OPINIÃO
08/08/2014 18:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Nem pai nem mãe

Ás vezes me dizem que sou mãe e pai. Mas isso é impossível. Sou mãe, certamente. Independente do meu gênero, do meu sexo, sou antes de tudo a pessoa responsável pela minha pequena família.

Uma vez, quando meu filho tinha três aninhos, cheguei em casa cansada do trabalho e ele me mandou 'trocar de roupa e sair pra procurar um pai.'

Achei naquele momento que meu coração se partiria de fato.

Mas sacudi a cabeça e dei a ele a resposta mais honesta que pude dar: 'meu amor, você tem um pai. Ele mora longe e não é sempre que nós podemos vê-lo, mas ele é o seu pai'.

Fizemos o nosso filho num campo de desmobilização de guerrilheiros da ONU, numa aldeia na fronteira de Angola com o Zaire. Havíamos ambos visto tanta morte nos últimos anos, que a presença desta vida nova foi como um presente. Quando fizemos amor sem camisinha, perguntei a ele se estava pronto para ser pai. E ele respondeu que seria maravilhoso.

Mas como ele definiria pai? E eu, que expectativas teria do pai do meu filho?

Até então, sendo uma pessoa de origem burguesa, torcera para que houvesse mais harmonia nas relações no meu próprio núcleo familiar do que observara entre os meus pais. Meu pai, apesar de inteligente e conversador, era uma pessoa autoritária e violenta.

Imbuído do papel de provedor, era temido e distante. Chegava em casa depois que já tínhamos ido dormir. Quando o víamos exigia notas boas na escola e seu afeto era condicionado ao preenchimento de expectativas quase inatingíveis. De fato, passava as vezes dias ou mesmo semanas sem falar com uma ou outra de nós, dependendo do grau de desprazer com o que considerava nossas inúmeras falhas.

Essa experiência teve um enorme impacto sobre a maneira com a qual vim a me relacionar com o pai do meu filho. Descobri mesmo antes do menino nascer, que eu queria para ele um pai que o aceitasse sem restrições, que o amasse e o guiasse, sem tolir a sua personalidade. E que principalmente participasse da sua vida.

Mas como tantas outras histórias, a nossa revelou o profundo condicionamento humano ao passado. Basta para esse artigo contar que logo que casamos, meu companheiro de liberal e tolerante passou a agir como um pai da década de 1950. Como meu pai, entendia seu papel como o de provedor e não compreendia participar das idas e vindas do dia-a-dia da família.

Suas inúmeras qualidades confundiam-se numa camada de orgulho masculino desproporcional: homens não trocam fraldas, não banham filhos, não cozinham, não arrumam a casa, não lavam a louça, não sentam para brincar de bloquinhos.

Quando nos separamos, meu ex-marido disse ao juiz que veria o filho uma vez por mês. Reclamei que isso não poderia ser bom para a criança, que o contato frequente com o pai seria mais saudável. Perguntei se a lei não previa que a criança visse o pai toda semana, ou pelo menos a metade do tempo.

O juiz respondeu com pesar que poderia limitar as visitas, mas que não podia estendê-las. E que se ele, o pai, compreendia seu papel apenas como uma visita por algumas horas uma vez por mês, ou doze dias ao ano, não havia nada que pudesse fazer.

Ao longo dos anos, fiz o possível para que o menino tivesse contato com o pai. Saí do meu caminho, muitas vezes assumindo o custo, para que o menino pudesse desfrutar da companhia desse homem. Previa que isso seria importante para a identidade do homem que viria. Deixei o menino todos os anos à porta do pai, impondo ao meu ex-companheiro um papel que ele não quisera assumir a minha frente.

Sozinho com o filho ele se via forçado a preencher - ainda que temporariamente - todas as tarefas do cotidiano: tomar banho, comer, brincar, ler histórias antes de dormir, entre tantas outras. Sei que durante as visitas fazia tudo com amor, pois meu filho voltava pra casa contente. Mas nunca houve nem da parte do menino, nem da parte do pai qualquer menção de que se pudesse incrementar o número de visitas.

Hoje meu filho tem 17 anos. Desde o ano passado, deixei a critério dele ver ou não o pai. E o contato tem sido cada vez mais esporádico. Não estou certa de que fiz bem em insistir na relação. Minha intenção havia sido permitir ao menino forjar sua identidade a partir da sua realidade. Não queria que houvesse fantasias insuperáveis na sua cabeça de quem teria sido o pai, ou do pai perfeito que nunca existira.

Ás vezes me dizem que sou mãe e pai. Mas isso é impossível. Sou mãe, certamente. Sou também uma pessoa, que procura transmitir valores e comportamentos baseados em princípios éticos, humanistas e pragmáticos. Independente do meu gênero, do meu sexo, sou antes de tudo a pessoa responsável pela minha pequena família.

Mas eu falho, ora bolas.

E numa dessas acabei por descobrir que isso de não ser nem pai nem mãe, de ser pessoa responsável, não está tão mal assim. Outro dia meu filho zangou-se comigo: 'Quando eu for pai', me disse indignado, 'não tomarei nunca uma decisão que afeta a família sem consultar aos meus filhos'. Missão cumprida, pensei eu. Ou praticamente...

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