OPINIÃO
24/10/2014 16:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Sem centro, mas centrado

Quem busca e desfruta de bem-estar e de liberdade de programação não acha nada longe, nada difícil, nada chato. Pois foi isso mesmo que fui conferir na semana passada.

Divulgação

O Centro sempre foi o espaço físico, ponto de encontro e alinhavo político para todas as ágoras gregas. Pensando em um poema de Jorge Luís Borges, "Elogio da Sombra", o centro converge o que de mais secreto tem em um cosmos, em uma cidade, em um eu, para depois te presentear com uma equação resolvida, a álgebra perfeita, um espelho que revela. Do meu lado, sempre resisti em pensar centro e periferia com programações distintas, para mim em tudo havia espelho, em cada parte se revelava um mosaico cidadão que só faz sentido se compreendido no todo.

O que se faz em um lado da cidade pode ser perfeitamente convidativo para deslocar pessoas e debates. Por isso também, nunca gostei da malfadada alcunha que recebeu há anos atrás o Sesc Belenzinho de "Sesc Bem-longinho". No meu ponto de vista, um desserviço de um dos jornalistas que cunhou a expressão e uma ignorância do que move as pessoas em seu tempo livre, em seu bem-estar físico e mental, em seu horário de alimentação saudável, em sua hora de reflexão alçada pela arte. Quem busca e desfruta de bem-estar e de liberdade de programação não acha nada longe, nada difícil, nada chato. Pois foi isso mesmo que fui conferir na semana passada.

O Sesc, juntamente com o Itaú e a Prefeitura de SP, realizou a 7ª Mostra Cultural da Cooperifa, a Cooperativa Cultural da Periferia, organizada pelo amigo Sérgio Vaz, que existe há 13 anos no Jardim São Luís, próximo ao Jardim Ângela, extremo sul de São Paulo. De 11 a 19 de outubro, a programação intensa se voltou ao Sesc Campo Limpo, a nova ocupação do Sesc mais ao sul da metrópole.

Antes de começar a Mostra, no entanto, eu participei de um dos importantes saraus contínuos e permanentes da Cooperifa e pude ver a necessidade e a importância de um respiro literário frente àquela aridez urbana, ao abandono político. Certamente o sarau, no Bar do Zé Batidão, está bem longe do glamour de outros encontros literários oferecidos na cidade. Mas, poucos, se comparados à Cooperifa, são tão verdadeiros ao falar com seus pares e com os convidados e não escondem que fazem legitimamente uma programação que também eleva a auto-estima da periferia. Afinal, exaltam o lugar de origem como celeiro de pensamentos sobre a realidade e, a partir da realidade, por que não, ao etéreo. A poesia da Cooperifa emana de experiências, sentimentos traduzidos nas letras da maneira mais contundente e convincente. Da periferia da urbe, portanto, para o centro de cada um de nós, para algo que todos temos, independente do bairro que vivemos e desfrutamos, é exercitar a alteridade pela fruição poética, em suma: nada mais sensível, certeiro, centrado.

Aos 13 anos da Cooperifa, o que se pode desejar, depois de estar ali, é que eles se multipliquem por muitos, que a poesia sempre sobreviva e que a vida cidadã, no mesmo compasso, seja exigida por esse povo que reflete e sonha. Parabéns ao Sergio Vaz, parabéns a todos que acompanham a Cooperifa nesses 13 anos, parabéns às iniciativas que irrompem da indignação social e da necessidade de fazer arte, pois não há forma de se ver mais unido ao mundo, senão fazendo parte do que ele é.

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