OPINIÃO
20/02/2015 19:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Yalo, o filho da guerra

Yalo se descobre, evolui, se inicia na vida, no sexo e na marginalidade e tenta todo tempo contar a sua história. Tudo isto numa linguagem ora onírica ora discursiva onde a habilidade de um escritor com as características da literatura oriental aparece de modo exuberante. Muitas imagens poéticas, as metáforas muito frequentes no linguajar dos povos do oriente médio, além de uma profundidade espiritual riquíssima e sem pieguice.

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Na última Bienal do Livro em São Paulo tive oportunidade de ser apresentado a Elias Khoury, escritor e jornalista de Beirute, por intermédio do amigo e também escritor Milton Hatoum. Participou, como figura central, de um debate sobre literatura e outras questões que envolvem este tema e as conexões com nossa realidade nacional e internacional , assim como mostrou trechos de seu romance 'Yalo, O Filho da Guerra', então em lançamento, naquela ocasião, pela editora Record.

Tive possibilidade agora neste período chuvoso - e para mim bem tranquilo do Carnaval - de completar a leitura desta obra original em temática e de certo modo original também em termos de metodologia. A Beirute conflagrada com culturas e religiões se debatendo num momento desdobrado dos conflitos milenares da região.

Neste contexto uma figura emerge. Nesta convulsionada realidade, nesta situação de extrema instabilidade surge Yalo, ora real, ora imaginado, ora lembrado, de descendência misturada, meio curdo meio siríaco fixado na personalidade do avô/pai e no amor real/suposto de Chirin, sua paixão ambígua. Yalo se descobre, evolui, se inicia na vida, no sexo e na marginalidade e tenta todo tempo contar a sua história. Tudo isto numa linguagem ora onírica ora discursiva onde a habilidade de um escritor com as características da literatura oriental aparece de modo exuberante. Muitas imagens poéticas, as metáforas muito frequentes no linguajar dos povos do oriente médio, além de uma profundidade espiritual riquíssima e sem pieguice.

Percebo cada vez mais como é profícuo o conhecimento de outras formas de abordar as questões que envolvem outras culturas. Conhecer a produção cultural da região talvez seja um dos modos mais eficazes para entender e influenciar a criação de um imaginário coletivo e amplo que favoreça encontrar saídas dos dilemas e dos impasses próprios daquela parte do mundo.

Tem surgido um bom número de obras em manifestações culturais diversas que aprofundam as contradições e ajudam a buscar uma compreensão mais clara das realidades locais e que fogem de um superficialismo midiático e político que mais tumultua a questão do que ajuda a buscar soluções efetivas. Sabemos que as saídas só serão encontradas lá mesmo e pelos povos do lugar. Elias Koury e seu Yalo certamente ajudam a encontrar este caminho.

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