OPINIÃO
24/06/2014 10:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Eu, eu mesma e Lana Del Rey

Vulnerabilidade é o que me fez me apaixonar pela Lana Del Rey.

Lana-Del-Rey

Nosso romance começou ainda lá em 2011, antes de "Video Games", em um finado vídeo de "Kinda Outta Luck", em que ela sussurra que quer ser uma boa menina mas não consegue negar a própria escuridão. Divertida, gostosa, provocante de um jeito meio lolita, "Kinda Outta Luck" era um pop diferente, meio retrô, que me chamou a atenção assim de cara e eu decidi que já adorava a cantora. Quando "Video Games" chegou, acho que ninguém - ou quase ninguém - passou impune pelo frisson. A atmosfera carregada, a voz sussurrada e grave pela qual sou completamente apaixonada e que é tão difícil de se encontrar nesse cenário que muitas vezes super valoriza notas agudas, o flerte discreto, as declarações de amor exageradas, a introspecção sugerida na progressão de acordes... cada pedacinho de "Video Games" denunciava uma menina ansiosa (e amante) do amor. Para alguém que tanto adora o sentimento como eu, era como navegar um mar conhecido e delicioso.

Depois, foram os recortes imagéticos que ilustravam suas canções saudosistas e, para mim, profundas: pareciam saídos de um caderno de colagens da artista, todos guiados por uma subjetividade que muitas vezes soaria completamente confusa para o observador, que não é parte daquele universo. Para mim, das strippers às lolitas às femme fatales, da Califórnia a NYC, do glamour da antiga Hollywood à simplicidade completa, dos vestidos brancos até as jaquetas de carros de corridas por cima de regatas e jeans, tudo fazia sentido. Era Lana quem eu estava procurando esse tempo todo.

Obcecada como sou, de lá corri pra entrevistas, onde encontrei a moça tímida, se justificando de forma exagerada, obviamente insegura, explicando que a colagem de seus vídeos era composta por pequenas coisas que ela considerava belas e formavam a história que ela teria montado, na cabeça, para os vídeos. E em cada entrevista, em cada música do disco "Nevada", que nessa altura eu já havia baixado e ouvido repetidas vezes, ela comprovava uma vulnerabilidade e uma delicadeza que só aumentavam meu fascínio.

"Pawn Shop Blues" até hoje é uma das canções dela de que eu mais gosto. Sobre uma composição harmônica bastante simples, Lana conta sobre como tem que penhorar brincos dourados que o homem com quem ela estava envolvida deu de presente, pois precisava de dinheiro para voltar pra casa. "That's what happens when you're on your own and you're alright with letting nice things go" ela canta logo na primeira estrofe, entregando uma das minhas frases preferidas da discografia da cantora, porque letting nice things go, aqui, vai muito além do brinco dourado com flores e evoca imagens de amor, desapego, perdas e escolhas. "Yayo" parece uma canção assombrada e sua voz alonga as palavras, cria melodias inteiras com vogais e mais uma vez promete seu amor. "For K Part 2" é outra música simples que evoca imagens poderosas: "alright you got me, I don't play a good guitar" é como começa, e eu automaticamente penso na menina querendo impressionar o cara que ela gosta em uma cama de solteiro, de shortinho e camiseta larga, a janela aberta num fim de tarde de verão.

lana borntodie

Quando o "Born To Die" chegou, consumi vorazmente o disco inteiro. Embora ele não trouxesse a simplicidade, que pra mim era um dos pontos fortes das composições, trazia ainda essa voz única que me conduzia a sonhos compridos e maravilhosos. A produção exagerada era compensada por cada uma dessas imagens oníricas inspiradas cada vez que eu a ouvia cantar. E, depois do "Born To Die", me deparei com o EP "Live or Die", de onde vem "Fordham Road", outra bela música que não canso de ouvir, e com o "Sirens", ainda mais antigo que "Nevada", com canções ainda mais simples e mal gravadas. É de lá que vem "Pride", outro hino ao abandono, em que, assim como em "Pawn Shop Blues", ela musifica o adeus a mais um grande amor - dessa vez porque "my dreams are bigger than your junkie pride".

Isso porque Lana foi mandada para um internato ainda bem novinha e lá pelos 18 ela já tinha passado pela reabilitação por alcoolismo. Em entrevistas, Lana falou sobre experiências aterradoras com drogas e sobre a distância que mantém do álcool. Ainda contou sobre os trabalhos voluntários em clínicas onde ajudou viciados em NYC. Lana tinha tristeza e conhecia esquinas sujas e desesperadas da vida, e mesmo assim ela conseguia trazer beleza e amor. Para mim, isso sempre foi divino.

Quando as críticas a ela surgiram, fui logo levada a um bando de vampiros esperando sugar carne nova e surpreendentemente vulnerável, com inseguranças e nada da atitude confiante e irreverente amada pela mídia. Cada vez que ela se atrapalhava em entrevistas por tentar se justificar demais, por tentar agradar, por medo do que os outros poderiam pensar, cada vez que essa insegurança absurda transparecia no discurso de Lana, eu sentia mais carinho. Aquilo ali era real, não aquela pose supostamente contra o sistema que tanta gente carrega de forma calculada. E as críticas à artificialidade, aqui, para mim, soavam ainda mais absurdas. Ainda: como alguém poderia criticar a criação de uma persona no mundo da arte? Todo mundo é um performer. E de que importava a cirurgia plástica, existente ou não, em seus lábios? Alguém se importaria se fosse um homem?

