OPINIÃO
05/06/2015 12:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Qual a semelhança entre Eduardo Cunha e Cersei Lannister?

montagem/pmdbnacional/divulgação

Após ficar indignado com o final do sexto capítulo da quinta temporada de Game of Thrones e extasiado com o final de seu oitavo capítulo, reparei que há muito em comum entre a rainha-mãe Cersei Lannister e nosso presidente da Câmara Eduardo Cunha. Evidentemente - e para evitar desde já mal entendidos - Cunha não é Cersei, os aliados de Cunha não são os aliados de Cersei, King's Landing não é Brasília e Westeros não é o Brasil (aproveito o momento: o texto contém spoilers do oitavo capítulo da quinta temporada de GoT!). No entanto, a comparação é muito didática para realçar os problemas de nossa conjuntura política.

Assim que Tommen Lannister, filho do meio de Cersei, assumiu o trono, o garoto logo se mostrou incapaz de governar sem o apoio da mãe, ficando preso em uma disputa velada entre ela e Margaery Tyrell, sua esposa. Cersei aproveitou o momento para aparelhar o conselho real com seus aliados, distribuir títulos e afastar pessoas inconvenientes. Pouco tempos depois de Dilma Rousseff assumir seu segundo mandato, a presidenta logo se viu envolta em escândalos de corrupção da Petrobrás, dependente do Congresso mais conservador em 50 anos e enfrentando a crise econômica. O investigado Eduardo Cunha aproveitou o momento para costurar alianças, nomear pessoas de sua confiança e consolidar seu poder. Dentre suas manobras - em retaliação ao governo - estão a PEC da bengala, que aumentou para 75 anos a idade para aposentadoria compulsória dos ministros do STF e várias disposições em sua "reforma política", como o fim da reeleição para cargos do Executivo [1].

Não à toa muita gente tem feito referência à atual Câmara como The House of Cunha (em referência ao seriado House of Cards). A expressão funciona também para chamar a casa legislativa de Família de Cunha, como em Game of Thrones. A Câmara (com algumas exceções, evidentemente) quase sempre acata os ditames de seu presidente, parece realmente subserviente à vontade de seu líder, tal-e-qual os membros menores das famílias nobres em Westeros. Isso transforma Tommen e Dilma em dois chefes de Estado que - na prática - não tem poder algum.

As semelhanças entre Cersei e Cunha continuam. Em uma tentativa de conseguir legitimidade e eliminar atores inconvenientes para ela no cenário político de King's Landing, Cersei se aliou com os fundamentalistas religiosos conhecidos como Pardais. Isso provocou uma onda moralizante na capital de Westeros, cujos efeitos ainda não pudemos ver claramente, mas que sabemos incluir o fechamento e destruição de prostíbulos, agressões contra prostitutas, destruição de pontos de venda de bebidas alcoólicas, destruição de estátuas religiosas, linchamentos e (ao que tudo indica) execuções de homossexuais. Cunha é notoriamente próximo a círculos conservadores, como fundamentalistas evangélicos e a bancada ruralista, já tendo se pronunciado contra a adoção de crianças por casais homoafetivos e contra a descriminalização da maconha e do aborto, por exemplo. Entre as propostas do deputado, há a criminalização da "heterofobia" e ele desarquivou quatro propostas legislativas contrárias ao aborto [2].

No brutal mundo de Westeros, a aliança com o fundamentalismo significou violência e morte para aqueles que eram diferentes da norma religiosa; em nosso mundo, essa aliança simbolizou - pelo menos - dias sombrios para as pautas das minorias e a possibilidade muito real de perda de direitos (não podemos nos esquecer também dos tristes casos de violência e intolerâncias motivados pelo fundamentalismo que presenciamos ultimamente).

Cersei e Cunha compartilham, finalmente, algo muito mais profundo e político, ou melhor dizendo, antipolítico. As práticas semelhantes de ambos são a demonstração de algo mais difícil de perceber, que é a tentativa de impossibilitar a política autêntica. Por política autêntica, me refiro à possibilidade de discussão e deliberação livre em uma esfera pública, visando - em termos gerais - o bem-comum. Ambos, cada um a seu modo, fecharam os espaços políticos para opiniões divergentes e para a pluralidade. Em King's Landing, Cersei reduziu drasticamente o conselho e "ainda não estava pequeno o suficiente" na opinião da rainha-mãe. Em Brasília, Cunha defende abertamente que "a maioria seja exercida, e não a minoria", numa clara alusão aos movimentos LGBTT, feministas e outros. As chances de um projeto de lei progressista ser discutido, votado e aprovado na House of Cunha são ínfimas, de modo que as minorias acabam dependendo mais e mais de uma decisão do STF para terem seus direitos protegidos. Ao fim do dia, a legitimidade democrática do Legislativo se esvazia.

Para Cersei, essa tentativa de matar a política autêntica não terminou bem. No ponto em que estamos da série, seu oitavo capítulo, a rainha-mãe foi presa pelos próprios fundamentalistas que armou e seu destino é incerto. Para Cunha, as coisas por enquanto estão bem, mas seu futuro está atrelado às investigações nas quais ele figura. A única certeza, tanto em Westeros quando em nosso mundo, é que nessas intrigas palacianas sempre sofrem aqueles que foram privados de voz na política.

[1] Ver as seguintes notícias:

http://oglobo.globo.com/brasil/apos-manobra-de-cunha-camara-aprova-em-segundo-turno-pec-da-bengala-16068636

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/05/27/camara-vota-o-fim-da-reeleicao.htm

[2] Ver as seguintes notícias:

http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/em-culto-evangelico-eduardo-cunha-diz-que-maioria-brasil-e-conservadora/

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/04/150403_eduardo_cunha_abre_jf_lgb

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/eduardo-cunha-poe-evangelicos-no-comando-da-camara/

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/13/politica/1423839852_990180.html