OPINIÃO
11/09/2014 19:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Futebol Vitimado!

Estimulado a reencontrar o time que habita em mim e para o qual busco sempre marcar meus passos e alimentar minha alma torcedora, fui rever as impressões deixadas pelas boas lembranças dos jogos da Copa do Mundo na Arena Corinthians na Zona Leste de São Paulo.

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Um convite de retorno! Estimulado a reencontrar o time que habita em mim e para o qual busco sempre marcar meus passos e alimentar minha alma torcedora, fui rever as impressões deixadas pelas boas lembranças dos jogos da Copa do Mundo na Arena Corinthians na Zona Leste de São Paulo, o mais recente estádio de futebol desta cidade.

Mal sabia eu quantas surpresas proporcionariam esta religação presencial e entusiasticamente em silêncio com as cores tricolores das Laranjeiras. Além da mudança climática sentida no tecido da pele, o dia reservou-me muitas outras alegrias, manifestações, reflexões e, posso dizer, uma inquietante preocupação com o devir.

Acompanhado por um amigo corintiano, posso dizer que o fato de ter me embrenhado numa multidão que devota a outras cores, entoa outros cânticos e comunga uma paixão adversa à minha permitiram-me descortinar sentimentos múltiplos. O caminho percorrido de metrô até o estádio mostrou-se tranquilo e eficiente, como da primeira vez, no dia da abertura do Mundial. Chegar mostrou-se fácil e algumas das muitas comodidades oferecidas pelo novo estádio foram revistas. Aliás, o deslumbramento avistado naqueles que aparentavam estar pela primeira vez no estádio não me contagiava, apenas constatava o desejo de que as próximas gerações amantes do futebol possam se acomodar, desfrutar desta infraestrutura e, respectiva qualidade, no futuro.

É fato que a minha memória habita outros estádios, estruturas, formalidades, ritos e cordialidades. Embora intenso e remoçado por contínuas escolhas e atitudes, sou mais velho perante a maioria que me cerca e emite seus gritos de guerra, pula coreograficamente e gesticula sua forma de torcer. Desta forma, o tal conforto e a chamada modernidade do estádio foram contrastando com o sentimento de rudeza e aspereza nas relações. Inquieto, fui observando a agressividade que envolve a atmosfera das torcidas, as incontinências verbais e corporais dirigidas para o árbitro, torcida adversária e, até mesmo, aos jogadores, às pessoas da mesma agremiação e quase todos os outros.

Mais que ampliar a percepção de uma cidade que sabidamente é múltipla e tensa em sua diversidade, constatei a obrigação de não revelar em público as cores do nosso pavilhão; um legítimo receio por estar "infiltrado" e assentado na torcida rival e imaginar-me descoberto e identificado como Fluminense. Ainda variado em sensações e com a escuta de inúmeros insultos e outras manifestações agressivas, comuns a esta cidade, repleta de conflitos, com expansão desordenada e que carece de ser sacudida por um choque em favor da boa convivência, passei ao jogo na expectativa de que o mesmo absorvesse a todos, que a bola e respectivas jogadas arquitetadas, passassem a ser o motivo de comentários e observações dos que ali estavam, que acertos e erros dos atores em campo ganhassem aplausos e ares de desaprovação, que o riso prevalecesse e que fosse esboçado nos rostos de espectadores próximos a mim. Afinal, tenho comigo que uma partida de futebol é, também, uma manifestação da arte e, como tal, dela extraímos momentos de prazer e nos deleitamos com a perspectiva da ludicidade que compete à bola e pode ser transposta para a vida.

Antes do início do jogo, observei o desfraldar de uma grande bandeira que em seus escritos trazia a mensagem: "Gaviões contra o racismo e a exclusão social". Um alento? Antes fosse! Afinal, dadas as características do jogo, a arbitragem, que o interrompia excessivamente, e a vitória parcial do meu time de coração, atestei que a convivência daquele chamado com o comportamento dos torcedores era, contraditoriamente, excludente. Isto porque a mesma torcida que se intitula louca de amor pelo seu time, passa a insultá-lo ferozmente, ameaça a integridade de alguns de seus jogadores em campo, amedronta e insinua terror caso o time não vença.

Pessoas mais acostumadas ao cenário de nossos estádios talvez não se impressionem com o que descrevo aqui brevemente. No entanto, para mim, que trago viva a tradição das três cores - paz, esperança e vigor - e vejo o futebol como elemento formador de nossas identidades e universo repleto de simbolismo, inclusive os que nos apontam vetores estratégicos de mobilização social e, mais ainda, um espaço potencial de transformação de respectivas civilizações, é bastante preocupante. Afinal, uma singela ida ao estádio numa tarde de domingo não é mais uma caminhada para o encantamento perante um espetáculo de futebol e sim um rito de tensão, exposição de risco perante brigas, xingamentos, violência gratuita e desnecessária à vida. E que fique bem claro, que o ambiente tenso a que me refiro não é "privilégio" daquele estádio, pois os corintianos teriam, provavelmente, a mesma acolhida por ocasião de um jogo no Maracanã, assim como, infelizmente, essa agressividade e ardor são encontradas nas demais arenas esportivas em nosso país. Tal qual a letra do samba do Paulinho da Viola, "onde havia a luz do sol, uma nuvem se formou", no futebol de nossos dias constatamos que o jogo e as esperanças se esvaíram para arruaças em torno dos estádios, brigas campais, policiamento ostensivo e nada educativo, atos de racismo e, o pior de tudo, a ocorrência da morte de torcedores.

Parece-me "óbvio ululante", trazendo uma expressão de outro tricolor de coração, Nelson Rodrigues, que a pior derrota do futebol brasileiro não é a que se deu nos gramados, como vimos na última Copa do Mundo, e, sim, a violência e suas entranhas que nos faz estar alijados do próprio futebol e da paixão que um dia dele emanou.

O que fazer, então? Ótimo tema para continuar a discussão. E todos, de todas as cores, estão convidados!

Ficha técnica: Corinthians 1 x 1 Fluminense

Local: Estádio de Itaquera, em São Paulo (SP)

Data: 31 de agosto de 2014, domingo

Horário: 16 horas (de Brasília)

Árbitro: Paulo Henrique de Godoy Bezerra (SC)

Assistentes: Albino Andrade Albert Júnior e Elan Vieira de Souza (ambos de PE)

Público: 34.889 pagantes (total de 35.131)

Renda: R$ 2.519.703,00

Cartões amarelos: Gil, Elias e Luciano (Corinthians); Diguinho e Rafael Sobis (Fluminense)

Gols: FLUMINENSE: Fred, aos 42 minutos do primeiro tempo; CORINTHIANS: Romarinho, aos 28 minutos do segundo tempo

CORINTHIANS: Cássio; Ferrugem (Fagner), Gil, Anderson Martins e Fábio Santos; Ralf, Elias, Jadson (Luciano) e Lodeiro (Renato Augusto); Romarinho e Romero

Técnico: Mano Menezes

FLUMINENSE: Klever; Bruno, Elivelton, Henrique e Chiquinho (Kenedy); Diguinho, Jean, Wagner (Carlinhos) e Conca; Rafael Sobis (Gustavo Scarpa) e Fred

Técnico: Cristóvão Borges

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