OPINIÃO
20/04/2016 15:58 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Fogo na bomba e paz na quebrada: Este é o lema da Macha da Maconha 2016

Agência Brasil

De origem controversa, a tradição de relacionar o horário das 4h20 com o consumo de maconha consolidou-se como parte importante da cultura dos usuários, principalmente na Internet: as referências em quadrinhos, seriados, músicas, filmes, sites e memes são incontáveis e há até aplicativos que dizem em qual cidade do mundo será 4h20 daqui a pouco. Do relógio, a celebração do orgulho maconheiro se estendeu para o calendário, para o dia 20 de abril, mês 4, uma das datas internacionais que defendem a legalização da maconha.

Há outras datas, como o dia 7 de maio, sugerido há muitos anos como dia para a Global Marijuana March, inspiradora das Marchas da Maconha ao redor do Brasil, que geralmente acontecem em maio mas não só no dia 7. Para 2016 esperamos marchas em mais de 20 cidades, organizadas em rede de forma horizontal e plural. Não há uma Marcha da Maconha, cada cidade faz a sua, e o que nos une é a defesa de que precisamos urgentemente lidar de outra forma com as drogas atualmente proibidas e com a guerra que se faz em nome dessa cruzada moralista e ineficiente.

Fumar a gente já fuma, e só não fuma quem não quer. Há muito tempo já virou passado o estereótipo preconceituoso do maconheiro: assim como não existe "o" fumante de tabaco ou "o" usuário de cerveja, também não existe "o" maconheiro, não é possível rotular uma pessoa simplesmente por um hábito entre tantos que formam nosso cotidiano e personalidade, ainda mais um que é tão comum entre tantas (e tão diferentes) pessoas.

Mas se é proibido e todo mundo faz, então "por que não legalizar?", como perguntava o Planet Hemp? A proibição não impede o uso e nem oferece informação e tratamento de qualidade, e ainda expõe os usuários à violência e à má qualidade das substâncias. Sem falar nos usos medicinais dessas substâncias, que até hoje são pouco conhecidos e poderiam estar ajudando milhões de pessoas, algumas com doenças bem graves. Mas a proibição também faz o produto ficar mais caro, aumenta muito as chances de corrupção e dá pro Estado uma justificativa pra prender e assassinar pessoas pobres e negras - isso sem falar na indústria de armas, que vende pra todos os lados da treta.

Ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, heteros, L's, G's, B's e T's, políticos, juízes, policiais e ladrões, estudantes e professores: todo mundo usa drogas, proibidas ou não. Mas para os brancos e ricos está praticamente legalizado: no máximo terão que pagar suborno ou serão enquadrados como usuários e soltos, mesmo que estejam traficando. Já os pobres e negros, mesmo que estejam só usando ou nem isso, serão presos como traficantes e isso se tiverem sorte, se não serão mortos. "Eram traficantes", "morreram em confronto", dirão os Boletins de Ocorrência e as reportagens, que geralmente parecem escritas pelas mesmas pessoas.

"Vamos fumar a hipocrisia", dizia uma faixa na Marcha da Maconha de São Paulo de 2011, a última que foi proibida pela Justiça. De lá pra cá, não marchamos mais para poder marchar, e sim pra acabar com uma guerra hipócrita e sem sentido como essa. Éramos poucos e hoje somos muitos - e cada vez mais.

"Fogo na bomba: paz na quebrada": esse é o mote da Marcha da Maconha de São Paulo de 2016, que será 14 de maio. Celebrando a desobediência que faz a legalização um ato de resistência cotidiano, e não um resultado da ação de políticos e juízes - a lei somos nós que fazemos!, e apontando para onde a guerra mais afeta, a periferia, a quebrada, voltaremos às ruas compostos pela diversidade e pela horizontalidade que sempre nos definiram. Legalizando as ruas de São Paulo e a maconha, até que a guerra acabe, até que a gente se encontre pra celebrar a liberdade e só isso.

LEIA MAIS:

- ASSISTA: O Dia da Maconha é ótimo para começar a discutir a guerra às drogas

- FHC: 'A política em relação às drogas precisa mudar urgentemente'

Também no HuffPost Brasil:

33 descobertas sobre a maconha