OPINIÃO
06/05/2014 09:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

O teatro na minha vida

Há quem diga que quanto mais você se envolve com uma manifestação artístico/cultural mais você quer conhecer, aprofundar o tema e até mesmo trazer à memória as lembranças do início de seu envolvimento e os porquês de seu interesse. Os primeiros passos, com frequência, apontam os caminhos futuros. Vejam o caso de Mozart que, segundo biógrafos, já compunha na infância. Longe, mas muito longe mesmo de me pretender perto da genialidade do autor da Flauta Mágica, assim como de qualquer talento artístico, vejo como o meu envolvimento desde pequeno, com a audição atenta da música saída do violão de meu pai, as cantorias com meus irmãos, as brincadeiras teatrais com amigos da vizinhança e as incursões variadas nas diversas formas de expressão sempre super incentivadas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo exerceram em mim um poder imenso de sedução, muito mais como fruidor do que criador.

Assim, no início de minha vida adulta em São Paulo, nos anos 60, fui deparar com o grande impacto do teatro na minha vida, resultante sobretudo da criação de três fantásticos núcleos que se constituíram na grande força propulsora do meu encantamento por esta forma de manifestação. Estes núcleos tinham vários e importantes integrantes, mas me fixo em seus líderes e animadores que sintetizavam os esforços estético-politicos e propunham uma novidade para mim.

O primeiro contato foi com Augusto Boal e seu Teatro de Arena. Estética firmada no jogral musical, politizado e provocador do Arena Conta Zumbi. Naquele momento tenebroso da vida no país, era o alento esperançoso para uma juventude super envolvida no desejo de mudança e que se superava construindo um imaginário de luta por uma sociedade mais justa e democrática.

Augusto Boal. Foto: Estadão Conteúdo

Depois vem Zé Celso e o seu Teatro Oficina, oferecendo o conceito dionisíaco super perturbador para um ex-seminarista que àquela altura estava começando a procurar entender outros aspectos da vida. Foi muito mágico ver a antropofagia de Roda Viva e o radicalismo violento de Na Selva das Cidades, com Ítala Nandi no elenco.


José Celso Martinez Corrêa. Foto: Estadão Conteúdo

Completando esta trindade "sagrada" do teatro que me mobilizou e mobiliza até hoje (com vários outros nomes mais recentes, é verdade) aparece a figura de Antunes Filho e sua obra insuperável Macunaíma, o mito brasileiro mais consistente e abrangente. Com Antunes, minha proximidade se deu de modo mais amplo. De perto, pude ver sua profunda competência criativa e seu rigor no fazer artístico. O trabalho de ator levado ao extremo, a formação de seus pupilos para o teatro e para a vida e uma vida pessoal, quase monástica, dedicada ao teatro.

antunes filho

Antunes Filho com o ator Raul Cortez em 1986. Foto: Estadão Conteúdo

Esta trindade estabeleceu, àquela altura, a base de meu interesse crescente pelo teatro e de um empenho pessoal e profissional para a valorização cada vez maior desta forma de expressão. A liberdade absoluta e total aplicada à ética e à estética nas dimensões mais variadas, causando ora encantamento, ora surpresa e provocação. O meu envolvimento com tudo isto estava mais do que anunciado. Sem dúvida isto foi, e é, essencial para mim.