OPINIÃO
04/05/2018 12:55 -03 | Atualizado 24/08/2018 19:17 -03

My Crazy Ex-Girlfriend: Se você já se colocou em 2º lugar, deveria assistir a esta série

Em suma: mulher está insatisfeita com a própria vida e projeta na figura de um homem o ideal romântico que vai torná-la completa.

Divulgação CW

Mulher está insatisfeita com a própria vida quando decide largar tudo e mudar de cidade para ir atrás de um ex com o qual viveu poucos dias de namoro em um acampamento de férias durante a adolescência.

Quem nunca?

Você nunca fez isso? Ok. Então vou contar de outra forma.

Mulher está insatisfeita com a própria vida e projeta na figura de um homem o ideal romântico que vai torná-la completa. Então, ela concentra quase toda a sua energia nele, sobrando pouco para si mesma, o que a faz pensar cada vez mais que precisa desse homem para ser feliz.

As duas descrições resumem bem a série My Crazy Ex-Girlfriend, uma comédia em que a protagonista Rebecca Bunch (interpretada por Rachel Bloom, co-criadora da série) imagina a sua vida como um musical. As músicas são engraçadas e dolorosamente sinceras, o que torna a série irresistível e altamente viciante.

Por exemplo: na música You Stupid Bitch (Sua Vadia Burra), Rebeca sofre as consequências de uma série de decisões erradas e então narra seus pensamentos com a intensidade de uma Whitney Houston: "Você arruinou tudo, sua vadia burra. Você arruinou tudo. Sua cadela burra e burra. Você é só uma piranha mentirosa que arruina tudo e quer que o mundo exploda. Vadia. Você é uma vadia burra. E emagreça um pouco".

Em outro momento, Rebecca se esforça para encontrar em pequenos gestos — realmente bem pequenos — sinais de que também é amada. Na música Love Kernells (Grãos de Amor), ela canta um verdadeiro hino de autoengano e ilusão: "Eu poderia viver assim por dias. Eu sou como um cactus fashion e sexy vivendo de elogio em elogio, de indireta a indireta, os depositando no meu corpo depois de uma longa seca".

É engraçado e triste, e esta é a mágica de My Crazy Ex-Girlfriend. A série nos apresenta uma protagonista com problemas psicológicos reais para mostrar que toda a sociedade também está doente. Nós vivemos em um momento de confusão total, no qual as mulheres não estão mais em segundo lugar — mas também não estão em primeiro.

Depois de décadas de feminismo, ainda lutamos com unhas e dentes para conquistar nosso espaço. Nos esforçamos para ter independência, empoderamento e autoestima. Porém, depois de séculos de protagonismo masculino, ainda é fácil demais desistir de tudo e ceder gentilmente o primeiro lugar ao homem.

Ou como diz uma das minhas músicas preferidas da série: "Put yourself first" (Coloque-se em primeiro lugar).

" — Coloque-se em primeiro lugar. Coloque-se em primeiro lugar para ele.

— Mas se eu me colocar em primeiro lugar para ele, então, por definição, eu não estou me colocando em segundo lugar?

— Não pense muito nisso."

Há algo de revelador nisso com o que toda mulher contemporânea pode se identificar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.