OPINIÃO
15/02/2014 14:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

O futuro chato dos filmes de ficção científica atuais

Getty Images
WASHINGTON, DC - DECEMBER 1: Dieter Jobe, dress as a stormtrooper gets attention from his wife Shannon O'Connor-Jobe (right) near the reflecting pool at the Capitol in Washington, DC on December 1, 2013. Jobe was part of the Museum of Science Fiction and members of the 501st Legion, a Star Wars costuming organization making a promotional video to publicize the Museum of Science Fiction; it will be the worlds first comprehensive science fiction museum. (Photo by Michel du Cille/The Washington Post via Getty Images)

Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante... existia um mundo em que os filmes de ficção científica previam futuros fantásticos e grandes ideias eram sugeridas como inspiração para distintas invenções. Esse mundo chegou ao fim na segunda metade dos anos 2000, dando lugar a outro pouco original e repetitivo. Foi-se a época em que os futuros do gênero eram inovadores. Hoje eles estão simplesmente chatos.

Primeiro, vamos nos lembrar dos últimos grandes filmes de ficção científica, alguns deles são: "Prometheus", "Star Trek: Além da Escuridão", "Elysium", "Oblivion" e "Depois da Terra". Os dois primeiros, apesar de clássicos, não nos trouxeram nada de incrível. Já os outros três são mais do mesmo com premissas que poderiam ser bem exploradas, mas estavam mais preocupados em mostrar cenas de tiros, lutas acrobáticas e efeitos especiais espalhafatosos.

Não me leve a mal, "Prometheus" e "Além da Escuridão" são incríveis. Mas se compararmos seus futuros com nosso presente, poucas coisas ficam. Separe as viagens espaciais, o teletransporte, carros voadores e outras engenhocas já vistas nos longas feitos entre os anos 60 e 80, o que sobra é uma reprodução minimalista e mais bonita do status quo. Nestes dois em particular, todo mundo anda com um iPad, utiliza telas touch de vidro ou falam aos celulares que muito lembram iPhones, por exemplo. Para uma série de TV que era conhecida por inspirar novas tecnologias e artimanhas, é decepcionante ver que a nova safra de "Star Trek" para o cinema é um apanhado de ideias do passado.

Hollywood está obcecada com o agora, isso é um fato. Basta contabilizar quantos reboots e remakes tivemos só nos últimos cinco anos: "O Dia em que a Terra Parou" (2008), o próprio "Star Trek" (2009) e "O Vingador do Futuro" (2012) são só alguns dos muitos exemplos. Para completar, quase todos ganham uma roupagem sintético-monocromática para deixá-los "atuais". Onde está o exagero? Onde está a loucura de filmes como "O Quinto Elemento"? Tudo ficou tão previsível, evidenciando um mal que atinge a indústria cinematográfica: a falta de imaginação.

A ficção científica do século 21 tem se resumido a dois estereótipos de futuros batidos e surrados: apocalíptico ou minimalista. Se não é um pesadelo distópico, é uma representação do presente, como dito ali em cima. Aliás, "Oblivion" é uma mistura destes dois tipos, ou seja, duplamente clichê. Além disso, não existem mais roteiros preocupados em discutir temas pertinentes ao nosso tempo, levantar questões políticas e sociais, e com diálogos inteligentes sobre onde estamos e para onde vamos. Lembro de "Blade Runner" (1982) e "Star Wars" (1977), ambos com argumentos tão ricos e complexos que dão gargalhadas dos scripts de hoje.

"Elysium" tinha tudo para ser um excelente exemplo do gênero carregado de metáforas ligadas ao preconceito e desigualdade, mas se perde completamente quando resolve largar o cunho politizado estabelecido até a metade da trama para mostrar os diferentes usos de efeitos especiais. Nada contra efeitos especiais, pelo contrário, são justamente eles que me fazem perguntar por que diabos os longas atuais estão tão pobres?

Vivemos uma época tecnologicamente avançada que permite a concretização de qualquer premissa. Esta deveria ser a era de ouro para os filmes de ficção científica. Não só isso, existem tantos tópicos recentes esperando para serem explorados, como a genética, nanotecnologia, questões de privacidade (alô, internet), células-tronco, etc.

Os filmes de ficção científica estão cada vez mais perdendo a capacidade de transcender os limites de nosso tempo. Precisamos voltar a criar futuros fantásticos, que nos motive a sonhar com amanhãs excitantes. Afinal, a realidade já é dura demais.

(Texto originalmente publicado no Cult Pop Show)