OPINIÃO
16/07/2014 16:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A banalidade (brasileira) do mal

Uma delas é a banalidade do mal. Nossos praticantes de linchamento entram nesse ponto: eles são pessoas completamente normais, que levam vidas comuns, mas que por causa desse caráter de banalidade presente no mal, são capazes de praticar atrocidades.

Reprodução/Facebook

A filósofa Hannah Arendt foi uma das pensadoras mais inovadoras e controversas do século passado. Parece-me apropriado resgatar, ainda que de maneira bastante simplificada, uma de suas ideias para tentar compreender certas formas de violência no Brasil. Pretendo olhar duas dessas formas: a violência policial e os linchamentos recorrentes. Sobre a violência policial, são centenas de casos anualmente, que vão desde uso indevido de algemas até execuções sumárias. Sobre os linchamentos, somente no primeiro semestre de 2014, foram registrados ao menos 50 casos, dos quais ao menos seis resultaram em morte das vítimas. Nos últimos 20 anos, o Brasil teve quase 1.200 casos de linchamentos, segundo o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.

A ideia a que me refiro é a banalidade do mal. Explico: Arendt não pretende dizer que o mal é desimportante, mas sim que ele não tem dimensões demoníacas e nem uma profundidade especial, apesar de poder ser extremo (como no caso do nazismo). O mal é banal na medida em que seu agente - capaz de perpetrar grandes calamidades - é ele mesmo um sujeito perfeitamente banal. O agente do mal pode muito bem ser um cidadão qualquer que, para garantir seu sustento ou o conforto de sua família, abre mão de suas convicções no exercício de um emprego reprovável. O exemplo analisado pela própria autora é o eficiente funcionário nazista que administrava sistemas de extermínio de judeus sem nunca ter, pessoalmente, maltratado um. Para Arendt, esse indivíduo é o 'criminoso do século', justamente por permitir que o mal se expanda de maneira descontrolada.

Nossos praticantes de linchamento entram nesse ponto: eles são pessoas completamente normais, que levam vidas comuns, mas que por causa desse caráter de banalidade presente no mal, são capazes de praticar atrocidades. As pessoas que mataram Fabiane Maria de Jesus não são assassinas seriais e é justamente isso que é assustador. Os linchadores não saíram de um abismo para descontar sua ira nas vítimas e nem apresentam, quando perguntados, uma visão distorcida de mundo. Mesmo assim são capazes de tirar a vida de inocentes, sem pensar duas vezes, quando levam alguém à praça pública para ser apedrejado.

O mesmo raciocínio vale para a violência policial. Os policiais militares brasileiros, em sua maioria, não são monstros sanguinários que se deleitam com tortura de inocentes, matança gratuita ou repressão a cidadãos. No entanto, não se passa um único dia sem que a PM pratique tais atrocidades, também sem pensar duas vezes. Os agentes policiais quebram seus cassetetes nas costas de cidadãos e descarregam seus revólveres em quaisquer potenciais suspeitos, para voltar à casa ao final do expediente, jantar com a família e dormir, muitas vezes sem o menor remorso. Mesmo assim não são psicopatas, eis a banalidade do mal.

Talvez aí, nesses "sem pensar duas vezes", resida o problema. A atitude de pensar, na leitura que o jurista Celso Lafer faz do pensamento de Arendt, consiste em um "fazer companhia para si mesmo", uma conversa interna da pessoa. O mal é banal também no sentido de não ser algo pensado: o agente pratica atos (ou obedece a ordens) capazes de gerar calamidades sem refletir sobre sua natureza. Quando as pessoas param para pensar, elas refletem sobre o que significam as coisas e ao fazer isso, elas conseguem distinguir, ao menos parcialmente, entre o bem e o mal por critérios de coerência.

No limite, um mero parar para pensar teria o potencial de salvar a vida de Fabiane, ter poupado o professor Luiz Ribeiro da humilhação a que foi exposto e evitado dezenas de mortes provocadas por PMs. Vivemos em um contexto de profundo desestímulo ao pensamento, por razões que não cabe explorar nesse texto, e pagamos um preço alto por isso. A banalidade do mal, diz Arendt em correspondência com o teólogo Gershom Sholem, permite que ele possa "cobrir e deteriorar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo na superfície". Talvez seja hora de voltarmos a pensar.

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