OPINIÃO
12/02/2015 18:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Água, carnaval e soja

Estava em Alter do Chão, a beira do Tapajós, defronte do fabuloso rio, próximo da sua foz no Amazonas, do qual é tributário e com o qual rivaliza em volume e dimensão naquele ponto. Experimentando o contato com aquela população ribeirinha pude perceber o significado central da água na vida e no ambiente daquelas paragens.

danilo miranda

a água lava, lava, lava tudo

a água só não lava a língua dessa gente...

(Emilinha Borba - Carnaval - 1955)

Venho de uma viagem de férias direto do Planeta Água. Estava em Alter do Chão, a beira do Tapajós, defronte do fabuloso rio, próximo da sua foz no Amazonas, do qual é tributário e com o qual rivaliza em volume e dimensão naquele ponto. Experimentando o contato com aquela população ribeirinha pude perceber o significado central da água na vida e no ambiente daquelas paragens. Fonte de vida, alimento, meio de subsistência e transporte e sobretudo, fonte de imaginação e fabulação. Realidade visualmente dominante e alimentadora da produção cultural local e das narrativas e lendas registradas. Presente na economia local, no turismo e no dia a dia de todos. Outro mundo. Retorno em seguida para a realidade do presente aqui em Sampa e experimento a péssima sensação decorrente da enorme ameaça da falta d'água, o que significa uma necessidade de medidas drásticas para solucionar a questão. Vindo de lá e encarando a verdade emanada desta conjuntura, percebo o quanto a cultura exerce um papel central em nossas vidas no plano pessoal e coletivo.

Nossa cultura do uso e abuso de tudo à nossa volta está e sempre esteve, fundada na noção da abundância e em alguns aspectos da fartura desmedida... A forma natural sempre "tido e havido" como um valor especial de nossa vida brasileira, neste "gigante deitado em berço esplêndido" associada do ponto de vista do imaginário à noção de que temos recursos naturais mais do que suficientes para nossas necessidades e muito mais... não considera com mais rigor nossas enormes carências e diferenças injustas na distribuição e na utilização destas mesmas riquezas. A cultura da escassez, da carência ou mesmo da poupança nunca foi um valor assimilado no nosso comportamento comum.

É claro que especificamente com relação ao grave momento em que vivemos em São Paulo e no Sudeste, são necessárias mais do que medidas de caráter educativo e cultural tais como ações de intervenção na infraestrutura de captação e distribuição. A informação clara e transparente além de estímulos às boas práticas são indispensáveis no atual quadro. No que diz respeito a região Tapajoara, Alter do Chão que tive a oportunidade de conhecer e onde pude sentir aquela realidade por um breve tempo, torço para que as ameaças contidas no avanço descuidado do agronegócio da soja, não tenha consequências graves para o equilíbrio sereno daquele recanto.