OPINIÃO
02/10/2014 18:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Eleições: memórias e esperanças

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Lembrar dos tempos negros da ditadura brasileira traz muitas e variadas considerações. Violências de toda ordem. Censura nas artes e na imprensa. Repressão terrível nas ruas, nas universidades e o rigor controlador da informação. Mas, o pior, o mais profundo de todos os males e que bloqueava qualquer perspectiva, naquele momento era a absoluta falta de esperança.

Não havia saída, especialmente para os jovens, como eu, sem efetivas oportunidades de participação cidadã, sem direito de votar, e sem nenhuma expectativa de mudança. A liberdade democrática de pensamento e de palavra parecia ameaçada. A luta de resistência das mentes livres parecia totalmente bloqueada, impedida, empacada. Movimentos e agremiações políticas de variadas origens, de trabalhadores, de estudantes, de artistas, de intelectuais, de profissionais e de populares de todas as origens, camadas e procedências tentavam articulações e ações, clandestinas ou abertas, demonstrando coragem cidadã, e eram eficazmente bloqueadas pela repressão, verdadeira muralha espessa e alta, absolutamente intransponível. Casos de tortura e morte foram verificados e relatados em diversos meios, no país e fora, entre os exilados.

O que representava tudo isso? Onde, a característica de uma falada cordialidade inerente ao espírito do brasileiro? (Aliás, característica bem questionável quando conhecemos melhor alguns aspectos recorrentes de nossa história).

Ao contrário, esta situação parecia aprofundar uma prática de ódio e desconfiança entre os brasileiros. Uma ação nefasta e extremamente danosa para nosso futuro, porém a pior das ações foi sem dúvida a tentativa de apresentar e impor aquele sistema repressivo e violento como a única opção para "salvar o país' e melhorar a vida do povo. Isto seria construir um país melhor? Terrível engano. Uma deturpação absurda de uma sociedade baseada em princípios falsos de uma democracia sem consulta popular e sem o real envolvimento da população. Sim, havia eleições, num simulacro de participação de partidos controlados, na prática, pelo aparato oficial. Por outro lado, dos muitos que se opunham ao regime com diferentes formas de atuação na sociedade, mas a favor do restabelecimento da democracia plena no país, havia uma plataforma comum entre os militantes, fundada na efetiva resistência ao regime ditatorial vigente e/ou na construção de uma nova base democrática, alinhando tendências variadas diante de um inimigo comum, devastador, poderoso e armado. E, sobretudo o pior inimigo de todos: um desânimo castrador e geral.

As gerações vindouras que desfrutaram e desfrutam do novo momento que superou aquele estado de coisas, fruto da união de muitos em favor do restabelecimento pleno da democracia, não parecem perceber com a clareza efetiva o quanto aquela situação foi perversa e danosa para todos da época e vindouros. Sem perspectivas, sem saída, sem esperança. Era aterrador. Muito mais grave, pelo menos para mim, do que se pode imaginar hoje. Por estas razões, as personagens, todas elas, que viveram aquele momento e enfrentaram a luta poliforme em favor da mudança são muito especiais porque alimentaram esperanças e promessas. Ajudaram a construir a mudança efetiva. Depois disso, muita coisa aconteceu nos tempos democráticos.

Certamente há ainda muita coisa por acontecer e por fazer. Para o país, para nossa sociedade, avanços efetivos no mais diversos setores. Mais oportunidades. Educação quase universalizada. Economia relativamente ordenada. Infraestrutura melhorada. Aumento efetivo da inclusão e cidadania. Combate à desigualdade e violência, apesar dos enormes desafios da segurança pública. Aprimoramento da máquina pública. Esforço por eficácia e anticorrupção. Identidade cultural um pouco mais nítida e uma esperança fortalecida para um novo futuro. Isto, me permite imaginar, claro, uma sociedade mais igualitária, uma educação de melhor qualidade para todos, uma economia mais justa e dinâmica, uma estrutura mais completa e facilitadora do bem viver e uma identidade cultural, participativa, consciente do papel do cidadão na plenitude de seus direitos.

Ora, tudo isso estava claramente embutido nas mentes e nos corações daqueles que foram para as ruas naqueles tempos bicudos. Muitas diferenças, é verdade, mas muitas idéias, práticas e métodos, próximos ou comuns. O quadro político cresceu e se alterou. Novos interlocutores e partidos surgiram, no bojo das modificações necessárias. Propostas avassaladoras e bem vindas de mudança e melhoria, juntas, claro, com o acirramento de resistências. Um presidente da república foi afastado legalmente por corrupção. Grande esforço de moralização do uso do dinheiro público. Investigações e julgamentos levaram a inéditas prisões.

Tudo isso tem a ver com a luta insana contra a ditadura e com o enorme esforço de mudança iniciado naquele momento e continuado depois por muitos. Mas, parece que alguns daqueles que estão hoje na linha de frente, esqueceram-se daqueles momentos terríveis. Alguns dos que estão hoje em lados opostos entre si e se aliaram a outros, remanescentes do lado opressor e antidemocrático daqueles tempos, parece, na prática, quererem restabelecer um novo paradigma de morte da esperança. Neste momento de plena democracia temos motivos de estarmos eufóricos, já que nossos candidatos ao cargo máximo, e que de fato contam, são todos do lado democrático, e vitoriosos daquela luta. Além disso, é uma glória ter duas mulheres entre eles.

É um imenso avanço. Mas me causa preocupação ouvir algumas narrativas. Agressivas, mentirosas e destituídas de espírito público e vinculadas ao pior dos cenários quando pensamos no futuro. Como sair dessa? Torço fortemente para que tenhamos algo muito diferente. Que, quem venha a sair vitorioso ou vitoriosa me surpreenda, impedindo definitivamente que prevaleça o desânimo e a descrença, de que já fomos vítimas.

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