OPINIÃO
14/03/2014 15:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Tony Benn: morre um ícone do idealismo democrata

Porque talvez sejam poucos os líderes no mundo hoje que tenham a visão e a integridade desse velho guerreiro.

Oli Scarff via Getty Images
LONDON, ENGLAND - OCTOBER 08: Tony Benn, president of the Stop the War Coalition and former politician, addresses the crowd at the 'Antiwar Mass Assembly' organised by the Stop the War Coalition in Trafalgar Square on October 8, 2011 in London, England. The demonstration sees prominent campaigners and artists calling for the British Government to immediately withdraw troops from Afghanistan. (Photo by Oli Scarff/Getty Images)

O mundo acordou hoje menos idealista. Faleceu na madrugada de quinta para sexta em casa, entre filhos e netos, aos 88 anos, Tony Benn, último dos grandes idealistas políticos do mundo.

Eleito para o Parlamento Britânico pela primeira vez em 1950, pela ala esquerda do Partido Trabalhista, Tony Benn serviu "a mãe de todos os parlamentos" durante 50 anos, até 2000. Quando deixou de candidatar-se em 2001, o fez para fazer o que ele chamou de "política de verdade".

Mas, você deve estar perguntando porque um ex parlamentar britânico, veterano da 2ª Guerra e presidente do Comitê Anti-Guerra, seria importante para o leitor brasileiro?

Porque talvez sejam poucos os líderes no mundo hoje que tenham a visão e a integridade desse velho guerreiro. E nós no Brasil estamos - apesar de não ser privilégio nosso - um tanto carentes de políticos íntegros...

Entre muitas lições, em uma de suas últimas entrevistas públicas em 2007, Tony Benn disse que:

Todas as gerações terão de lutar para manter a representatividade política.

Para ele, no momento em que a sociedade torna-se complacente e assume simplesmente, sem preocupar-se em defender seus princípios, que a democracia veio para ficar, neste momento o fantasma da tirania ergue a sua velha e feia cabeça.

"Na verdade, não existe realmente democracia", refletiu, naquela entrevista, lembrando que enquanto os partidos políticos forem movidos pelo Capital, que financia as campanhas independente de ideologia para manter privilégios e interesses, não haverá democracia.

Parte integrante do Parlamento Britânico, fundado em 1236, Tony Benn acreditava que a sociedade deve aprender com a história. Entendia o privilégio de ser parte de uma sociedade onde celebra-se a história e o conhecimento para que seja possível evoluir e melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos. Por isso resolveu abandonar o privilégio do título herdado de marquês. Era fácil encontra-lo numa tarde ensolarada, tomando uma cerveja, num dos pubs da vizinhança da sua casa em Holland Park, em Londres.

Veterano da 2ª Guerra e tendo perdido um irmão para os fuzis nazistas, reivindicou que a invasão Argentina das Ilhas Malvinas, em 1982 fosse resolvida pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Quando isso não ocorreu e houve a guerra, exigiu que fosse feito um balanço das perdas - tanto econômicas quanto humanas.

Água mole, pedra dura. Tony Benn estava lá para ajudar a recolher os pedaços, quando Margaret Thatcher deixou o governo britânico e o país de joelhos, após anos de chibatadas neo liberais começando pelas guerras sindicais domésticas e as privatizações, à esfera internacional, às alianças com ditaduras brutais como com o General Pinochet e Sadam Hussein.

Se decepcionou tremendamente quando, num governo trabalhista, o Reino Unido enviou tropas para o Iraque, em 2003. Sem falar do Afeganistão. Já aposentado e com alguns problemas de saúde, enfrentou seu próprio partido de origem, colocando os ideais acima da política partidária, liderando os grandes protestos à guerra contra o Iraque no centro de Londres, alguns dos quais chegaram a mobilizar 750 mil pessoas. E falou a jovens no concerto de Glastonbury, o festival de música realizado anualmente no Reino Unido desde a década dos 1960, em resposta ao Woodstock estado unidense.

A morte de Tony Benn representa a perda de uma figura iconoclástica da nossa época. Ele será lembrado como um campeão dos sem poder, um grande parlamentar e um político de convicção

Foi o que disse à mídia essa manhã o atual líder do partido trabalhista, Ed Milliband.

Que a lição de Tony Benn nos sirva a todos. A democracia é um privilégio adquirido e cabe a todos nós trabalhar todos os dias para mantê-la viva.