OPINIÃO
14/08/2014 13:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Depressão é doença, não frescura

Reprodução

"Robin Williams foi uma pessoa covarde, que não teve coragem de enfrentar seus problemas e conviver com a realidade"."O envolvimento com as drogas é o que torna esse suicídio ainda mais patético"."Jamais vou admirar uma pessoa covarde que acha na morte a sua fuga"."Isso mostra um desvio extremo de caráter"."Parece que é só morrer, que todo mundo vira herói"."Suicídio é covardia".

Quisera eu que essas frases fossem apenas uma brincadeira de mau gosto. O fato é que a ignorância, infelizmente, ainda existe e atinge uma porção da população muito maior do que eu imaginava. Prova disso é a concepção totalmente equivocada que ando lendo na internet sobre a depressão e o suicídio de Robin Williams.

O fim do ator, de 63 anos, encontrado enforcado com um cinto e com os pulsos cortados, deveria servir de alerta a esse mal tão comum (e que vem crescendo a cada dia mais) que atinge a população atualmente. Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem de depressão. E na sua forma mais grave, pode sim levar ao suicídio. "A estimativa que temos é de um milhão de mortes ao ano", ressalta a OMS. Não seria esse o momento ideal para revermos nossos conceitos e preconceitos?

Pois bem, saibam que a depressão é uma doença (assim como diabetes, hipertensão, alcoolismo e por aí vai), e ela deve e pode ser tratada. Estudos demonstram que fatores biológicos, genéticos e psicossociais interagem entre si na causalidade da doença. Ou seja, não é frescura, falta de amor à vida e muito menos falta de caráter. O fato é que o cérebro do deprimido é diferente do que o de uma pessoa que não foi diagnosticada com a doença. E em momentos de desespero, o lado racional simplesmente desaparece. E é aí que mora o perigo.

O que fazer para ajudar?

Frases do tipo, "por que você não vai dar uma volta?", "pense nas coisas boas da vida", "tem gente muito pior do que você" e "pare de sofrer por besteira", são comuns e extremamente perigosas. Ao invés de julgar, tente prestar um pouco mais de atenção nas coisas que, através das mais variadas formas, levamos à mente das pessoas. Um "pode contar comigo" às vezes faz mais diferença do que você imagina.

Outra coisa que devemos ter em mente é que o tratamento deve ser sempre administrado por parte de profissionais da área psiquiátrica. Se você conhece alguém que sofre da doença, não hesite em chamar ajuda. Ao contrário do que muitos pensam, a depressão tem cura. O que precisa ser feito é mostrar a essas pessoas que tudo pode e vai melhorar. Recentemente o Brasil Post fez um texto interessantíssimo sobre a doença, que vale a pena ser lido e compartilhado.

Para finalizar, um pedido: antes de julgar, se informe. Existem diversas formas de conhecer mais sobre a doença e suas causas. Termino aqui com um relato de Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas, após a morte de Charlie Brown Jr. (também por suicídio):

"O suicídio é quando a gente quase atravessa a ponte. Por volta de 2004 estive muito próximo de por em prática o plano de ir embora. Por vingança. Por acreditar que com essa atitude talvez conseguisse atingir aqueles que estavam me machucando. Quem estava me machucando? Eu acreditava que o mundo todo. A terapia me salvou. Foi onde pude colocar pra fora todas as minhas angústias, as ansiedades e as dores da alma.

Mas por que, você pode perguntar. Você tem tudo que quis. Algum dinheiro, fama, mulheres, prazeres e privilégios que muitas pessoas não têm. Por que pensar em algo assim? As pessoas continuam achando que as questões materiais de fato sejam o suficiente para tapar os rombos na alma... Não são. Dinheiro não é tudo. A segunda razão que leva alguém a decidir pegar seu caminho para longe daqui por conta própria é o desespero. É perceber que por mais esforços que você faça, nada supre os anseios alheios e aqueles que sua alma clama.

A alma dói. É difícil viver as verdades do mundo quando o seu coração não se sente a vontade; aprendi a blindar meu coração, mas não estou livre de sentir. Muitas vezes o desespero bate na minha porta, mas busco sempre e de alguma maneira neutralizá-lo. Aprendi na terapia a criar mecanismos para isso: não guardar rancor; vomitar o que me faz mal internamente; explodir e colocar para fora os sentimentos negativos de ódio, raiva e outros que possam me fazer mal, mesmo que isso pareça um mal no momento em que é exposto.

Tem dias que realmente você não tem vontade de sair da cama. Algumas pessoas reagem melhor que outras, mas não devemos condenar ninguém. O suicídio por muitos é encarado como um ato de covardia, de egoísmo, de fragilidade - e pode até ser. Mas é muito fácil julgar olhando apenas os elementos que te rodeiam. Muito fácil falar quando não é sua alma que está sangrando.

Nessa madrugada mesmo, após receber a triste notícia da morte de Champignon, li mensagens como: 'E agora Tico Santa Cruz? Só falta você'. Acreditam? As pessoas são cruéis.

Não vou teorizar sobre o que levou o Champignon a tal decisão, mas foi algo muito grave e muito triste. Muita pressão. DEPRESSÃO.

Não existe volta. Todos nós temos momentos de dor, alguns sentem mais. Eu decidi que não iria me entregar, mas não me sentiria um covarde se resolvesse partir. O verdadeiro motivo que nos mantém vivos é encontrar algo ou alguém que nos fortaleça nos momentos mais difíceis, e num mundo de tanta falsidade, basta um segundo e você pode perder a razão.

Digo-lhes com convicção - lutem, não se entreguem, não se deixem levar pelo lado cruel das pessoas. Mas lhes digo também: não julguem aqueles que desistiram. Apenas respeitem, por mais difícil que seja. É muito mais difícil amar os outros do que expandir seu ódio e seus conceitos de superioridade".

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