OPINIÃO
26/06/2015 14:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

7 razões por que a ciclovia da Avenida Paulista é tão especial

Domingo, dia 28, teremos a tão celebrada abertura oficial da ciclovia da Avenida Paulista. Será um momento histórico e de muita celebração. Mas por quê? Enumeramos aqui sete razões por que a ciclovia da Avenida Paulista suscita tantas paixões entre os ciclistas, motivos que já a tornam uma das principais implantações do sistema cicloviário de São Paulo.

J. DURAN MACHFEE/ESTADÃO CONTEÚDO

por Daniel Guth e João Lacerda

Neste domingo, dia 28, teremos a tão celebrada abertura oficial da ciclovia da Avenida Paulista. Será um momento histórico e de muita celebração.

Mas por quê? Elencamos aqui sete razões por que a ciclovia da Avenida Paulista suscita tantas paixões entre os ciclistas, motivos que já a tornam uma das principais implantações do sistema cicloviário de São Paulo.

1. Uma vitória d@s ciclistas

Esta ciclovia é a consolidação do acúmulo histórico, do desejo e das reivindicações históricas da própria sociedade civil organizada. Foram anos de solicitações, ofícios, manifestações, cartas públicas, petições e até projetos básicos doados. A ausência de uma estrutura segregada e segura aos ciclistas na Avenida Paulista foi, inclusive, o pontapé inicial para a agenda pública que construímos com o Prefeito Fernando Haddad, durante os primeiros meses de seu mandato. A ciclovia da Avenida Paulista, conquanto, não é "do Haddad" ou "desta gestão". É, concluo, uma ciclovia de todos os cidadãos que há décadas batalham pela humanização das ruas da cidade.

Foto: Rachel Schein

2. Vidas ceifadas

Nenhuma morte causada pela motorização do nosso trânsito pode ser aceita. E a Avenida Paulista tem um tenebroso histórico neste aspecto. Amigas e amigos nossos foram assassinados nesta via por conta da pressa, da intolerência, das altas velocidades, da imprudência e do desenho da via que desfavorece os modos ativos de deslocamento. A ciclovia da Avenida Paulista, portanto, é a nossa grande homenagem à VIDA, que nunca pode ser subjugada pelo motor.

Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress

3. A Praça do Ciclista é na Avenida Paulista!

Um dos principais pontos de encontro dos ciclistas de São Paulo está na própria Avenida Paulista, a Praça do Ciclista - lei sancionada em 2007. Precisa dizer algo mais?

4. Palco principal da Bicicletada (critical mass)

Foi em Junho de 2002 que se deu a primeira bicicletada de São Paulo, surgida no esteio dos movimentos autogestionários e de enfrentamento à lógica do capital. E não é de se estranhar que desde sempre a Avenida Paulista, uma via símbolo do capital e do business, seja o palco principal da bicicletada. Conheça um pouco desta história

Foto: Rachel Schein

5. Contagens de ciclistas desde 2010

Desde muito tempo os ciclistas já conhecem a demanda real que existe na Avenida Paulista para deslocamentos feitos em bicicletas. Preocupados com isto e com dar visibilidade a esta demanda, a Ciclocidade - Associação de ciclistas urbanos de São Paulo, realiza contagens periódicas de ciclistas nesta via. Confira aqui os resultados de 2010 e 2012. Para nós, a ciclovia da Paulista já nascerá subdimensionada, com uso intenso de ciclistas já na primeira semana depois de sua abertura. Em pouco tempo teremos de discutir seu alargamento devido ao volume de pessoas que a utilizarão.

Foto: João Lacerda

6. Uma via para as pessoas

Todos os dias são 1,5 milhão de pedestres circulando pela Avenida Paulista. Mais de 1 mil ciclistas no período de contagem da Ciclocidade, centenas de skatistas, cadeirantes, patinadores. A ciclovia, como estrutura para promover esta mobilidade ativa, está totalmente alinhada com a vocação de uma via para as pessoas.

