OPINIÃO
31/01/2014 14:58 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Seu ódio faz a minha fama: como Justin Bieber enganou todos vocês

Divulgação

Existe um entendimento de que a música por si só deve valer como sustento para o artista. Um encontro assertivo entre a lírica e melodia de forma a ser absorvida ou renegada pelo público. Discordo.

O pop, o rock e até mesmo a música clássica sempre dependeram da dramaticidade e do mise-en-scéne em torno do cobiçado artista. Mais do que um cantor, como Freddy Mercury, ou instrumentista virtuoso, como Beethoven, os grandes nomes da música ao longo da história sempre foram personagens da própria obra. Heróis e vilões entregues ao louvor/crítica do público, afinal, todos querem alguém para amar, idolatrar ou simplesmente odiar.

Justin Bieber, ou quem quer que esteja orquestrando a carreira do cantor canadense, sabe bem disso. Alvo do mundo depois dos atos de vandalismo ao longo dos últimos meses, o ídolo pop corre o risco de ser deportado dos Estados Unidos, onde mora, depois que mais de 100 mil pessoas assinaram uma petição a favor da deportação do músico. A ação força uma resposta do governo estadunidense, que deve decidir ou não sobre a expulsão do cantor.

Tolice.

Em 1969, Jim Morrison, vocalista do The Doors, acabou preso por supostamente mostrar os órgãos genitais em uma apresentação da banda. A ação, recebida de forma obviamente negativa, barrou diversos shows do grupo. "Que vergonha", alguém deve ter gritado. No mesmo ano, Jimi Hendrix foi preso no Aeroporto Internacional de Toronto, Canadá - terra de Bieber - por porte de heroína. "Que grande exemplo para os fãs do cantor", alguma mãe preocupada deve ter alarmado. O mesmo tipo de história se repete com nomes como Elvis Presley, John Lennon, Raul Seixas, Paul McCartney, Renato Russo, Ozzy Osbourne, Kurt Cobain e qualquer outro artista hoje idolatrado aqui ou lá fora.

Claro que os amantes da "boa música" e defensores do "rock clássico" já devem ter levantado a voz para gritar: "Não compare a música deles com a de Bieber" ou "o que ele faz não é música". Será que não é mesmo?

Quando o rock começou a se popularizar, no começo dos anos 1950, e artistas como Elvis Presley fizeram tremer as pernas de jovens adolescentes, os amantes do jazz logo se revoltaram. "Isso não é música", alguém deve ter gritado. Curioso pensar que os mesmos fanáticos pelo jazz foram "vítimas" dos apreciadores da música clássica anos antes - padrão que se segue desde a alvorada da música.

Os mais velhos sempre vão criticar o gosto dos mais novos. Principalmente se ele vier de um jovem que passou pela puberdade há pouco tempo e canta coisa que os pais, mães e defensores dos bons costumes não entendem.

A atuação - proposital ou ensaiada -, não exime Bieber de seus atos, que devem sim ser julgados. Afinal, é o preço que paga pelo papel que o "obriga" a dirigir bêbado e drogado.

Gostem ou não, Bieber conseguiu apenas mais atenção, posto reforçado pelo ato cênico e obviamente vândalo de suas ações. Basta perceber que mesmo na semana em que ele foi preso, o ídolo pop não deixou de lançar uma nova música -- Confident, parceria com Chance The Rapper. Mais uma vez, um exercício que extrapola os limites do acústico, atinge o visual e faz da figura de "garoto rebelde" o combustível necessário para os jovens carentes dessa "agressividade".

Tomado pelo bom-mocismo e pela condenação imediata, quem escolheu pela expulsão do cantor caiu como um patinho no jogo dramático de suas ações. Por fim, a raiva sobrepôs o louvor, apenas encurtando o caminho para que Bieber se transforme em mais um personagem eternizado na história da música.