OPINIÃO
29/04/2014 16:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Minhocão: Por que? Como? Quando? Será?

Arquivo pessoal

Tramita, na Câmara dos Vereadores, um projeto de lei (10/2014) que visa a desativação completa do Elevado Costa e Silva, popularmente conhecido como Minhocão. O texto do projeto de lei prevê 4 anos de desativação gradual, começando pelos sábados.

A proposta já seria interessante e digna de aplausos se contemplasse apenas a desativação do Minhocão como viário de uso exclusivo aos veículos motorizados, mas o texto do projeto vai além e aponta para a criação do que se consolidará como Parque Minhocão.

Símbolo da administração carrocêntrica do engenheiro Paulo Maluf - que destinou mais de 60% do orçamento municipal a obras viárias em seus 2 anos de gestão - o Minhocão foi inaugurado em 25 de Janeiro de 1971. Sim, no aniversário da cidade de São Paulo! Seu nome "Elevado Costa Silva" foi uma homenagem do ex-prefeito ao seu padrinho e amigo, o general Arthur da Costa e Silva.

Projeto polêmico desde sua implantação, o Elevado foi saudado por parte da sociedade e da grande imprensa que vislumbraram, em sua construção, uma solução palpável para o trânsito da crescente frota de automóveis da cidade.

Erraram. E erraram feio. Mas esta grande cicatriz urbana, esta mácula simbólica do equivocado planejamento rodoviarista que norteou as políticas públicas de mobilidade por quase um século em São Paulo, pode se transformar em motivo de orgulho para os paulistanos e, por que não, para os brasileiros. Como assim?

Explico-me. É cada dia mais frequente no (re) planejamento das cidades considerar novas fórmulas de vivência urbana, novas sociabilidades. Devolver os espaços públicos às pessoas e repensar seus usos e funções é, essencialmente, a medida mais urgente. Especialmente em uma cidade que destina 80% de suas vias públicas a apenas um meio de locomoção: o individual motorizado.

À luz destas ideias arquitetos, urbanistas, ativistas, artistas plásticos e moradores lindeiros ao Elevado resolveram fundar a Associação Parque Minhocão, buscando liderar este debate acerca de como devolver 2.730 metros de puro concreto às pessoas.

Ora, para quem já passou pelo Minhocão à noite ou em um domingo ensolarado, longe das carcaças de toneladas de aço e da fuligem dos motores, a resposta sempre esteve à vista: por que não transformá-lo em um parque permanente com paisagismo adequado, ciclovia, árvores e áreas de convivência?

A ideia do parque não é utópica, ela já é realidade das 21h30 às 6h e aos domingos. Realidade meio árida, confesso, mas com a ausência de áreas públicas de lazer e convívio na região central a população já se apropriou desta ideia e agora anseia por esta saudável ocupação também aos sábados, depois durante as manhãs, então às noites a partir das 20h e, quando menos esperarmos, a implantação do parque será natural. E será uma conquista histórica da cidade de São Paulo.

É viável?

O Projeto de Lei 10/2014 foi assinado por 7 vereadores e já conta com apoio de outros 10 parlamentares. De todos os partidos, governistas e de oposição ao governo.

E os 40 mil carros que passam todos os dias por lá?

Recomendo 3 artigos:

A demolição

Os cálculos mais atuais apontam que a demolição do Minhocão teria um custo superior a R$ 80 milhões. Com menos recursos se viabilizaria um parque elevado de referência internacional.

Poluição sonora

O fotógrafo Felipe Morozini, que reside em um apartamento com vistas para o Minhocão, declarou que o volume da televisão vai de 95 (durante o dia, com os automóveis circulando), para 12 (quando a circulação dos carros é interrompida). Todos os dias, há mais de 40 anos.

Exemplos de parques pelo mundo, onde antes só havia espaço para as máquinas:

  • Highline Park (NY)
  • Promenade Plantée (Paris)
  • Harbor Drive (Portland)
  • Cheonggyecheon (Seul)
  • Pier Freeway (São Francisco)
  • Madrid Río (Madrid)
  • Alaskan Way (Seattle)