OPINIÃO
27/02/2015 14:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

São Paulo quer sediar o Fórum Mundial da Bicicleta em 2016

Historicamente relegada a um papel secundário - até insignificante - nas políticas públicas do Brasil, a bicicleta vem pouco a pouco consolidando seu papel como parte da solução de mobilidade urbana - em especial em São Paulo, onde, em 2013, eclodiu um significativo levante popular, contra as tarifas abusivas do transporte público e por um sistema de mobilidade mais racional e sustentável.

Fora do Eixo/Flickr
Bicicletada percorreu cerca de 5km sob forte chuva. Morte de mulher em acidente de bicicleta pela manhã de sexta-feira causa revolta e reúne cerca de 2 mil pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo.Entre as reivindicações estão a construção de mais ciclovias e respeito dos motoristas aos pedestres e ciclistas. (CC BY-SA) Mídia Fora do EixoO Centro Multimídia do Fora do Eixo foi selecionado no Programa de Patrocínio Petrobras Cultural, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura e Governo Federal.

O primeiro dia do Fórum Mundial da Bicicleta em Medellín (Colombia), nesta quinta-feira, 26, foi marcado por uma intensa programação de palestras, painéis e atividades, nos salões e auditórios da Plaza Mayor, e por uma movimentação igualmente fervilhante nos bastidores.

Enquanto a programação oficial do evento rolava solta, com Enrique Peñalosa - ex-prefeito da cidade de Bogotá - apresentando suas ideias para cidades mais justas e humanas, ou mesmo antes, no período da manhã, com o Prefeito de Medellín apresentando um importante plano de construção de 400 km de ciclovias até 2030, muitas comitivas de cidades latinoamericanas estavam se articulando nos bastidores para apresentar formalmente suas candidaturas para sediar a próxima edição do Fórum Mundial.

A comitiva de São Paulo - representada por algumas importantes organizações e coletivos como a Ciclocidade, Bike Anjo, oGangorra, Bike é Legal, Vá de Bike, Bicicleta para Todos, Aliança Bike, Instituto AroMeiazero - se organizou para apresentar oficialmente a candidatura da cidade como sede para o próximo Fórum Mundial da Bicicleta, em 2016.

A decisão final acontecerá no domingo, durante a Assembleia Geral que finaliza a presente edição do Fórum. Mas já há um clima, pelo menos entre a comitiva de brasileiros de todos os Estados, de que São Paulo tem a candidatura mais sólida entre as cidades que também estão postulando.

Confira acima o vídeo oficial da candidatura de São Paulo... E confira abaixo a carta oficial que será entregue hoje, dia 27 de Fevereiro, à Assembleia Geral do Fórum Mundial da Bicicleta de Medellín.

A La Asamblea General del Foro Mundial de la Bicicleta

ref. Carta de postulación de la ciudad de São Paulo para sede del Foro Mundial en 2016

São Paulo e as bicicletas: uma cidade de contrastes e diversidades

O Fórum Mundial da Bicicleta é aqui!

Esta carta pública é a materialização do desejo coletivo de projetar a cidade de São Paulo como sede do próximo Fórum Mundial da Bicicleta, em 2016. É também, de certa maneira, um pedido de socorro à comunidade ciclística internacional. Explicamos.

Historicamente relegada a um papel secundário - até insignificante - nas políticas públicas do Brasil, a bicicleta vem pouco a pouco consolidando seu papel como parte da solução de mobilidade urbana - em especial em São Paulo, onde, em 2013, eclodiu um significativo levante popular, contra as tarifas abusivas do transporte público e por um sistema de mobilidade mais racional e sustentável.

Muito em virtude da maturidade e do reconhecimento dos movimentos em torno da bicicleta - pela sua capacidade de mobilização e conquistas recentes nas políticas públicas, fruto de uma década de ações diretas e de promoção da bicicleta -, o ano de 2014 pode ser considerado um marco histórico para São Paulo:

- A cidade saltou de 63 para mais de 200km de ciclovias em cerca de 7 meses;

- O plano para 2015 é chegar a 463 km de vias exclusivas e segregadas;

- O Plano Diretor Estratégico, cuja revisão se iniciou em 2013 e foi concluída em 2014, teve a participação direta de ciclistas na construção dos capítulos referentes à bicicleta e à priorização dos modos ativos de transporte em detrimento dos motorizados.

