplinas de alfabetização digital devem ser adicionadas. Assim teremos cidadãos que saibam como se comportar no meio online, adquirindo consciência de que certas atitudes podem ser danosas para sociedade.

O espaço físico da escola pode, dessa forma, aos poucos, ser reformulado para se adaptar ao novo mundo em que vivemos.

Avaliações podem se tornar debates entre alunos com vários pontos de vista distintos, chegando assim em diferentes resoluções para o mesmo problema atual da nossa realidade.

Os alunos poderão fazer trabalhos de criação de conteúdo online de alta qualidade disponível para todos, para sempre e de graça.

Conclusão

Por fim, a solução definitiva para o dano social das fake news só poderá vir através da educação.

O Brasil está muito longe disso. Após sair do ensino básico, o aluno médio não é capaz de se quer interpretar bem um texto e muito menos saber se tal texto possui credibilidade, ou ainda quais vieses ele poderá vir a ter.

Mas imagine um mundo em que professores podem ser tutores, alunos podem ser pesquisadores críticos e criadores ativos, uma aula pode ser um debate, e uma escola pode ser um lugar de alto aprendizado social.

Tudo depende do que nós, como pais e cidadãos, queremos para nossos filhos e as próximas gerações que estão por vir.

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Transmissão: Science Vlogs Brasil (Youtube), Dispersciencia (Facebook) e HuffPost Brasil

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.