OPINIÃO
17/12/2014 19:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

20 anos Mesa Brasil: combate à fome e à obesidade

É o momento de darmos um passo para trás e refletirmos sobre as grandes mudanças nos hábitos alimentares ocorridas nas últimas décadas e a relação disso com a ascensão das doenças trazidas pelo junk food.

rafael pimentel

Meu interesse pelo campo da alimentação vem de longa data. Minha lembrança traz ares de leveza e contentamento quando remonto ao ano de 1994 ao participar do Congresso Americano de Bancos de Alimentos em Atlanta. Me impressionei com a grandeza de detalhes e profissionalismo que os bancos de alimentos dos Estados Unidos, já naquela época, exerciam suas atividades. O evento oferecia um leque de informações preciosas e precisas de todo o processo necessário para a criação e desenvolvimento de um banco de alimentos.

Neste período participei também de um trabalho voluntário na City Harvest de Nova York. Lá, tive uma experiência de vida fundamental ao testemunhar o orgulho dos voluntários que marcava a ação dos agentes deste banco de alimentos. Por alguns dias pude acompanhar a arrecadação dos alimentos nos doadores, a negociação acerca dos locais onde seriam as entregas e por fim, contemplar a felicidade intensa expressa nas pessoas das instituições sociais que esperavam ansiosamente pela chegada dos alimentos.

Sempre estive alerta, seja como membro do CONSEA, seja enquanto cidadão, ao fato da alimentação adequada e saudável ser um direito de todos, como é previsto em tratados internacionais e na nossa própria constituição. Esta alimentação está relacionada - e é indissociável - ao prazer e a tantas outras dimensões como as culturais, sociais, políticas, econômicas, ambientais e de sustentabilidade fazendo deste um tema transversal e universal.

Em 1990, cerca de 22 milhões de brasileiros não sabiam se teriam o que comer nas próximas refeições. Instigado pelos elevados índices de famintos no Brasil e inspirado por grandes pensadores como o sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho, a busca por conhecimentos técnicos e experiências práticas vividas em outros países, aliada às ações socioeducativas que o Sesc já exercia, tornou possível a criação, em 1994, do Programa Mesa Sesc São Paulo, hoje intitulado Mesa Brasil, já que em 2003 o programa tomou dimensão nacional com atuação em todos os estados brasileiros e distrito federal.

Hoje a fome e a desnutrição estão em declínio no país, e felizmente o Brasil não faz mais parte do "mapa da fome", segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) publicado em setembro. Temos muito a comemorar, sem dúvida, mas o desafio hoje é redobrado, pois para além de unir esforços no combate a fome e a desnutrição que ainda persiste em 3,4 milhões de brasileiros, há a necessidade de reverter urgentemente o quadro da obesidade, que vem crescendo e atingiu seu ápice em 2013, quando mais da metade da população brasileira apresentou-se obesa ou com excesso de peso.

Frente a este cenário conflitante, no qual informações de diversas origens e qualidades estão disponíveis, é de suma importância exaltar o lançamento do novo Guia Alimentar para a População Brasileira (disponível no portal do Ministério da Saúde) publicado em novembro. O Guia atua diretamente como promotor de saúde, visando combater a desnutrição e prevenir a obesidade e outras doenças crônicas associadas. É inovador e, redigido em linguagem acessível, ambiciona ampliar a autonomia dos indivíduos nas escolhas alimentares cotidianas ao levar em conta o panorama da evolução da alimentação. Reforça a importância da disseminação de informações simples que valorizam os prazeres proporcionados pelo ato de comer. A publicação também fomenta o ato de cozinhar, com sugestões para a superação de obstáculos do cotidiano, como por exemplo, falta de tempo, inabilidade culinária e até alertas em relação às questões ligadas à publicidade de alimentos.

Além dos dez passos para uma alimentação saudável e adequada, o Guia Alimentar apresenta uma regra de ouro: "prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados", indicando que é o momento de darmos um passo para trás e refletirmos sobre as grandes mudanças nos hábitos alimentares ocorridas nas últimas décadas e a relação disso com a ascensão das doenças trazidas pelo junk food.

O Guia abre novos horizontes e de certa forma confirma que a vida imita a arte, na medida em que expande o conceito de alimentação saudável. Você tem fome de que? O primeiro princípio mencionado na publicação evoca que "alimentação é mais do que a ingestão de nutrientes", isso reitera a valorização da dimensão cultural e social das práticas alimentares, e repito aqui uma frase que postei anteriormente no meu blog, "a cultura faz parte do processo civilizatório e que, portanto, é, em sua essência, educação".

Este ano o Programa Mesa Brasil Sesc São Paulo completou seus 20 anos de trabalho. Os números desta grande rede de solidariedade impressionam. Desde sua criação já arrecadou e doou mais de 47 milhões de quilos de alimentos, minimizando o desperdício de alimentos e a insegurança alimentar e nutricional da população. Mas o programa, que tem também por principio as ações de educação alimentar e nutricional, propagando conhecimentos para os doadores, receptores e voluntários, agora, mais do que nunca, tem o seu papel educativo renovado com a missão de levar à população conhecimentos fundamentais sobre alimentação, as quais oscilam simultaneamente entre polaridades: a fome e a obesidade. O novo Guia Alimentar ratifica as ações do Mesa Brasil e lança novos desafios ao programa!

A versão digital do Guia está disponível em aqui.

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