OPINIÃO
25/11/2014 12:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Um filme superlativo

reprodução

Para ver no cinema: RELATOS SELVAGENS (Relatos Selvajes)

Nota 9

Pare o que estiver fazendo e vá logo ver este filme!

É um dos filmes mais divertidos, criativos, surpreendentes, tensos e malucos que vi nos últimos tempos. É drama, thriller, terror, suspense, amor e comédia, tudo ao mesmo tempo. E, se fosse literatura, estaria na estante dos contos: são seis contos -- os relatos -, que nada têm a ver entre si, afora a selvageria mesmo.

  • História 1: começa com uma mulher embarcando em um avião e não conseguindo computar as milhas em seu nome, porque a passagem foi comprada pela empresa.
  • História 2: começa com um cara entrando num restaurante de beira de estrada e dando uma patada na garçonete que abre a porta para ele.
  • História 3: começa com um playboy dirigindo velozmente um carrão na estrada até ser fechado por um carro caindo aos pedaços, que estava a 40 km/h à sua frente.
  • História 4: começa com um cara armando explosivos para implodir um prédio e dizendo que não vai se atrasar para o aniversário da filha.
  • História 5: começa com um garoto sacudindo os pais na cama, para lhes dar uma notícia terrível.
  • História 6: começa com uma festa de casamento, alegríssima, cheia de música, os noivos sorrindo de uma orelha à outra.

O que posso dizer sobre essas historietas?

Em resumo: que a forma como elas começam importa, muito. Mas não tanto quanto a forma como terminam. Porque o enredo delas é conciso, amarradíssimo, tem início, meio e fim, é encadeado, e uma ação vai levando à outra rapidamente, sem fôlego para nada, com reviravoltas a cada minuto, mas mantendo muito sentido. Algumas histórias são maiores que outras (eu acho), mas estamos falando de relatos com 20 minutos, em média. Em míseros 20 minutos, esses começos se transformam em um final totalmente imprevisível! E, no meio do caminho, despertam em nós sentimentos fortes, como angústia e ódio, compaixão e expectativa, alívio e tensão (imagine uma valsa de festa de casamento sendo tensa?!) -- e violência.

Não é à toa que o filme remete imediatamente a Tarantino (vem sendo chamado de "Pulp Fiction argentino") e a Almodóvar (um dos produtores do longa). Mas o diretor é Damián Szifrón, desconhecido pra mim. Ah sim, e o protagonista de uma das historietas é Ricardo Darín, que dispensa apresentações.

O filme tem essa violência e esse exagero próprios dos dois diretores, sem falar do bom humor e do cinismo que permeia até os momentos mais sombrios. E cada relato é uma espécie de fábula, com direito a uma certa "moral da história", mas, por mais absurdo, surreal ou extraordinário que pareça, também tem um quê de realidade, uma marca de "bem que isso deve acontecer de vez em quando". É o lado mais animal, mais bruto e selvagem dos seres humanos, mas ele existe.

(Quem nunca teve seu dia de fúria após ser irritado pelo sistema burocrático do funcionalismo público vários dias seguidos? E que tipo de selvageria pode ser estimulada por uma traição, uma trapaça ou uma vontade de vingança? Tudo isso é retratado, essas vísceras do lado cruel dos seres humanos.)

"Relatos selvagens" é a diversão meio sádica que funciona como válvula de escape para nossos desejos mais tétricos. É como liberar a fúria de um soco num saco de pancadas de lutador de boxe. E a gente sai da sessão do cinema pensando em como o mundo é um lugar maluco e os seres humanos são espantosos e complexos, por todos esses sentimentos que carregam dentro de si, tão ambíguos.

Faltam adjetivos para esses 122 minutos. É o filme dos adjetivos. Os superlativos.

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Post originalmente publicado no Blog da Kikacastro

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