OPINIÃO
05/08/2014 09:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O encantamento da melancolia

Por 100 minutos de absurdez, Wilson destrincha todas as ligações paradoxais, ridículas, insensatas, tolas, incoerentes típicas do contra-senso, mas igualmente há um encantamento pela melancolia.

Divulgação

Na última semana de julho, depois da Copa do Mundo que levou a seleção do Brasil à hecatombe futebolística e a da Alemanha à admiração profunda dos brasileiros, o Sesc trouxe a 6ª. produção de um espetáculo do gênio do teatro, Robert Wilson. Antes já tinham sido apresentados nos teatros do Sesc algumas das fortíssimas montagens: "Quartett, Krapp's Last Tape", "Ópera dos três vinténs", "Lulu e Dama do Mar" - essa última com atores brasileiros e Bob dirigindo-os. Mestre da artificialidade da cena, Bob tem alguns códigos estéticos que delineiam sua assinatura no palco: a luz milimetricamente precisa que contorna personagens e objetos; os rostos cobertos por uma máscara meio kabuki, meio clownesca; a sua anti-naturalidade geral que combina muito bem com esse texto, que compõe sua última peça, "A Velha". Essa sua última produção passou por Milão e Paris no ano passado, por Nova York esse ano e colocou São Paulo nesse epicentro cênico, o que não é nada mal. Ela também segue essa semana para o Rio de Janeiro e depois para Buenos Aires. Em São Paulo teve 12 apresentações, o que fez com que eu ficasse até bastante próximo dos atores magistrais que ele escolheu para viver várias personagens durante os 100 minutos de peça: Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe.

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Dessa vez, revirando o absurdo que se fez conceito teatral, misturando elementos de Samuel Beckett e do seu eterno modelo de ator, Buster Keaton, Wilson enfatiza, essencialmente com repetições, trechos de poemas e do texto "A Velha", escritos pelo poeta russo, perseguido pelo stalinismo, Daniil Kharms. Kharms morreu de inanição em uma das prisões de Leningrado, numa daquelas crueldades típicas e corriqueiras do ditador russo contra quem ousasse ser oposicionista de seu regime. Não por acaso, a primeira cena do espetáculo, depois do prólogo, parece um looping dos versos sobre a fome entoados pelos dois atores em velocidades variadas que, em tradução livre, trazem o seguinte sentido: "É assim que a fome começa. Você acorda, se sentindo vivo, e então começa a fraqueza, e começa o tédio, e vem a perda do raciocínio rápido, logo vem uma calma, e então começa o horror". Depois de minutos ouvindo a mesma frase sobre como a fome começa, é impossível não entender o poder da fome como a mais eficaz e silenciosa ajudante do método soviético que matou o autor do texto - ela, esse conhecido problema solucionável mais grave da humanidade, é mesmo implacável. E logo nos primeiros 25 minutos de espetáculo, Bob Wilson nos indica as camadas de melancolia e absurdo que virão: velhas caindo e se despedaçando deliciosamente; um relógio sem ponteiros, uma jovem que se encanta com um escritor desiludido, homens que acabam de se conhecer e saem para conversar e tomar vodca, enfim, cenas rápidas que se intercalam, em que os atores são personagens aleatórias ou narradores cínicos.

O próprio Wilson disse a jornalistas brasileiros em abril desse ano, que esse texto lhe foi apresentado por Baryshnikov e que não entendeu nada quando leu e, por isso, gostou muito. Longe do absurdo do texto e da divertida declaração de Wilson, a escolha faz muito sentido, pois, do pouco que conheci desse artista letão radicado nos EUA há anos, os problemas políticos e as agruras sociais sempre estavam entre os temas preferidos das conversas que trocamos; do que posso dizer que já compartilhei com Wilson, inclusive umas doses de vodca, quanto mais difícil transpor uma cena, melhor.

Me inquietou também a simetria espelhar dos dois atores. Maquiagem e figurinos iguais, as réplicas se misturam circularmente às personagens originais da peça para manter um pouco a aura enigmática que, a priori, nos faz pensar, dentre outras coisas, na questão: "afinal, quem matou a velha?" Não... Ninguém matou a velha, ela simplesmente morreu no apartamento do escritor inexplicavelmente.

E por 100 minutos de absurdez, Wilson destrincha todas as ligações paradoxais, ridículas, insensatas, tolas, incoerentes típicas do contra-senso, mas igualmente há um encantamento pela melancolia. A solidão e a velhice aparecem "beckettianamente" ao texto e elas pesam sobre a comicidade das palavras, levando-nos a níveis mais profundos que questionam a coerência da existência humana... Essa razão que falha de uma hora pra outra e que não se dá conta nem se o número 8 vem antes ou depois do 7.

Tenho absoluta certeza que The Old Woman não responde a nenhuma das perguntas que nos fazemos sobre a vida e sua decadência, mas como obra de arte importante, como manifestação genuína das nossas angústias, essa peça nos gera alguns dos melhores sentimentos do mundo: o espanto, o pathos, a catarse.

(Colaborou Aurea Vieira)

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