OPINIÃO
23/03/2016 20:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

15 textos para entender o caos político das últimas semanas

Ou seja, tudo muda de um minuto para o outro. Uma coisa permanece, no entanto, e cada dia mais forte: o clima de tensão no País, o acirramento ideológico e o fanatismo de ambos os lados. As pessoas não mais discutem com argumentos -- com base em suas fontes de informação favoritas, em sua capacidade de interpretação e análise e em sua opinião, pendor ideológico etc --, mas usando xingamentos, ódio, intolerância.

EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian President Dilma Rousseff gestures during a meeting with jurists and lawyers who provide support to the President, at the Planalto Palace in Brasilia in March 22, 2016. Brazilian lawmakers relaunched impeachment proceedings against Rousseff and a judge blocked her bid to bring her powerful predecessor Luiz Inacio Lula da Silva into her cabinet, intensifying the political crisis engulfing her government. AFP PHOTO/EVARISTO SA / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Tudo anda tão turbulento quando o assunto é política que fica difícil tecer qualquer comentário ou análise sobre.

Em um dia, uma revista divulga vazamento de uma delação que ainda nem havia sido homologada, implicando, ainda que sem provas, Dilma e Lula em esquema de corrupção.

No dia seguinte, o ex-presidente é levado à força para depor.

Logo depois, milhares vão às ruas protestar contra o governo.

Aí a delação é homologada e descobrimos que ela também implica, ainda sem provas, o presidente do maior partido de oposição, Aécio Neves, em transações suspeitas.

Mas a delação, com tiros pra todos os lados, some do noticiário quando a Câmara aprova a comissão de impeachment de Dilma.

Logo depois, o PT dá um "golpe" no governo, digamos assim, com o retorno de Lula ao Planalto por meio de um superministério, numa tentativa de salvar Dilma do impeachment.

Minutinhos depois, o juiz que virou super-herói, Sérgio Moro, retira o sigilo de grampos telefônicos de uma investigação em curso e os divulga para a Rede Globo, com a interpretação -- que passa a ser dada como única possível -- de que a presidente convidou Lula para ser ministro tentando obstruir a Justiça.

(Parênteses: ao ganhar foro privilegiado, Lula passa a ser julgado pelo STF, e não por um juiz de primeira instância, como Moro. Mas o Supremo também é parte da Justiça, certo? Então qual é a obstrução? O que vejo é uma manobra, questionável, mas não criminosa, já usada às avessas por vários políticos, como quando Eduardo Azeredo renunciou para sua participação no mensalão mineiro ir para as mãos da Justiça estadual).

Descobrimos que o juiz já tinha mandado interromper os grampos quando a gravação foi feita, ou seja, ela é ilegal, mas mesmo assim "tá valendo".

Nessas gravações há conversas pessoais e entre advogado-cliente, que acabam de incendiar o país, divulgadas em trechos.

Há mais protestos contra o governo no momento da posse de Lula, e a guerra vai parar no judiciário: várias ações pedindo a suspensão da posse, sendo duas deferidas e depois derrubadas. Outros milhares vão às ruas em defesa do governo e da democracia.

Gilmar Mendes define liminarmente que Lula não pode ser ministro. O plenário do STF ainda vai ter que analisar a questão, mas isso só deve acontecer depois da Semana Santa.

Ou seja, tudo muda de um minuto para o outro. Uma coisa permanece, no entanto, e cada dia mais forte: o clima de tensão no País, o acirramento ideológico e o fanatismo de ambos os lados.

As pessoas não mais discutem com argumentos -- com base em suas fontes de informação favoritas, em sua capacidade de interpretação e análise e em sua opinião, pendor ideológico etc --, mas usando xingamentos, ódio, intolerância.

Tem gente apanhando nas ruas por estar vestindo a cor X ou Y. Até um bebê foi ameaçado. Uma peça de teatro foi interrompida porque o ator/diretor se pronunciou contra o governo e o público não gostou -- e ambos estavam exaltados demais, pelo que se descreve.

Um blogueiro radical divulga, ao melhor estilo macarthista, uma lista com mais de 700 nomes de artistas e intelectuais, que, segundo ele, devem ser boicotados ("O desprezo público também é muito bem-vindo, como vaias, olhares hostis e até xingamentos. Chega de ser tolerante com esses intolerantes, que ameaçam nossas liberdades, que compactuam com um tirano").

Já o líder do grupo radical Revoltados Online prova de seu próprio veneno ao ser expulso por manifestantes que estavam na Paulista e o acusaram de ser "comunista".

Enfim, não falta mais nada para reproduzirmos aquela alegoria imaginada por John Steinbeck há 60 anos. Ela já está sendo vivida, como também foi nos tempos da Guerra Fria e durante a ditadura militar brasileira.

