OPINIÃO
20/03/2014 09:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Cultura e Educação

O mundo concede uma veracidade quase imaculada à educação, enquanto a cultura pincela displicentemente a dialética, a liberdade do pensamento e a expressão irônica de olhar para si mesmo e se criticar.

Costumo, ao proferir um discurso livre, dizer que a cultura faz parte do processo civilizatório e que, portanto, é, em sua essência, educação. Mas ainda hoje há um engessamento de conceitos que coloca a educação sempre em seu lado formal e restrito ao âmbito pedagógico, uma visão classificatória e sisuda, enquanto a cultura escorrega lânguida num espaço macunaímico, de preguiça, de brincadeira e de assuntos menos relevantes.

Na cultura repousa esse descobrimento da alteridade e o primeiro exercício do homem desde que ele se descobriu indivíduo singular e foi sobrepondo, a sua existência, camadas e mais camadas de interpretação, fantasias, delírios até construir mitologias e, posteriormente, elaborar diálogos científicos. O mundo concede uma veracidade quase imaculada à educação, enquanto a cultura pincela displicentemente a dialética, a liberdade do pensamento e a expressão irônica de olhar para si mesmo e se criticar.

A disparidade tem origem na etimologia das duas palavras. Educação vem de "ex ducere", que quer dizer conduzir, guiar para fora, para a vida, no latim. Cultura é proveniente de "colere", cultivar. Enquanto a educação abraçou as disciplinas, os horários, as regras, os assuntos subcompartilhados e a edificação do homem no seu sentido apolíneo e racional; a cultura, parece óbvio, reflete a exaltação pelo desequilíbrio, pela desmedida, pelo dionisíaco e, portanto, pela loucura e pelos vícios. Pobre cultura que sofre, até hoje, um grande preconceito de parte do mundo, parte essa, tediosa, insensível, rasa e fútil.

Como me defino por otimista incorrigível, reforço, sim, nas tribunas mais livres, que o encantamento pela cultura não é senão um profundo devir que passeia pela razão entrando e saindo dela com inteligência e despretensão de quem já aprendeu com a vida e sabe creditar valores éticos enxergando o outro com reverência e atribuindo sentido estético à existência. Todos nós temos ao menos um hábito, uma música, uma imagem, uma frase, um gesto do qual gostamos tanto que marcou nossa vida e faz parte de nosso rol de simbologias incontáveis para, em seguida, lembrarmos que somos realmente indivíduos únicos - com o perdão do pleonasmo.

Se vida é essa trajetória que encastela símbolos dentro de nós, ministrada pelo tempo, a cultura é o que a conduz para um processo civilizatório, enfim. Se ela guia, cultiva; se guarda, conduz; se instrui, educa; se conserva, ensina... E assim esse meu texto poderia ser representado por um realejo que volta para os mesmos acordes depois de passados alguns compassos floreados com algumas notas comuns.

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