OPINIÃO
26/07/2014 09:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Homeopatia não funciona, ponto!

A homeopatia apresenta dois grandes problemas: um teórico, outro empírico. Em suma, as leis da natureza estão de um lado e a homeopatia do outro. Um divórcio e tanto!

Flickr/martaa.lauzirika

Você passou uma semana difícil, com dores no corpo. Tomou todos os chás que aquela sua tia recomendou e, mesmo assim, não passou. Resolveu, então, consultar um médico. Após alguns exames, ele te propõe duas alternativas de tratamento: (1) tomar um medicamento amplamente estudado, com diversas demonstrações de eficácia; ou (2) tomar um medicamento controverso, com pouca ou nenhuma eficácia, e que o mecanismo de ação não é plausível.

Tá, não tenho como saber qual sua resposta, mas imagino que tenha escolhido a opção mais interessante, segura e eficaz: a número um. Nesse caso você tomou um medicamento convencional que segue os rigorosos princípios da medicina baseada em evidências, isto é, embasado num corpo teórico e empírico, derivado de diversos estudos com uso de amostras e análises estatísticas para determinação de resultados.

Quem optou pelo número dois escolheu um medicamento homeopático. Inventado no século 18, desde então, tem falhado consistentemente em cumprir os padrões da medicina baseada em evidências. Membros importantes da British Medical Association, por exemplo, não recomendam o uso da homeopatia. O sistema de saúde inglês, um dos mais avançados do mundo, não disponibiliza este tipo de tratamento. Mas por que será? Será que estão querendo implicar com uma forma alternativa de tratamento?

Não! A homeopatia apresenta dois grandes problemas: um teórico, outro empírico. Primeiro, do ponto de vista teórico, seu mecanismo de ação simplesmente não faz sentido. Isto é dito há décadas, mas o cientista David Grimes demonstrou muito bem isto num artigo recente. A ideia era descobrir se os mecanismos de ação da homeopatia (a "lei dos similares" e a altíssima diluição) se aplicavam as leis da física e da química. E, pasmem, os resultados foram negativos! Não há indício de que sequer contenha um componente biologicamente ativo. Nem é crível a ideia de que a água tenha "memória", como advogam os especialistas. Em suma, as leis da natureza estão de um lado e a homeopatia do outro. Um divórcio e tanto!

Cuidado, cenas fortes! James Randi tomando uma overdose de homeopatia ao vivo.

Agora, do ponto de vista empírico o cenário não melhora muito. Existem centenas de estudos clínicos que testaram a eficácia da homeopatia em diversas condições de saúde. Alguns com resultados positivos, outros com resultados negativos. Para entender o escopo geral da situação é importante olhar para revisões sistemáticas da literatura. Desde 1991 revisões já apontavam resultados desfavoráveis para eficácia da homeopatia. Mas como o tema ainda era controverso, Klaus Linde e colaboradores em 1997 publicaram no prestigiado The Lancet uma revisão e meta-análise. Observando 89 estudos clínicos, chegaram à conclusão de que as evidências a favor da homeopatia eram realmente fracas. Essa mesma equipe, em 1999, concluiu numa outra revisão que a qualidade dos estudos influenciava o resultado positivo: estudos metodologicamente ruins (viés de alocação, amostra pequena etc) tendiam a apresentar resultados positivos.

Como se não bastasse, Shang e colaboradores publicaram uma nova revisão sobre o tema no The Lancet em 2005. Dessa vez, o objetivo da pesquisa era entender se o efeito da homeopatia não seria mais bem explicado pelo efeito placebo. Analisando 110 pares de estudos clínicos de homeopatia e medicina convencional, provaram que os efeitos relatados nos estudos de homeopatia podiam ser explicados por três fatores: problemas metodológicos, viés no relato de dados e... efeito placebo!

Bom, então a homeopatia pode não funcionar, mas também não atrapalha, né? Só que não! É possível citar um bom número de problemas éticos sobre o tema: pacientes deixarem de procurar tratamento médico convencional, desperdício de dinheiro público com um tratamento que não funciona (sim, o SUS gasta recurso com isso!), pacientes ludibriados por um discurso que omite os achados científicos. Entre outros!

Todo procedimento na área da saúde (exame, medicamento, psicoterapia, cirurgia etc) passou por um longo e complexo processo de desenvolvimento científico, da teoria à prática. Bilhões de dólares são gastos para chegar num resultado que possa trazer benefício ao paciente. Aquela aspirina que você tomou semana passada passou por isso. Aquele exame de sangue que você fez ano passado, também. Por que não exigir o mesmo padrão de rigor científico para a homeopatia? Se por alguma razão bizarra tratamentos obsoletos ainda circulam por aí, amparados por especialistas que se recusam a olhar para a literatura científica, precisamos aprender a escolher com mais cuidado quais usamos e recomendamos.

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