Este atual cenário de importantes avanços suscita relevantes questões, urgentes e emergentes:

- Como os movimentos em torno da bicicleta devem se posicionar daqui em diante?

- Como consolidar os avanços em políticas perenes, e de Estado, que transpassem gestões?

- Como dialogar com segmentos e organizações da sociedade ainda resistentes às mudanças de paradigma para uma mobilidade urbana mais justa, igualitária, econômica e menos poluente?

O Fórum Mundial da Bicicleta tem possibilitado reunir estudos de casos, práticas, experiências locais, realizando integração e intercâmbio entre atores da sociedade civil, bem como estimulando debates muito significativos. Ter a cidade de São Paulo como sede, no momento em que se vive um intenso debate entre grupos favoráveis e outros contrários às novas iniciativas, permitiria fortalecer a ideia não apenas possível, mas fundamental, de que São Paulo pode sim ser uma cidade ciclável - e acima de tudo permitiria que a cidade enfrentasse suas fobias por meio da promoção do diálogo.

Diversos aspectos da identidade de São Paulo e da cultura da bicicleta se fazem necessários destacar, e decisivamente contemplam o espírito transversal, colaborativo e diverso de um possível Fórum Mundial da Bicicleta na cidade. São eles:

1. Uma megalópole com desafios igualmente gigantescos. A região metropolitana de São Paulo tem 20 milhões de habitantes. Somente na cidade de São Paulo são 11,5 milhões de pessoas.

2. Todas as culturas se encontram pacificamente na cosmopolita São Paulo. Pelas ciclovias do centro de São Paulo é comum cruzar com bolivianas levando filhos à escola de bicicleta, haitianos pedalando e conversando em francês, muçulmanos, judeus, alemães, orientais, turistas europeus pedalando bicicletas compartilhadas. Se em cima de uma bicicleta todos somos iguais, a cidade de Sâo Paulo é a urbe onde isto mais se evidencia.

3. Apoio do poder público local. O 5º Fórum Mundial da Bicicleta já conta com apoio pleno da cidade, representada pelo seu Prefeito e por diversas secretarias e órgãos públicos municipais. Ele acontece com a abertura de importantes equipamentos públicos para realização das atividades do Fórum, bem como através do auxílio à vinda de estrangeiros, com indicações de hotéis, pousadas e hospedagens que mantém convênios com a cidade.

4. Ocupando os espaços públicos. Além das praças, dos parques e ruas, a Prefeitura de São Paulo disponibilizará os seguintes equipamentos públicos:

a. Teatro Municipal

b. Praça das Artes

c. Auditório do Ibirapuera

d. Auditório Rubens Borba de Moraes (Biblioteca Mario de Andrade)

e. Espaço de Convenções Anhembi

f. Teatro Paulo Eiró

g. Teatro João Caetano

h. Teatro Martins Penna

i. Teatro Cacilda Becker

j. Teatro Alfredo Mesquita

k. Teatro Flavio Imperio

l. Teatro Decio de Almeida Prado

m. Teatro Zanoni Ferrite

n. Teatro Biblioteca Prestes Maia

o. Sala Adoniran Barbosa (CCSP)

p. Sala Jardel Filho (CCSP)

q. Sala Paulo Emilio Salles (CCSP)

r. Sala Lima Barreto (CCSP)

s. Auditório Museu da Cidade de São Paulo

t. Auditório Oca Ibirapuera

u. Biblioteca Alceu Amoroso Lima

v. Biblioteca Alvares de Azevedo

w. Biblioteca Belmonte

x. Biblioteca Mário Schenberg

y. Biblioteca Monteiro Lobato

z. Biblioteca Roberto Santos

aa. Biblioteca Viriato Côrrea

5. Uma cidade de grande potencial de uso da bicicleta. Segundo pesquisa Ibope/Rede Nossa São Paulo, 32% dos paulistanos são ciclistas habituais ou eventuais. 7 em cada 10 paulistanos consideram o trânsito da cidade ruim ou péssimo e 71% disseram que abandonariam o carro se houvesse uma boa alternativa de transportes, incluindo uma rede cicloviária.

