MULHERES
16/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 16/10/2018 10:08 -03

Falar sobre o estupro que sofri mudou a forma como me relaciono

Sei o que acontece quando você procura meu nome no Google.

"Me culpei por não ser capaz de discernir entre os caras bons e os caras maus."
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"Me culpei por não ser capaz de discernir entre os caras bons e os caras maus."

Ai, porra, pensei: "Ele procurou meu nome no Google". Virei e continuei caminhando pela High Line, em Nova York, suando em silêncio. Era a primeira vez que saía com um cara que conheci no Hinge, um aplicativo de relacionamento, desde que me mudei pra Nova York. Achei que estava indo tudo bem, até o cara mencionar que tinha conhecimento do ataque sexual que sofri no campus da minha universidade.

Sei o que acontece quando você procura meu nome no Google. Entre meu perfil sem foto no LinkedIn e a coluna que eu escrevia no jornal da faculdade aparece o artigo mais recente sobre estupro que sofri. Hoje, me recuso a sentir vergonha do meu trauma e sei que escrever sobre ele de forma sincera e matizada pode ajudar outras sobreviventes.

Mas dizer "Me too" (Eu também, tradução em referência ao movimento de mulheres em Hollywood contra o produtor Harvey Weinstein), e fazê-lo publicamente, mudou a maneira de me relacionar. Como tem acontecido desde o ataque, não tenho opção. Só posso me adaptar.

A primeira vez que escrevi sobre o estupro foi para a revista que eu trabalhava na faculdade. Organizei uma edição inteira com depoimentos de sobreviventes de ataques. Era exatamente o que eu teria desejado, uma resposta para aqueles meses que passei embaixo do cobertor, procurando no Google "como as pessoas atravessam esse período?" até meus dedos ficarem cansados.

Aí escrevi um artigo como freelancer para uma publicação online sobre me formar sendo uma sobrevivente. Sabia que escrever sobre o estupro que sofri teria consequências. Mandei uma versão inicial do texto para um amigo que estava estudando direito. Liguei para o centro de carreiras da faculdade. No fim de semana antes da publicação do texto, mandei uma mensagem para um ex-namorado, perguntando: "Estou sendo burra?"

Ele achou que não. "Se um empregador não quiser te contratar porque você é sobrevivente, não é o tipo de lugar em que você vai querer trabalhar", disse ele. Mas o que eu realmente queria perguntar é se alguém estaria interessado em mim depois daquilo. Quem toparia sair com alguém cujo trauma fosse tão fácil de encontrar? Joguei o telefone de lado e me encolhi na cama.

Eu costumava planejar a hora certa de falar para os caras sobre o ataque. Tinha um roteiro. Treinava. Esperar momentos precisos – voltando de um bar, ou então acordando de um pesadelo. Ei, eu dizia, fazendo uma pausa e piscando. Tem uma coisa que eu provavelmente deveria te contar. A palavra chave era "provavelmente". Não queria que eles achassem que eu sentia uma obrigação.

As respostas funcionavam como um teste. Comecei e terminei relacionamentos com base em como os homens reagiram ao fato de eu ter sido sexualmente violentada. Em três anos, colecionei um catálogo de respostas para a frase "fui estuprada". Você estava numa festa? Ele era seu namorado? Por que você não procurou a polícia?

Um jogador de futebol americano chegou a chorar. Um cara de fraternidade que tinha um estoque de ervas especialmente para o gato dele pegou um vidro do negócio que estava em cima da mesa e me perguntou, sem olhar para mim: "Por que você está me contando isso?"

Por que estava contando? Em parte para poder confiar neles. Fui estuprada por um amigo próximo. Vi o cara que dava risada das nossas piadas internas e me mandava poemas por mensagem de texto se transformar na criatura que me jogou à força na cama. Deixei de acreditar nos meus instintos – claramente eu era péssima em ler as pessoas. Me culpei por não ser capaz de discernir entre os caras bons e os caras maus. Falar do estupro me dava uma sensação esquisita de poder. Tinha controle sobre quem saberia, e como e porquê.

Mas também tinha isso: eu achei que expor a minha vulnerabilidade fosse um atalho para a intimidade. Se eu abrisse minha parte mais íntima, na minha cabeça, instantaneamente formaria uma conexão entre eu e aquela pessoa até então desconhecida. Não via outra maneira de lidar com o arrepio que eu sentia quando eu saía com outros caras, com a obsessão em ficar procurando rotas de fuga. Continuo achando que os caras vão fazer algo comigo.

Três semanas depois de publicado meu primeiro artigo sobre o estupro, conheci um cara no bar do campus. Ele tinha olhos azuis, sotaque do sul dos Estados Unidos e estava com um cigarro eletrônico na mão; dei uma baforada de vapor com sabor de frutas na cara dele, quando o barman não estava olhando. Quando o bar estava para fechar, saímos para dar uma volta – era dezembro, e as ruas estavam cheias de neve. Ele colocou o braço nos meus ombros quando passamos na frente de uma fraternidade. "Eu fiz parte daqui um tempo", disse ele. "Mas saí porque eles tinham uma vibe meio 'estupradora'."

Quase escorreguei na neve. Será que ele sabia? Será que ele procurou meu nome com o celular escondido debaixo da mesa? Até hoje não sei a resposta. Com ele, e com todos os caras com quem saio, me pergunto o quanto eles leram a meu respeito, que horas eles vão tocar no assunto. Perdi a opção de revelar o estupro nos meus próprios termos. Mas foi uma decisão voluntária, e sei que valeu a pena – escrevi e ajudei outras pessoas com o meu relato.

Não quero mais a ilusão de controle. Quero a coisa de verdade. Quero poder sobre minha narrativa. Vou continuar falando com os homens da minha vida sobre o que aconteceu porque, mesmo que eles saibam dos detalhes, eles não sabem o que aconteceu depois. Eles não sabem como passei dias com um sorriso no rosto depois de conseguir ter uma relação sexual sem tremer. Eles não sabem o orgulho que sinto do meu progresso. Tem um universo inteiro que eles não conhecem.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.