OPINIÃO
26/02/2016 15:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Desconstrução da esquerda

No lugar de criar novas utopias, formular novas propostas, a esquerda preferiu cair nos braços do sistema tradicional, reduzindo seus programas a meras transferências de renda já implantadas por governos anteriores; colocou o poder como meta suficiente, não como etapa necessária; aceitou qualquer aliança, desconstruindo a própria imagem.

Globo via Getty Images
BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 25: (BRAZIL OUT) Worker's Party Presidential candidate Luiz Inacio Lula da Silva displays a can with a slogan of his campaign in the 1998 Brazilian presidential elections on August 25, 1998 in Brasilia, Brazil. Lula was born in the Northeastern Brazilian city of Garanhuns, in 1945, but his political career began in Sao Bernardo do Campo, an industrial city within the Sao Paulo metropolitan area. With a technical degree in metalworking, Lula became a charismatic and respected labor union leader in the mid-1970s, as Brazil's military regime (1964-1985) was starting to decay. Elected union president in 1975 and re-elected in 1979, Lula led more than 170 thousand metalworkers to the biggest strike Brazil had seen in ten years. A year later, siding with several opposition politicians, intellectuals and religious leaders, Lula founded the Partido dos Trabalhadores ('Worker's Party', in Portuguese). In 1986, with the democracy restored in Brazil, Lula was elected an Assemblyperson with the biggest support among those running for the National Constituent Assembly. Established as a prominent left-wing leader, Lula ran for the presidency in 1989 -the first direct elections for President in Brazil since 1960, won by Fernando Collor de Mello -, 1994 and 1998, both won by Fernando Henrique Cardoso. Finally elected in 2002, with a softened image created to lessen his opposition amongst the middle class, Lula took office adhering to a centrist platform of social reforms and moderate economic policies. Extremely popular among Brazilian voters, Lula was re-elected in 2006 despite corruption scandals involving leading members of his Worker's Party and his government. Lula, seen as the leading man on the current Brazilian economic boom, hopes to elect a successor in the upcoming 2010 presidential elections. (Photo by Gustavo Miranda/Globo via Getty Images)

Os constantes noticiários sobre a Lava-Jato têm levado militantes dos partidos do governo a dizerem que está em marcha uma campanha de desconstrução do PT e da imagem do ex-presidente Lula, cujo objetivo seria a desconstrução da esquerda.

É até possível que as oposições estejam usando as notícias com esta intenção; mas a desconstrução foi feita pela própria esquerda, contando com a colaboração do Lula, do PT e demais partidos de apoio ao governo.

A desconstrução da esquerda ocorreu por causa da aceitação da corrupção, sob o argumento de que todos a praticam; pela perda do vigor transformador e o consequente acomodamento; a falta de imaginação para formular nossas alternativas para avanço social; a incapacidade para perceber e entender a vertiginosa transformação tecnológica e política no mundo e o desprezo por compromissos programáticos e ideológicos.

A esquerda não foi capaz de entender o pleno significado da queda do Muro de Berlim, do fim do socialismo pela distribuição da produção e o consumo industrial depredador; a consolidação do poder sindical da aristocratização do proletariado em contraposição aos interesses das grandes massas; não entendeu a dimensão da crise que vai além da luta de classes e contesta a própria base da civilização industrial; não tem proposta para a ampliação do bem-estar, combinado com o equilíbrio ecológico; não percebe a força da globalização implantando o livre comércio, quebrando as fronteiras nacionais; nem a realidade da economia atual, onde o principal fator de produção é o conhecimento, não o capital financeiro, nem os recursos naturais.

A esquerda desconstruiu-se ao adotar a voracidade pelo poder e seus cargos e privilégios, envenenando os músculos de sua militância por estupidez e imoralidade. Faz parte também deste esforço da autodestruição, a anulação, pela cooptação, dos movimentos sociais como UNE, CUT, MST.

Somado à irresponsabilidade fiscal que provoca a maldade da inflação; o aparelhamento e a má utilização do Estado; a degradação de estatais símbolos da nação, como a Petrobras e os Correios; o desmantelamento do funcionamento do Estado e a desnacionalização do parque produtivo por causa da desvalorização cambial.

No lugar de criar novas utopias, formular novas propostas, a esquerda preferiu cair nos braços do sistema tradicional, reduzindo seus programas a meras transferências de renda já implantadas por governos anteriores; colocou o poder como meta suficiente, não como etapa necessária; aceitou qualquer aliança, desconstruindo a própria imagem.

A foto de Lula no jardim de um palacete para eleger seu candidato poderá ser um dia mostrada como marco da desconstrução da esquerda no Brasil, tanto quanto as fotos de jovens derrubando as pedras do Muro de Berlim significou a desconstrução do socialismo real na Europa.

A esquerda se auto desconstruiu sobretudo ao não perceber seus erros e jogar a culpa da desconstrução nos adversários.

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