OPINIÃO
11/02/2014 15:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

A depilação e a arte da sedução

Venho acompanhando com interesse a notícia na mídia internacional de que chegou ao fim a era do chamado Brazilian waxing. Trata-se de método de depilação em cêra, que, apesar Árabe de origem, passou a ser propriedade cultural da mulher brasileira uma vez que foi disseminado pelas brasileiras do 'J Sisters' em Nova Iorque e para o mundo durante a década de 1980.

Carioca que sou, jamais passei uma gilete na perna. Cresci no Rio de Janeiro durante as décadas de 1970 e 1980 e a remoção de pêlos pubianos foi ensinada como medida de higiene além de estética, para quem ia à praia ou à piscina durante uns 300 dias do ano. Sendo assim, nunca havia pensado muito nisso, à exceção de quando fui para os Estados Unidos fazer faculdade e, enfurnada lá no norte, na fronteira com o Canadá, pareceu-me lógico poupar um pouco a pele durante os meses gelados e passei a deixar a coisa um pouco mais au naturel.

Assim, quando fui convidada a encenar "O monólogo da Vagina", de Eve Ensler, quando chegamos na cena onde uma personagem se raspa inteira, minha primeira reação foi: coitada dessa moça, por que não se depilou? Deve ter morrido de tanto coçar... Esse comentário foi observado pelo grupo de mulheres com quem estava trabalhando -- a maioria norte-americana -- como sendo típico de uma mulher latina, habitualmente subjugada e que aceita o método de autopunição imposto as mulheres pela sociedade machista.

Pode ser. Mas faz parte de um ritual de beleza adotado por mulheres desde os tempos imemoriais... ou pelo menos desde Cleópatra, no Egito antigo, que já se depilava para satisfazer a si mesma, assim como a Marco Antônio. Pude verificar essa adesão aos ritos de beleza da mulher saariana pessoalmente quando fui cobrir o Oriente Médio para o Jornal do Brasil. Mulher jovem, em meio à loucura das manifestações contra Israel na Faixa de Gaza, fui naturalmente absorvida por protetoras mães palestinas em comunidades de refugiados, que, temerosas pela minha segurança, ansiavam em tirar-me do meio das manifestações e reuniões políticas masculinas.

Perco a conta das manhãs passadas em reuniões de mulheres e crianças em rústicos salões comunitários, onde nos depilavam com preparados de mel e açúcar, penteavam e pintavam nossas unhas, em meio a rodelas de pão árabe em processo de levedura. Terminávamos nossas manhãs com selvagens e sensuais sessões de dança do ventre. Aprendíamos com as mais dignas matronas a sutil arte de mover os quadris, as mãos e os olhos com o simples propósito de seduzir simultaneamente a nós mesmas e à platéia, independente do gênero.

Trago até hoje na carteira, junto às fotos do meu filho e da minha mãe natural, as 3x4 presenteadas com tanto carinho por essas dignas mães adotivas. Elas me ensinaram principalmente -- entre lições de como fazer pão e cozinhar para uma família de 12 num quarto de 25 metros quadrados -- que é preciso principalmente autoestima para combater a opressão.

Ao contrário do que pensa o movimento antidepilação, ao rejeitar os instrumentos de sedução desenvolvidos pelas mulheres ao longo dos tempos, a mulher ocidental apenas confirma sua dependência nos valores masculinos. Trata-se de mais uma história de culpar a vítima. Porque, longe de ser primitiva, como muitas mulheres ocidentais vêm repetindo, a sutil arte de seduzir, de flertar, é alta expressão da força feminina. Cabe a mulher fazer com que a sociedade a aceite como ela é, com mais ou menos pêlos, a vontade da freguesa. E aos homens, que se controlem.