É claro que, apenas ao fazer esse breve resumo, eu já me posicionei à minha maneira. Usei um ou outro adjetivo, fiz recortes, contei a história pelo meu olhar. Normal, toda narrativa é parcial. Mas não quero ir muito além disso, porque os acontecimentos estão se desenrolando rápido demais até mesmo para um blog.

O twitter passou a ser o canal mais adequado para comentar sobre o Brasil neste momento. Peço aos leitores que quiserem acompanhar o que esta blogueira tem a dizer para espiarem no Twitter do blog, que de vez em quando é atualizado, principalmente com sugestões de leituras de outras pessoas mais competentes que eu para analisarem a História enquanto ela acontece.

Listo, abaixo, algumas dessas leituras que já andei recomendando:

  • Depoimento de Lula à Polícia Federal na íntegra.
  • Lista dos políticos citados por Delcídio em sua delação premiada.
  • Reflexões de Renato Janine Ribeiro sobre os grampos divulgados por Moro.
  • Deslumbres de um país convulsionado, por Breno Costa. Trecho: "Neste país, não há mocinhos. Neste país, também nem todos são bandidos. Existe uma área cinzenta em que deslumbramentos de todos os tipos ofuscam os olhos de quem jura estar com eles bem abertos."
  • Excessos perigosos, por Murilo Rocha. Trecho: "Em um país inflamado desde as eleições de 2014, com a cobertura espetacularizada por parte da imprensa e a criminalização da política, espera-se da Justiça, no mínimo, prudência. O espírito justiceiro e a incitação de um Estado policialesco já provocaram catástrofes recentes dentro e fora do país."
  • Sanatório geral, por Ana Paula Pedrosa. Trecho: "Espalhar informação sem fonte confiável pelas redes sociais ou pelo WhatsApp só porque fortalece seu ponto de vista, seja ele qual for, não ajuda em nada. O noticiário já é fantástico demais para ter concorrência."
  • Cuspa, bata, esfole, mate... ajude a construir um novo Brasil, por Lucas Figueiredo. "O ovo da serpente está chocando."
  • Dias Insanos, por Michele Borges da Costa: "O debate é raso, as informações sobem em palanques, os dedos em riste querem levar o outro ao inferno. Onde essa raiva toda estava guardada? Quem liberou a provocação e o constrangimento para ocuparem o lugar da racionalidade e da tolerância?"
  • Paralelo com Watergate traçado por Moro revela diferenças em como lidar com grampo, por Tai Nalon.
  • Juiz que suspende posse de Lula vota em Aécio e participa de protestos contra Dilma, aqui do HuffPost.
  • 'Se fizer bom tempo amanhã, eu vou', por Alexandre Andrada. Trecho: "Novas eleições estão fora do jogo. Não há como entregar a presidência do país, seja por um dia ou um mês, nas mãos de desprezíveis figuras do naipe de Cunha ou Calheiros. Caso isso ocorra, é melhor pedir a saideira e fechar esse cabaré."
  • Março de 2016, por João Paulo Cuenca. Trecho: "o que está em jogo é algo muito mais importante do que quem ocupará ou não a cadeira de Presidente da República do Brasil. O que está em jogo é a própria cadeira. E a República".
  • Tweet de André Forastieri sobre o cumprimento da lei.
  • Para salvar Lula, Dilma põe em risco o governo, por Ricardo Kotscho. Trecho: "Para a maioria das pessoas com quem converso, é melhor um final horroroso do que um horror sem fim, como já se resignou outro dia um assessor próximo da presidente Dilma."
  • Um país de irresponsáveis, por Ricardo Corrêa. Trecho: "É papel de cada um que possui espaço para a análise da situação alertar para a necessidade de respeitarmos uns aos outros, mais do que em outros tempos. Respeitar o direito de cada um, as instituições, os cargos que ocupamos é o mínimo que precisamos exigir para um país melhor."
  • Agora vou aderir à recomendação de um amigo, Ricardo Corrêa, sobre o texto de número 15, e finalizar com o que sempre defendi aqui no blog: discorde, divirja, defenda seu ponto de vista. Mas use argumentos, não ofensas, ódio, rancor.

    Não brigue com seus vizinhos, amigos, parentes por causa de política. Lembre-se: de um modo geral, todos estão torcendo por um desfecho que acreditam ser o melhor para todos, inclusive para você.

    Se acha que alguém falou uma bobagem sem tamanho, e se achar que vale a pena discutir com essa pessoa, vai lá e apresente suas ideias, mas não ofenda ninguém.

    E, se alguém te ofender, nesse inferno que virou a internet (um antro de anônimos covardes), respire fundo e faça melhor.

    Eu fiz isso outro dia, quando me chamaram de "jumenta" e "esquerdopata", veja só.

    Para fechar o post: 10 textos para refletirmos sobre a importância de respeitar a opinião dos outros.

    Post originalmente publicado no Blog da Kikacastro.

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