OPINIÃO
03/07/2014 16:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

"Tenho um carrão lá fora, sabia?"

Ele era divertido, charmoso e com um bom papo, ficamos conversando por horas. Até que, o inesperado acontece: "olha, não que isso importe muito, mas... eu tenho bastante dinheiro. Tenho um carrão lá fora, sabia?".

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Uma das situações mais bizarras da minha vida aconteceu no último sábado enquanto saia com algumas amigas e bebia um ou outro drink para aliviar a tensão da semana. Conversa vai, conversa vem, acabei encontrando um cara que, aparentemente, tinha chance de ser um "apaixonável" (nas minhas palavras) e futuro-qualquer-coisa. Divertido, charmoso e com um bom papo, ficamos conversando por horas, sobre os mais variados assuntos. Até que, o inesperado acontece: "olha, não que isso importe muito, mas... eu tenho bastante dinheiro. Tenho um carrão lá fora, sabia?".

Não que isso tenha, de fato, me chocado (já passei por situações semelhantes e já ouvi muita história parecida). Mas essa situação, em especial, me fez refletir sobre a que ponto os relacionamentos de hoje em dia chegaram. Esquecem-se as virtudes, os valores morais, a dignidade e muitas outras características nobres de um ser humano para salvaguardar-se única e inteiramente aos valores estéticos e monetários. Como se um relacionamento se limitasse a um capricho, a uma autoafirmação. O desejo de hoje em dia está sempre ligado aos bens materiais que a outra pessoa detém, e os valores (aqueles citados anteriormente), somente em última instância são levados em consideração.

Prova disso é a matéria que saiu recentemente na coluna da Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo, cujo título dizia "Brasileiros se passam por gringos para conquistar mulheres durante a Copa". A resposta para muitas das minhas dúvidas estava ali, logo no segundo parágrafo. O entrevistado, um representante comercial de 29 anos, dizia se gabando "A gente já pega mulher. Falando em inglês, pegamos ainda mais. É 90% de sucesso. Mulher gosta de dinheiro, e gringos têm isso". Algumas linhas abaixo, ainda pasma, encontrei a versão feminina do fato, dita por uma estudante de 30 anos, que concordava "Gostamos é dos gringos mesmo. Depois da Copa só vão sobrar os brasileiros...".

Apesar de não concordar com esse tipo de atitude, não venho aqui para condenar o que cada um faz ou deixa de fazer. Muito menos faço essa análise em prol ou defesa das pessoas desprovidas dos tais atributos taxados necessários. O que quero, de fato, é expor a superficialidade dos relacionamentos atuais e os atributos irreais ansiados por ambos os lados.

Hoje em dia é como se todos conseguissem (e gostassem) de falar sobre sexo abertamente, mas sem praticá-lo senão superficialmente; como se virtualmente fossem extremamente carinhosos, mas sem conseguir estabelecer diálogos benéficos no tête-à-tête; como se adorassem perguntar como você está por mensagens de celular, mas sem se preocupar genuinamente com a resposta ou com o que lhe acontece na vida. O que importa realmente é o seu exterior. Quem se importa, afinal, com sentimentos alheios? Chego a pensar que esse assunto já se tornou datado e "fora de moda". Será?

Considerando o tempo em que vivemos, hoje em dia parece existir um certo medo de se concentrar em algo, de mergulhar a fundo em uma relação. Sinto que para muita gente esse ato de imersão implica em fazer escolhas - e fazer escolhas, num tempo acelerado pela promessa de que podemos fazer tudo infinitamente, significa perda. Não ganho de envolvimento, cumplicidade, parceria. E sim perda da vida ilimitada, superficial, moldada e segura no mundo virtual. E é por isso que as pessoas se apegam tanto aos seus bens e a mostrá-los em público.

Tem uma frase, da qual gosto muito e concordo inteiramente, de São Padre Pio, que diz "A superficialidade é o pântano no qual os homens resolveram afogar o amor". E não é verdade?

O final da história é um pouco óbvio: o papo interessante e bem humorado, que acabou dando lugar a toda essa reflexão, se transformou em pena. Na hora de ir embora, eu e minhas amigas, de dentro do carro, avistamos o tal sujeito indo embora a pé. Uma delas, sem saber ainda do fato ocorrido, abriu a janela dizendo "Está indo para casa? Não quer uma carona?". E ele, constrangido até o último fio de cabelo (mas ainda mantendo a pose de machão, veja bem) devolveu: "Meu carro foi para a oficina. Amanhã mesmo já o pego de volta".

Como se precisasse de mais explicações...