Não entendia como o resto do mundo não sentia o que eu sentia a ouvir essa voz. Como meu namorado, uma das pessoas mais sensíveis que eu conheço, não caía de amores junto comigo? Quase tudo o que eu ouvia conversava profundamente com o que eu pensava sobre a vida, sobre amor: quer uma imagem mais simples e bonita que vestir o vestido preferido do moço que você gosta e passar uma tarde jogando videogames? Pequenos detalhes compunham a história que eu criei para o mundo de Lana: de inseguranças, arte, tristeza, sujeira e redenção. Porque, acima de tudo, sempre foi sobre redenção, sobre se perdoar por erros passados, sobre reencontrar a beleza na vida.

A espera por "Ultraviolence" foi ansiosa, impulsionada por quando "Black Beauty", maravilhosa, vazou. "West Coast" já é uma das minhas músicas preferidas de todos os tempos, com as diferenças melódicas, as alterações na voz, o clipe no mar - no mar, que eu tanto amo! Ah, Lana.

E o disco chegou maravilhoso, muito mais Lizzy do que Lana, despido de megaproduções épicas. "Ultraviolence" veio assombrado, carregado em sentimentos de perda e tristeza, com letras doloridas sobre os temas recorrentes da artista - amores perdidos, dinheiro, sexo, drogas. Explodindo nos momentos certos e envolvendo quem escuta, a voz sussurrada, grave e maravilhosa continua lá, seduzindo sobre camadas sonoras barrocas e pungentes.

Quando "Ultraviolence", a música, saiu, eu pensei logo em "Caroline Says II" do Lou Reed. Na música do Lou, uma Caroline cansada e perdida na resignação pergunta: "why it is that you beat me? It isn't any fun". Na versão de Lana, eu via mesma personagem ainda afogada na ilusão do relacionamento abusivo, acreditando em uma verdade falsa que é exposta completamente no verso "he hurted me but it felt like true love".

Na mesma semana da liberação do single, li uma entrevista em que Lana dispensa o interesse pelo feminismo porque "teria coisas mais interesses sobre as quais pensar, como as galáxias". Já sabia do posicionamento infantil e burro que ela tinha em relação a isso, mas a coincidência da entrevista e da letra da música não conseguiram passar despercebidas. Como uma amiga apontou, algumas coisas não deveriam ser romantizadas, alguns limites não deveriam ser cruzados. E, agora, Lana tá começando a cruzar.

Essa primeira crítica realmente consistente e com a qual eu conseguia me identificar me introduziu em períodos intensos de reflexão sobre o efeito da artista sobre as adolescentes. Para mim, que tive meus próprios envolvimentos com depressão e vários outros demônios expurgados por Lana, os discos todos soavam, como já disse, como redenção e auto-perdão. Mas o que soariam, para adolescentes ainda formando sua personalidade, as palavras "I need you, I breathe you, I'd never leave you"? Lana é submissa em juras de amor e de necessidade em quase todas as canções de "Born To Die", em que se apresenta como completamente dependente de seus homens. Em "Puppy Love", ela alegremente diz que queria ser uma mulher dos anos 50 para servir seu homem do café à janta, todos os dias.

Como soa a alusão a drogas, álcool e maus comportamentos? Para mim, todas são lembranças, cantadas como exorcismo, mas é isso a voz dela ou é a minha, transferindo as minhas histórias e os meus demônios para os discos dela? No vídeo de "Ride", o estilo de vida pueril e superficial "live fast, die young" é exaltado de forma que me causou até mesmo vergonha. Depressão, suicídio, doenças mentais, vender o próprio corpo, todos esses temas podem ser analisados como glamurizados - em vez de expurgados, que era o que eu via - nas canções.

Na revista francesa Les InROCKuptibles, Lana declara que é uma merda artistas morrerem jovens porque param de produzir sua arte e que felizmente Leonard Cohen ainda está vivo. Na mesma semana em que a revista foi lançada, o perfil da artista no The Guardian revela a vontade que ela tem de morrer cedo.

Na última entrevista que li, Lana, alcoólatra, voluntária em clínicas de reabilitação, que disse que sentia que sua vocação era ajudar viciados, declara que os anos 70 chamam sua atenção porque adora os alucinógenos, a criatividade ligada a eles, Timothy Leary, a ideia de escrever um livro em uma noite sob o efeito de anfetaminas. Onde está a dor pungente de "Get Drunk", em que sentimos o desespero de uma viciada sendo seduzida pelos próprios demônios e refletindo sobre se valeria a pena se controlar? "Come on, get drunk, you know you wanna" ela geme sobre um violão ridiculamente simples e sujo. Onde está essa Lana?

Confesso que ainda adoro as músicas e que "Ultraviolence" me prendeu do início ao fim. Mas essa última semana levantou o questionamento: as histórias e imagens que eu amo são as histórias e imagens da Lana ou fui eu que as criei? Isso, só o tempo vai contar.

Volta, Lana!

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.