OPINIÃO
17/10/2014 14:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Jornalistas 2.0 - Os desafios da profissão

Se soubermos aliar as ferramentas digitais com a confiança do público em nossa palavra, podemos estar diante de uma fase de ouro da profissão.

sirastock via Getty Images

Se você está aqui para encontrar respostas, sugiro que leia outro texto. Nesse artigo, há mais perguntas do que soluções. Mas, vale a pena lê-lo se você quiser entender um pouco mais do desafio que temos pela frente.

O jornalismo enfrenta crises desde que surgiu na sociedade. De tempos em tempos, nossa profissão é colocada contra a parede e temos que encontrar um jeito para continuar existindo. Com a internet, uma nuvem cinza parece ter povoado as redações. O que pode ser uma ferramente incrível também pode ser a ruína da profissão. O mundo digital mudou a forma de consumir informação. As produções, os conteúdos e o próprio público passou por um update. E o jornalista, que não recebeu nenhum manual de instruções, está quebrando a cabeça nessa realidade.

Tudo muda, principalmente, porque o público mudou. Os leitores, que antes precisavam enviar cartas, deixaram de ser apenas receptores passivos. Transformaram-se em atores capazes de produzir conteúdos, comentar a própria visão de mundo e agir como curadores de conteúdo. Enquanto você lê essa meia dúzia de linhas, por exemplo, centenas de milhares de emails e tweets rodaram o mundo.

Se o público tomou a função do jornalista, o que resta para nós? Lidar com os webatores mexe com o ego do jornalista, que sempre se viu no papel de detentor exclusivo da informação. Hoje, está tudo aí para todos. E mal há tempo para a apuração quando o que importa mais é a velocidade da publicação. Quem publica primeiro consegue mais cliques, cliques geram publicidade e nós já conhecemos o resto da história.

O nosso desafio é aprender esse novo "fazer jornalismo" sem perder a essência de informar com qualidade. Pode parecer que ter todos esses usuários produzindo conteúdo seja, de fato, o fim da carreira. No entanto, o livro 'A explosão do jornalismo', de Ignacio Ramonet, aponta que os internautas preferem fontes confiáveis. Dos 200 sites mais procurados nos Estados Unidos, 67% são mídias tradicionais. E é aí que surge a oportunidade. Mesmo no infinito de dados que circulam pelo mundo digital, temos o que há de mais essencial ao jornalista: credibilidade.

Se soubermos aliar as ferramentas digitais com a confiança do público em nossa palavra, podemos estar diante de uma fase de ouro da profissão. Outro aspecto fundamental é que não cabe mais ao profissional apenas saber escrever. Cada vez mais, as redações precisam de jornalistas multitarefeiros. Nos Estados Unidos, entre os anos de 2008 e 2010, 25 mil jornalistas foram demitidos. O que não significa que o trabalho diminuiu, pelo contrário. Então, você já deve imaginar a sobrecarga nos ombros dos que ficaram.

Entender a interatividade também é um fator crucial para que o novo jornalista se dê bem no espaço cibernético. Como já foi dito antes, o público, além de se identificar com a notícia, ele quer ajudar a construí-la. O jornalista, se entender essa demanda, pode brilhar como mediador da interatividade.

Outras consequências

A internet provocou uma mudança drástica nos grandes veículos. Jornais impressos renomados ficaram obsoletos e simplesmente deixaram de existir. Segundo o livro A explosão do jornalismo, 120 jornais impressos americanos desapareceram. Os que sobrevivem, aos trancos e barrancos, enfrentam sérias crises financeiras. Isso acontece porque seus leitores pagos migraram para o mundo digital, gratuito.

No último congresso da ANJ (Associação Nacional de Jornais), figurões dos maiores veículos de mídia no Brasil discutiram como segurar a publicidade que sempre foi um pilar essencial para a manutenção econômica do jornalismo. O maior argumento da reunião foi que os grandes veículos não devem estar presos apenas ao papel, afinal, a missão do jornalismo é informar independente de qual plataforma será usada.

A briga pela publicidade no entanto pode gerar outro problema. Na corrida pela audiência, cedemos à pressão das empresas que nos financiam e deixamos de lado a missão do jornalismo, por essência, independente e opositor. No livro, Ramonet cita exemplos de grandes empresários que compraram os veículos à beira da falência para usar sua credibilidade em favor de organizações empresariais.

Ainda sem direção definida, o que ninguém ousa negar é que o jornalismo está passando - como já o fez outras vezes - por um mundo completamente desconhecido. Caberá a nós, jornalistas desta geração que está surgindo, reinventar e adaptar a nossa profissão para que ela continue viva e essencial à sociedade.

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