OPINIÃO
02/06/2015 11:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Sopa da barbatana de tubarão: o preço da ostentação

Oito mil toneladas de barbatana são processadas anualmente, sendo que ela constitui apenas 4% do corpo do animal. Dezoito espécies de tubarão estão ameaçadas de extinção. Esse é o preço.

t-mizo/Flickr
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Por favor, não me venham falar em tradição.

Não me venham falar que a sopa da barbatana de tubarão é uma receita milenar que vovós chinesas vêm passando através de gerações na tentativa de manter vivos antigos costumes de seu povo. A sopa da barbatana de tubarão nada mais é do que símbolo de status e riqueza, pura ostentação que se vê em grandes eventos como casamentos, festas e jantares de negócios. Herança da Dinastia Ming - que a elevou a condição de iguaria pela raridade de seu principal ingrediente - a sopa atualmente é consumida em escala muito maior do há alguns séculos.

(FOTO: Clarissa Ferreira / Barbatana de tubarão em vitrine de loja em Macau, China)

Um amigo brasileiro que também vive aqui em Cingapura me relatou outro dia sobre um jantar de confraternização da empresa onde ele trabalha, durante o qual foi servido o polêmico prato. Ele, que há anos ouve meus discursos sobre a sustentabilidade daquilo que levamos à mesa, recusou-se a experimentá-lo. Seus companheiros cingapurianos, no entanto, deliciaram-se com a iguaria sem culpa alguma. Não porque era gostoso. Não porque tinha propriedades medicinais. Mas porque era caro, chique e, para a sorte deles, de graça naquela ocasião.

Segundo o site Stop Shark Finning, um prato dessa sopa pode custar até 100 dólares nos restaurantes, o que faz com que pescadores espalhados pelo mundo não poupem esforços para garantir as tais barbatanas capazes de aumentar consideravelmente o lucro dos negócios. Não precisamos ir muito longe nessa história para concluir que, uma vez que apenas as barbatanas interessam, depois de mutilados os animais são jogados de volta ao mar para morrer.

Isso, por si só, já é o suficiente para nenhum ser humano querer consumir esse tipo de alimento. Mas vamos seguir. Ao que parece, a barbatana em si não tem gosto de nada, serve apenas para dar textura e consistência a um caldo de legumes ou frango. Quer mais? A medicina chinesa atribui à iguaria propriedades medicinais, enquanto estudos recentes comprovam que a carne do tubarão possui altas doses de mercúrio se comparada à de outros peixes. Então? Ficou com água na boca?!

Em Cingapura, a Cold Storage, uma das maiores redes de supermercado do país, aboliu a venda da barbatana e da carne de tubarão. Em pouco tempo, outras empresas do mesmo segmento, como o Carrefour e o Fair Price, seguiram o exemplo e retiraram os produtos de suas prateleiras. Mas ainda assim por aqui a sopa é muito popular entre os chineses. Restaurantes de luxo oferecem o prato sem constrangimentos, casais continuam o esbanjando em suas bodas e ninguém esconde a vontade de experimentar o gostinho da riqueza!

Segundo a organização Sea Shepherd, mais de 100 milhões de tubarões são abatidos todos os anos. Oito mil toneladas de barbatana são processadas anualmente, sendo que ela constitui apenas 4% do corpo do animal. Dezoito espécies de tubarão estão ameaçadas de extinção. Esse é o preço da ostentação.

Então, quando estiver viajando e se sentir tentado a experimentar a culinária local, pare e pense se aquele prato representa uma tradição que merece ser preservada ou se é apenas a herança de uma prática que há muito deveria ter sido extinta.