Enquanto infraestrutura cicloviária induz demanda para mais bicicletas, as contagens de ciclistas comprovam esta máxima. Segundo levantamento da Associação Ciclocidade, a Avenida Eliseu de Almeida, por exemplo, teve aumento de 53% no fluxo de ciclistas após a implantação de uma ciclovia no local. E a Avenida Brigadeiro Faria Lima, logo após implantação de um bicicletário próximo (no Largo da Batata), apresentou aumento superior a 40% no fluxo de ciclistas na ciclovia, segundo levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Todos os domingos, mais de 120 mil paulistanos pedalam nos mais de 100 km de Ciclofaixas de Lazer (estruturas temporárias que funcionam todos os domingos e feriados, das 7h às 16h).

6. Necessidade de dialogar e convencer setores resistentes da sociedade. Toda mudança gera conflitos. Desconstruir a narrativa de quase um século de políticas rodoviaristas e de favorecimento da indústria automobilística não é tarefa simples. Alguns setores da sociedade e da mídia paulistana, cegos pelo status quo motorizado, têm se articulado com vistas a destruir as políticas de priorização dos transportes ativos e coletivos. Associações e coletivos pró-mobilidade por bicicletas, em São Paulo, têm se empenhado para dialogar com estes segmentos e para mostrar os aspectos positivos desta importante mudança de paradigma para a mobilidade urbana na cidade.

7. Fevereiro de 2016. Mês e ano decisivos. Está previsto para Fevereiro de 2016 a finalização do Plano de implantação de 400 km de ciclovias pela Prefeitura de São Paulo. 2016 será, ainda, ano eleitoral, o que significa que, a partir de Julho, muitos dos debates eleitorais na cidade estarão centrados na mobilidade urbana, especialmente no uso de bicicleta. E a experiência da cidade, estudada e debatida também ao longo do Fórum, poderá servir de exemplo para muitas outras cidades pelo Brasil e pelo mundo.

8. Gestão transversal, colaborativa, formas de organização e calendário prévio. Não nos limitamos a apresentar um modelo prévio de organização para o próximo Fórum Mundial da Bicicleta. Nossa proposta é garantir um calendário de atividades que permitam o engajamento de mais voluntários, mais organizações e mais participação internacional. Para isto, promoveremos um Fórum Local de Cicloativismo, entre Maio e Julho de 2015, bem como uma série de encontros temáticos e organizados em Grupos de Trabalho, visando a qualificar e empoderar ainda mais as pessoas sobre a organização do Fórum. Toda estrutura do que será o Fórum Mundial de 2016 será apresentada ao público geral e à imprensa durante o Mês da Mobilidade, em Setembro de 2015.

Associações, OSCIPs, ONGs, coletivos que assinam esta carta e ratificam o Fórum Mundial da Bicicleta 2016 em São Paulo:

Ciclocidade - Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo

Instituto CicloBR

Bike Anjo SP

oGangorra + Las Magrelas

Secretaria Executiva da Rede Nossa São Paulo

Aliança Bike

ITDP Brasil

AroMeiazero

Bicicleta para Todos

Transporte Ativo

Bike é Legal

Vá de Bike

Pedal Verde

CicloLiga

São Paulo Bike Polo

Instituto Mobilidade Verde

OZ Bikers

Blog do Ciclista

Circuito Brasileiro de Cicloturismo

Bike Polo SP

Eu Vou de Bike

Pedalinas

Pedalentos

CicloZN

CicloButantã

Pedala Manaus

Rede Butantã

Movimento Ciclovia Eliseu de Almeida

Movimento Ciclovia Pedroso de Morais

Empreendimentos e iniciativas da Economia Criativa da Bicicleta que assinam esta carta e ratificam o Fórum Mundial da Bicicleta 2016 em São Paulo:

Ciclomidia

Cicloponto

Bike Café - Foodbike

Los Mendozitos - Foodbike

Le Sacole - Foodbike

Pudim a Gosto - Foodbike

Brownie Affair - Foodbike

Bike Burger - Foodbike

Aro27 Bike Café & Bike Shop

Ciclourbano - Bike Shop

Green Bean Café

Milk Comunicação

Pediverde

Pronto SP - bike messenger

Pedal Power

Proparts

Bicicletas Groove

Cardoso Bicicletas

Trek Brasil

Tito Bikes

Criativo Pedalando

Fepase

IGP Brasil

P.S. A viagem de Daniel Guth a Medellín conta com apoio do Movimento Conviva e da Bradesco Seguros.