OPINIÃO
16/02/2017 16:07 -02 | Atualizado 16/02/2017 16:11 -02

A escravidão moderna e o Brasil que insiste em não enxergar

O Brasil ainda não sente indignação com a moderna escravidão decorrente da desigualdade no acesso educacional de cada criança.

Ilustração de Jean Baptiste Debret disponível na Biblioteca Nacional de Paris, na França
Jean Baptiste Debret via Getty Images
Ilustração de Jean Baptiste Debret disponível na Biblioteca Nacional de Paris, na França

A indignação com a negação de liberdade aos escravos só começou a contaminar a mentalidade da sociedade a partir da segunda metade do século XIX.

Ao longo de 300 anos, a Igreja Católica apoiava, os proprietários de terra precisavam, as classes médias se beneficiavam, e raros intelectuais criticavam a escravidão.

A escravidão era cômoda e natural para a "classe" branca: não havia indignação nem pretextos morais para extingui-la.

Enquanto era defendida por razões lógicas ou econômicas, a causa abolicionista adquiria algum apoio, mas não conseguia os seguidores necessários para se impor sobre a mentalidade histórica que aceitava natural a desigualdade entre brancos e negros.

A Abolição só se consolidou quando os abolicionistas conseguiram passar indignação moral contra a escravidão.

Mais de cem anos depois, a população brasileira ainda não sente indignação moral com a moderna escravidão decorrente da desigualdade no acesso educacional de cada criança, dependendo da renda da família.

A má educação ainda não é vista como um navio negreiro que leva milhões de crianças carentes em direção à pobreza, e leva o país à baixa produtividade, má distribuição de renda, violência, ineficiência e a injustiças.

Não se consegue visualizar que uma criança fora de boa escola é como se ela fosse uma pessoa sendo jogada ao mar, crescendo para ser explorada e excluída devido à negação da educação.

Não há nem mesmo um nome para indicar "negação de educação", como havia a palavra escravidão para indicar "ausência de liberdade".

A negação da liberdade a um escravo era visível na sua servidão, no trabalho forçado, na venda dele próprio e de seus filhos, mas a negação de acesso à educação não é vista como um crime nacional contra a humanidade; nem como uma burrice contra o futuro do país.

A partir do século XIX, a escravidão passou a ser uma aberração moral, mas ainda era um instrumento técnico para uso do mais importante vetor econômico, que eram os braços dos escravos; no século XXI, a negação da educação — "an-educação" — é uma aberração moral, mas também é uma estupidez nacional ao impedir o aproveitamento do mais importante vetor do progresso nos tempos atuais: o conhecimento de cada cidadão ou cidadã livre e educada.

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