OPINIÃO
30/03/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

64+50: Quando vai acabar a ditadura civil-militar?

Contra a falsa verdade de que o que passou, passou, o Cordão da Mentira convida a todas e todos para cantarem contra o que ainda resta da ditadura civil-militar. O aniversário é deles, mas a rua é nossa!

Nenhum passado é fato consumado. Todo passado habita o presente. Se história é processo, todo tempo vivido é tempo herdado. E se há herança, há herdeiros. Somos nós que inventariamos e nos apropriamos de um tempo que já passou. Nós é que decidimos o que vale e o que não vale, qual tradição ainda nos pertence e qual deve ser jogada fora. Todo presente tem marcas do pretérito e cabe a nós decidir o que fazer com elas.

Após 50 anos de golpe, escutamos continuamente algumas perguntas. Por que o Cordão da Mentira existe? Por que ele está nas ruas? Falar de ditadura, mas para quê? A ditadura não acabou? O que temos a ver com isso?

Pode ser estranho dizer que ainda vivemos sob o mesmo regime instaurado em 1964. Achar que, no entanto, a chamada democracia de hoje apagou os rastros de ontem, é de uma ingenuidade sem tamanho. Há uma grande herança que nos foi deixada e que opera no nosso cotidiano. Torturadores que não foram julgados e permanecem livres, uma polícia que segue matando arbitrariamente, um estado que não nos conta sobre mortos e desaparecidos de ontem e de hoje.

Nesse mesmo cotidiano, ocupamos espaços privados e tratamos, cada vez mais, a política como administração, gerenciamento. Há algo que se perdeu nos tempos de ditadura. O espaço público e sua dimensão política nos foram arrancados.

Por que estamos nas ruas? Para rejeitar o que nos foi imposto e para retomar o que é nosso por direito. As ruas são nossas e por elas cantaremos. Enquanto os arquivos da ditadura não forem abertos, enquanto a anistia servir para torturadores e assassinos, enquanto manifestações políticas forem reprimidas com bombas e balas de borracha, enquanto o estado não responder pelas Claudias e Amarildos assassinados todos os dias nas periferias, enquanto nossas mães ainda procurarem por seus filhos desaparecidos, entenderemos que a ditadura não terminou por completo e seguiremos em frente. Contra a falsa verdade de que o que passou, passou, o Cordão da Mentira convida a todas e todos para cantarem contra o que ainda resta da ditadura civil-militar. O aniversário é deles, mas a rua é nossa!