OPINIÃO
24/03/2015 15:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O Brasil em Paris: uma oportunidade de liderança

De acordo com o último relatório do IPCC, para termos uma boa chance de manter o aumento da temperatura da Terra abaixo de 2ºC, podemos despejar na atmosfera no máximo 270 bilhões de toneladas de carbono. Atualmente, emitimos aproximadamente 10 bilhões de toneladas por ano - ou seja, em 27 anos esgotaríamos nosso "orçamento" de carbono. Portanto, o que precisamos decidir é como alocar este orçamento entre os 195 países que sentarão em Paris no final deste ano para negociar um tratado global sobre o clima.

NASA image use policy.NASA Goddard Space Flight Center enables NASA’s mission through four scientific endeavors: Earth Science, Heliophysics, Solar System Exploration, and Astrophysics. Goddard plays a leading role in NASA’s accomplishments by contributing compelling scientific knowledge to advance the Agency’s mission.Follow us on TwitterLike us on FacebookFind us on Instagram" data-caption="This full-disk image from NOAA’s GOES-13 satellite was captured at 11:45 UTC (7:45 a.m. EDT) and shows the Americas on June 21, 2012. This date marks the start of astronomical summer in the northern hemisphere, making it the longest day of the year!NASA image use policy.NASA Goddard Space Flight Center enables NASA’s mission through four scientific endeavors: Earth Science, Heliophysics, Solar System Exploration, and Astrophysics. Goddard plays a leading role in NASA’s accomplishments by contributing compelling scientific knowledge to advance the Agency’s mission.Follow us on TwitterLike us on FacebookFind us on Instagram" data-credit="NASA Goddard Photo and Video/Flickr">

De acordo com o último relatório do IPCC, para termos uma boa chance de manter o aumento da temperatura da Terra abaixo de 2ºC, podemos despejar na atmosfera no máximo 270 bilhões de toneladas de carbono. Atualmente, emitimos aproximadamente 10 bilhões de toneladas por ano - ou seja, em 27 anos esgotaríamos nosso "orçamento" de carbono. Portanto, o que precisamos decidir é como alocar este orçamento entre os 195 países que sentarão em Paris no final deste ano para negociar um tratado global sobre o clima.

A posição brasileira, historicamente, tem sido que os que mais contribuíram para o problema deveriam ser aqueles que menos direito teriam de emitir mais carbono. É o conceito de "responsabilidades comuns, porém diferenciadas." Esta posição foi oficialmente aceita pelos outros países nas negociações da convenção do clima, mas ainda não ficou claro como traduzir isso em números - ou seja, quantas toneladas de carbono cada país ainda poderia emitir. O Brasil, China, Índia e quase todos os outros países em desenvolvimento defendem que, como não contribuíram tanto para o problema, deveriam ter o direito de poluir mais agora.

Este raciocínio, porém, presume que o desenvolvimento econômico precisa de emissões de carbono. Ou seja, que é impossível uma nação se desenvolver sem emitir cada vez mais carbono para a atmosfera. Isso talvez fosse verdade nos anos noventa, quando começaram as negociações sobre o tratado do clima e quando o Brasil apresentou o conceito de responsabilidades comuns porém diferenciadas, mas hoje este paradigma não é mais verdadeiro. O melhor e mais eficiente caminho para o desenvolvimento de uma nação passa pelo uso de tecnologias que emitem pouco ou nenhum carbono.

Fontes limpas de energia hoje já são mais baratas que as sujas em uma parte significativa do mundo, e estão ficando mais baratas ano a ano. Todos os países, inclusive as grandes economias emergentes, podem ser mais ambiciosos em seus planos de redução de emissões, porque assim criarão inclusive mais incentivos para empresas investirem em energias renováveis em vez de energias fósseis. E quanto maior a escala, menor o preço. É preciso fomentar um ciclo virtuoso de substituição de energias fósseis. E um tratado internacional ambicioso será um grande passo nesta direção.

Qualquer iniciativa diplomática que reconheça isso e encoraje uma convergência de visões entre países desenvolvidos e em desenvolvimento fará uma contribuição inestimável para o sucesso das negociações em Paris no final do ano. Afinal, estamos todos no mesmo barco. Em vez de apontar para erros do passado, devemos apontar para as soluções no futuro que beneficiam a todos. Precisamos entender que, se estruturarmos a solução da forma correta, não haverá conta a pagar, apenas benefícios a colher.

Em 2009, na COP 15 em Copenhague, o Brasil conseguiu evitar o fracasso total das negociações ao ser o primeiro País em desenvolvimento a assumir metas voluntárias de redução de emissões - algo reivindicado por países desenvolvidos como parte essencial de uma solução global. Seu exemplo foi seguido por outras nações e resultou na retomada das negociações no formato atual. Podemos, novamente, dar o exemplo ao assumir uma meta individual tão ambiciosa quanto o de países desenvolvidos, e mostrar ao mundo que o caminho de desenvolvimento através de uma economia de baixo carbono é na realidade menos custosa e mais benéfica social e economicamente do que o modelo atual. Será o estímulo que o resto do mundo precisará para um tratado do clima que realmente consiga manter o aquecimento global abaixo de 2ºC.