7. Cartão postal da bicicleta em São Paulo

Não há nada que promova mais o uso de bicicletas na cidade do que cada vez mais pessoas usando bicicletas. Pode parecer óbvio, mas não é. Uma pessoa usando uma bicicleta, como humanizadora dos espaços públicos e do próprio trânsito, retroalimenta a própria mobilidade por bicicletas a partir do exemplo, da irradiação de uma nova relação com a cidade, da quebra de paradigma da clausura da mobilidade motorizada.

A ciclovia da Avenida Paulista, que já nascerá subdimensionada, terá um papel fundamental na promoção do uso de bicicletas em São Paulo. O dia todo veremos mulheres, crianças, idosos, courriers, famílias, empresários, garis, todos circulando de bicicleta. Na hora do rush, enquanto centenas estarão travados e estressados dentro de suas caixas de ódio - Arrigo Barnabé: peguei emprestado, tudo bem? - outras centenas de pessoas estarão circulando com um sorriso no rosto na ciclovia no canteiro central. O impacto disto para convencer mais pessoas a experimentarem seus deslocamentos em cima de uma bicicleta é incomensurável.

Por estas razões, portanto, é que a ciclovia da Avenida Paulista já nascerá como o principal cartão-postal da bicicleta na cidade de São Paulo.

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Linha do Tempo da Avenida Paulista

Há muito tempo a Avenida Paulista é uma via vocacionada para a mobilidade ativa. Foram muitos os percalços neste caminho e os gestores públicos que nunca compreenderam muito bem porque as pessoas gostam e querem estar ali, mas neste domingo a inauguração da ciclovia da Avenida Paulista consolida muito desta vocação e reconhece o acúmulo histórico de construções da própria sociedade civil.

Desde a sua construção, no final do século XIX, a Avenida Paulista favoreceu a mobilidade ativa. Com projeto de Joaquim Eugênio de Lima imitando as avenidas europeias, a Paulista sempre contou com calçadas largas desde o seu nascimento, casarões da sociedade burguesa cafeicultora e industrial e linhas de bonde (que sobreviveram até 1968).

Até 1952, a legislação municipal considerava a Avenida Paulista uma Zona Estritamente Residencial (ZER). A partir daí e com o frenético crescimento da cidade, a via passou a mudar radicalmente.

Em 1967 o Prefeito Faria Lima anunciou uma série de desapropriações para a ampliação da avenida, de maneira a comportar o constante aumento de carros em circulação. Um ano depois a linha de bondes elétricos foi desativada completamente.

Em 1974 se deu o início das obras de alargamento da Avenida Paulista, culminando em 4 faixas de rolamento de cada lado para os automóveis e o estreitamento das calçadas - que eram bem mais largas do que são hoje.

Na década de 1980 os últimos casarões ainda remanescentes foram demolidos (hoje restam somente quatro!) e a Avenida Paulista já estava consolidada como o principal centro empresarial e de negócios da cidade.

Em 2002 a Paulista foi palco da primeira bicicletada (critical mass) de São Paulo.

Em 2004, apesar das altas velocidades permitidas - a via tinha velocidade máxima de 70km/h, hoje a velocidade máxima é de 50km/h - a Avenida Paulista foi palco de uma série de fechamentos aos domingos para as pessoas curtirem a Avenida e a cidade, resgatando um pouco de sua história pré-década de 1950.

Em 2008 foi o ano da reforma das calçadas da Avenida Paulista, melhorando um pouco a acessibilidade e a circulação dos mais de 1,5 milhão de pedestres que por ela circulam todos os dias.

Em Setembro de 2012 a Avenida Paulista ganhou, aos domingos, a Ciclofaixa de Lazer. Devolvendo duas faixas de rolamento às pessoas, aos domingos, a Ciclofaixa da Avenida Paulista pode se interligar com as ciclofaixas do Parque Ibirapuera até o Parque do Povo, criando um importante eixo de lazer e de promoção de uma cidade mais humana.

Em Julho de 2013 a faixa preferencial de ônibus passou a ser faixa exclusiva, devolvendo ao transporte público coletivo um pouco o que ele havia perdido no final da década de 1960.

E finalmente, em 28 de Junho de 2015, a Avenida Paulista terá uma ciclovia permanente implantada no canteiro central. No caminho, mais uma vez, desta vocação pelo favorecimento dos modos ativos de deslocamento.