OPINIÃO
09/05/2014 16:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

De bike ao trabalho: o congestionamento em SP

Não é o fato de possuir um automóvel que caotiza nosso trânsito. É o seu uso. Não é a taxa de motorização que submete nossas grandes cidades aos terríveis índices de congestionamento, é o estímulo ao uso deste modal.

Arquivo pessoal

Hoje é o Bike to Work Day - ou melhor, De Bike para o Trabalho - um movimento mundial para estimular as pessoas a considerarem a bicicleta como um meio de transporte viável, funcional, rápido e prazeroso.

A reflexão vem bem a calhar, justamente na semana em que a CET - Companhia de Engenharia de Tráfego - divulgou dados sobre a velocidade média do trânsito em algumas das principais vias da cidade de São Paulo. O resultado pode parecer desanimador, afinal nunca é agradável estar na direção de uma máquina com centenas de cavalos de potência a velocidades inferiores à de uma galinha correndo, mas se mudanças vêm das oportunidades, o caos é o ambiente perfeito para fomentá-las.

Dentre as justificativas apresentadas pela CET para a queda na velocidade média está a crescente taxa de motorização na cidade. Ou seja: mais carros vendidos e emplacados, mais entupidas de carros nossas vias serão. Pode parecer uma matemática óbvia, mas ela é, na verdade, quase integralmente mentirosa. Explico-me.

Não é o fato de possuir um automóvel que caotiza nosso trânsito. É o seu uso. Não é a taxa de motorização que submete nossas grandes cidades aos terríveis índices de congestionamento, é o estímulo ao uso deste modal.

A taxa de motorização na Grande São Paulo, segundo a Pesquisa de Mobilidade 2012 realizada pelo Metrô (mais conhecida como Pesquisa Origem-Destino), é de 212 carros para cada 1 mil habitantes. No Brasil como um todo, ela não chega a 200 carros/1.000 hab. Só para efeito comparativo e de didática argumentativa, a Europa possui uma taxa de motorização de 500 automóveis para cada 1 mil habitantes. Índice quase 200% superior ao da Grande São Paulo.

Não à toa ainda vemos pipocar anualmente novas indústrias de fabricação e montagem de carros, especialmente no Estado de São Paulo. Não à toa as vendas de carros anuais estão quase empatadas com as vendas de bicicletas no país. Como bem disse o CEO da Nissan e da Renault em recente entrevista à Revista Exame, "no longo prazo, o potencial de crescimento (das vendas) é marcado pela taxa de motorização".

Portanto, a tendência óbvia é que sigamos piorando nossa taxa de motorização. Seja porque o mercado automotivo se aquece - com tantos benefícios fiscais e de crédito - seja porque o potencial de vendas e consumo, comparado com outros mercados e países, ainda é muito grande. O que nos leva ao ponto-chave por que temos índices tão alarmantes de congestionamento: como estamos fazendo uso dos nossos carros?

A mesma pesquisa Origem-Destino nos indica algumas respostas. Vejam neste gráfico a relação entre renda familiar x modo de transporte:

E vejam neste mapa a distribuição do emprego formal na cidade de São Paulo:

Se cruzarmos o mapa de distribuição de empregos, com as áreas de maior concentração de renda e a escolha do meio de transporte pela faixa de renda familiar, podemos concluir que:

  1. Quem opta por se locomover de carro em SP mora mais próximo do local de trabalho do que quem opta pelo transporte coletivo;
  2. Quem opta pelo carro mora e trabalha nas regiões com maior oferta de transporte público e alternativo (metrô, trens, corredores de ônibus, bicicletas de compartilhamento).

É o mau-uso do carro que compromete nosso sistema viário; o vício pela falsa sensação de status socioeconômico, segurança, e especialmente pelos estímulos que ainda o Poder Público oferta a quem opta por este modal. Ainda 80% do espaço público viário, em São Paulo, é ocupado por automóveis - enquanto as viagens de carro representam, tão somente, 1/3 do total.

Medidas para desestimular o uso irracional e pernicioso do carro, portanto, são urgentes. Para que as pessoas se sintam confortáveis em possuir um carro e deixá-lo na garagem. Ao passo que se deve estimular os demais meios, especialmente os de característica ativa, erroneamente chamados de não-motorizados.

O que nos leva, para concluir, ao tema inicial deste post: de bike ao trabalho! Que tal experimentar a cidade, pelo menos hoje, sobre duas rodas? Pedalando, em velocidade baixa e constante, mas mesmo assim ultrapassando uma fila de SUV's de 550 nervosos cavalos de potência? Fica a dica.