OPINIÃO
18/03/2018 22:55 -03 | Atualizado 18/03/2018 22:55 -03

Testes de Facebook? Dados, dinheiro, preconceito e a sua cara

"Apenas mais um teste do Facebook." Será?

Ao realizar testes divertidos no Facebook, você disponibiliza seus dados para empresas.
Reprodução/Facebook
Ao realizar testes divertidos no Facebook, você disponibiliza seus dados para empresas.

Nas última semanas, muitas das nossas timelines do Facebook foram invadidas por fotos de pessoas mudando de gênero. Mas não se tratava de nenhuma campanha queer, era "apenas" mais um teste do Facebook. "Apenas mais um"... Será?

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Fazer testes em redes sociais não é uma novidade. Realmente é tentador saber em qual casa de Hogwarts você pertence, com qual celebridade se parece, qual animal você seria, ou até mesmo quantas pessoas estão te vigiando. Mudar de gêneros então, nem que seja no Carnaval, muita gente gosta de brincar disso. E não é que fica mesmo curioso?

Porém, tudo tem seu preço. Para conseguir ou divulgar o resultado dos testes, as empresas que produzem esses jogos coletam várias informações sobre nós. Isso porque normalmente você autoriza o aplicativo que roda o teste a acessar sua conta no Facebook e coletar informações pessoais, como seu nome, sua foto de perfil, foto de capa, gênero, redes, nome de usuário, lista de amigos, e ainda outras informações que você tenha escolhido tornar pública ou compartilhar com o aplicativo de teste, como curtidas, histórico, status, fotos e publicações.

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Mas, indo além, esse teste de mudança de gênero particular traz uma inovação: o uso da tecnologia do Faceapp, aplicativo da empresa russa Wireless Lab, que usa inteligência artificial para manipular nossas fotos e fazer essa "transição" binária de gêneros.

Para tal, passamos a alimentar tanto o app quanto o Facebook como outros tipos dados, que não eram manipulados nos testes de antes: dados provenientes de reconhecimento facial.

Existem várias empresas que lucram com esses testes. A Kueez, parte do conglomerado israelense Yoto Media Group, é a empresa que desenvolveu esse teste.

Na política de privacidade disposta em letras mínimas e quase transparentes (acima), deixa claro que pode compartilhar nossos dados com terceiros e até utilizar nossas fotos para fins comerciais - como, por exemplo, em outros testes.

Resumindo: nos poucos clicks para autorizar o app e subir sua foto, russos, israelenses e americanos já têm dados de reconhecimento facial da sua cara.

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Falando em ceder dados sensíveis a empresas russos, israelenses e americanas, achamos que era coerente subir essa cara aqui também para manter o nível de entretenimento do texto :)

Reconhecimento facial também tem sido uns dos carros chefe de investimento do Facebook que, nas últimas horas, tem enviado notificações a seus usuários sobre a nova funcionalidade de reconhecimento facial da plataforma.

A tecnologia já era usada para sugestões de tags em fotos, agora vai rastrear e reconhecer nossas fotos até onde não fomos marcados. Na União Européia, onde os padrões de proteção de dados são mais elevados, a empresa já chegou a ser impedida de implementar a sugestão de tags na região. Veremos o que vai ocorrer agora com a ampliação do uso dessa tecnologia.

O aplicativo base desse teste, o Faceapp, também já foi bastante criticado não diretamente por questões de privacidade, mas pelo uso dos dados que geraram uma inteligência artificial racista.

Por exemplo, quando o filtro chamado "hot" (quente, no sentido de sexy) era habilitado, o app branqueava o tom da pele de fotos de afrodescendentes.

Nessa nova versão, aplicada ao teste pela Kueez, percebemos que o conceito de gênero do código dá tilt quando trazemos rostos trans ou não binários.

Fizemos alguns testes com rostos que já são públicos. Esta foto poderosa de Ru Paul, por exemplo, não conseguiu ser transformada:

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Nem a foto de Pablo Vittar, nossa querida drag lacradora:

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Ou melhor, quando teve algum resultado, a conclusão foi: jogou tanta multiplicidade na cara do algoritmo que só conseguiu derreter o rosto da Pablo:

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Antes de o teste existir, outros questionamentos já tinham surgido entre pessoas trans e/ou não-binárias que conheciam o app.

Percebemos que nossos dados estão alimentando uma inteligência artificial normativa, mas não só.

Pelo que vimos, a impressão que se teve da grande variedade de resultados de testes postados nos murais, os homens que submeteram fotos foram transformadas em mulheres de um determinado padrão estético de beleza, mais próximo à estética comercial, enquanto as fotos de mulheres foram transformadas em homens de belezas mais diversas.

Seriam esses tipos de inteligências racistas, normativas e patriarcais que queremos alimentar com nossos dados? Por todas essas questões, não dá para considerar esses joguinhos como "só mais um teste".

Então, para não acabar totalmente com a brincadeira dos testes, que nos divertiu aqui também, seguem algumas dicas:

Já autorizou esse e outros apps no seu Facebook?

  • Lembre-se que infelizmente, pela lógica da plataforma, uma vez autorizado, sempre autorizado. Você precisa ir nas suas configurações, selecionar o menu aplicativos e deletar esse app. O problema é com o que já foi cedido, que não tem garantia de ser apagado, a não ser que algo nesse sentido esteja estipulado nas políticas de privacidade do jogo.

  • Vale a pena olhar se todos os apps que estão nessa seção precisam estar conectados com seu Facebook. Você pode ir deletando um a um ou selecionar ainda em configurações de aplicativos a opção desativar aplicativos, sites e plugins.

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  • Se não quiser desabilitar tudo, você pode, antes de autorizar, em cada app limitar as informações fornecidas.

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Não autorizou, mas não está se contendo para fazer um teste?

  • Muitos dos testes podem ser feitos diretamente na página da empresa de testes, sem fazer login.

Fez o teste sem logar, mas quer compartilhar nas suas redes?

  • Depois do teste, as plataformas sempre nos pressionam para compartilhar os resultados nas nossas redes sociais. Mas tende a ser sempre possível copiar a imagem ou fazer uma captura de tela da mesma para compartilhar como mídia.

A internet ainda é um espaço em desenvolvimento e as suas regras estão em processo de aperfeiçoamento, portanto é passível de consequências ainda não divulgadas.

Mas como se proteger deste tipo de ameaça sem comprometer a liberdade do divertimento? Por enquanto, a solução é se informar sobre os riscos e ter ciência do que fornece para as empresas que fabricam os testes e jogos para redes sociais.

Ah, e é sempre importante lembrar: se sentiu que sofreu algum abuso por uso indevido de dados, não deixe de denunciar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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