OPINIÃO
12/11/2015 17:30 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Cinema: 'Chatô, Rei do Brasil', mostra um País que pouco mudou em 70 anos

"Você leu o livro?", perguntou Guilherme Fontes, minutos antes da sessão de Chatô - O Rei do Brasil. Disse que sim. "Quantas vezes?", questionou. Uma, respondi. "Eu também li uma vez. Depois fui pesquisando ele diversas e diversas vezes", disse o diretor que começou a produzir a película ainda na década de 1990.

"O filme é a minha interpretação do livro. Como se você terminasse de ler a obra e filmasse apenas as cenas mais quentes, aquelas que ficaram gravadas na memória", explicou o artista petropolitano enquanto cumprimentava outro jornalista que chegava para a exibição no cinema do Shopping Frei Caneca, no centro de São Paulo.

Misto de comédia, romance, drama político e adaptação da biografia homônima publicada em 1994 pelo mineiro Fernando Morais, Chatô é, como o próprio diretor define, "um filme sem gênero". "Eu não o considero um drama. Tem muito de musical dentro dele também", disse Fontes.

De fato, é difícil encontrar um ponto de apoio durante os 102 minutos​ de duração da obra. Trata-se de uma imensa colcha de retalhos visuais, monólogos e pequenos delírios cênicos de Marco Ricca, ator que interpreta o magnata das comunicações no Brasil, fundador dos Diários Associados e criador do MASP, Assis Chateaubriand.

Ainda que o roteiro do filme pareça acelerado, talvez raso, perto do material de mais de 600 páginas assinadas por Morais, não há como negar que Fontes mantém a atenção do espectador em alta até a provocativa cena de encerramento - o sexo oral entre Vivi, personagem interpretada por Andréa Beltrão, e o já debilitado Chateaubriand.

Sobram cenas fortes e bem construídas, como o estupro de Lola (Leandra Leal), segunda mulher de Chateaubriand, além das constantes passagens pelo julgamento televisivo que resgata diferentes aspectos da vida do protagonista. Difícil não rir das chantagens executadas pelo empresário ou da cômica cena da contagem de palitos de fósforos.

Finalizado em 1999, porém, engavetado por conta de irregularidades na prestação de contas do diretor - em 2014, Fontes foi condenado pelo TCU (Tribunal de Contas da União) a devolver R$ 71 milhões aos cofres públicos -, Chatô em nenhum momento aparenta ser um "filme velho", corroído pelo tempo.

Durante toda a película, temas como corrupção, violência, manipulação política e uso da imprensa como instrumento de favorecimento de uma minoria parecem dialogar com o presente cenário brasileiro. Diálogos entre Chateaubriand e Getúlio Vargas (Paulo Betti) que facilmente se transformariam em escândalos políticos nos dias atuais.

Dinâmico, Chatô sobrevive um misto de passado e presente que reflete não apenas a visão de Fontes sobre o "personagem" que é Assis Chateaubriand, mas boa parte do conflitos e falcatruas que movimentam o Brasil de ontem e hoje.

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