OPINIÃO
26/12/2014 17:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Jano e a Utopia - A Comissão da Verdade

Olhar para frente é nos comprometer com um futuro melhor levando em conta as lições do passado

Todo o mês de dezembro nos sugere inúmeras considerações sobre o ano que passou e as perspectivas para o futuro. Revisões, avaliações e propósitos seja no plano pessoal, seja no plano institucional ou coletivo.

Os fatos relevantes no cotidiano de todos são relacionados nos meios de comunicação e em todos os campos: política, economia, esportes (que vexame!) cultura, religião, etc, assim como intenções e necessidades vindouras, ocupam os nossos pensamentos para o bem e para o mal.

O deus Jano (inspirador do nome do primeiro mês do ano) tinha a face duplicada. Uma para frente, para o futuro, e outra para trás, para o passado. Exatamente para demonstrar a atenção indispensável pelos dois momentos separados pelo presente e lembrando a absoluta indissociação entre ambos. Tudo que passou, positivamente ou não, nos alimenta para o que vem pela frente.

São frequentes as promessas reafirmadas expressando vontades nem sempre muito fortes e que permitem em nós os sonhos e as fantasias realizáveis ou não, juntadas às crenças e superstições. Os melhores votos recebidos e desejados refletem este momento de modo claro e frequente.

Neste espaço de revisões de fatos relevantes e recentes gostaria de ressaltar um item fundamental que lança um jato forte de luz sobre o passado e ajuda a vislumbrar uma revisão estratégica para o nosso futuro. Aparentemente trata-se só de uma questão política mas no meu ponto de vista envolve uma questão civilizatória e de transformação cultural.

Falo do relatório da Comissão da Verdade. Ganhamos um enorme avanço no momento em que o estado brasileiro desnuda o seu passado mostrando com clareza as atividades contra inimigos políticos. No regime militar, promovidas por agentes oficiais. Alguns países já percorreram este caminho e conseguiram ultrapassar barreiras no entendimento do papel do Estado, e sua relação com a sociedade.

A questão abarca, 30 anos depois do fim do regime, considerações muito mais amplas do que simplesmente a revisão ou não de processos. Claro que muitas questões ainda serão aprofundadas. Há elementos claramente positivos, nesta tomada de posição e há também insatisfação de pessoas e organizações que gostariam de ver os temas mais detalhados, resolvidos e punidos.

Mas, com todas as ressalvas consideradas, trata-se de uma chamada de atenção, e mais, de um grito de alerta amplo, profundo e definitivo contra a opressão política em geral, contra a destruição do outro enquanto antagônico e contra a inaceitação do pensamento contrário. Traz à baila a necessidade de uma sociedade nova melhor para todos e realmente democrática, defensora dos direitos de todos e contrária a qualquer tipo de privilégio ou imoralidade no uso de recursos públicos.

Utopia? Sim, mas indispensável não apenas porque a sociedade melhor a ser construída é a missão permanente de todos nós mas também porque todas as mazelas que herdamos ou que construímos (violências, injustiças, desrespeito aos direitos humanos e muitas outras) são recrudescidas e exarcebadas quando a luta contra elas arrefece. Olhar para frente como Jano nos sugere é nos comprometer com um futuro melhor sempre levando em conta as lições do passado.