OPINIÃO
08/05/2015 16:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Por que a câmera me tornou uma viajante melhor

Posso viajar sem roteiro, sem roupa limpa, sem secador de cabelo nem maquiagem e até sem dinheiro, mas nunca sem uma câmera. Desde que nos mudamos para Cingapura e a tão, tão distante Ásia passou a estar ao alcance de um curto voo de casa, percebo como a câmera foi me transformando na viajante que eu sou hoje.

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Posso viajar sem roteiro, sem roupa limpa, sem secador de cabelo nem maquiagem e até sem dinheiro, mas nunca sem uma câmera. Desde que nos mudamos para Cingapura e a tão, tão distante Ásia passou a estar ao alcance de um curto voo de casa, percebo como a câmera foi me transformando na viajante que eu sou hoje. Ter ela nas mãos me fez observar mais, procurar detalhes, interagir com as pessoas. Treinou meu olhar para cores, formas e cheiros (sim, até cheiros me inspiram!). Passei a ver beleza no rotineiro, no simples, no sujo e também a enxergar de outro jeito o que já é belo por natureza.

Lembrando da minha estreia com a 5D em pleno festival hindú Thaipusam, quando me vi com uma câmera apontada para devotos autoflagelados, sangrando e rezando na minha frente, percebo como aprendi e mudei nesses mais de dois anos. "Até onde posso apontar minha lente sem ofender nem desrespeitar ninguém? Como conseguir um retrato natural de um estranho na rua? E se alguém não quiser ser fotografado?"

Naquele primeiro Thaipusam que participei deixei minha inexperiência e insegurança afetarem meu trabalho. Meus registros do festival foram bem medíocres. Percorri meu cartão de memória desanimada quase me convencendo de que deveria encontrar outra função dali pra frente. Mas depois de um ano intenso viajando pela Ásia com a câmera na mão, visitando templo atrás de templo e observando outras demonstrações de fé como aquela, voltei ao festival seguinte completamente à vontade. Registrei a procissão com confiança e montei o episódio mais popular da minha websérie.

Mas, afinal, que lições foram essas tão importantes que mudaram minha maneira de viver uma viagem e influenciaram tanto meu trabalho? Vamos a algumas delas:

- Antes de mais nada, fazer o dever de casa é fundamental! Com tantos guias, sites e blogs disponíveis não há motivo para chegar a um novo destino sem saber nada sobre o lugar e as pessoas que vivem lá. Conhecer a história do país, a situação política, os aspectos culturais e religiosos sem dúvida trazem conteúdo às fotos e impedem que você passe batido por símbolos, cartazes, estabelecimentos, cerimônias, hábitos. Sem contar que é uma ótima maneira de começar uma conversa com um morador local. E isso nos leva à segunda lição:

- Já percebeu como locais às vezes podem ser intolerantes com turistas e suas câmeras insaciáveis?! Basta parar de agir como um para ver como essa relação muda. Quem não gosta de falar do seu país? Mostrar conhecimento e interesse na vida das pessoas as deixa à vontade e confiantes. Aí, sim, apontar uma câmera a elas será um ato natural e até divertido.

- Se a língua não permite uma interação tão próxima, o contato visual é tiro e queda. Nada como uma troca de olhares para sentir se você é bem-vindo ou se está trazendo desconforto a alguém. Aprender a dizer "oi" na língua local abre portas e sorrisos! E se nada disso funcionar e uma pessoa claramente não quiser ser fotografada, basta seguir adiante e entender que nenhum registro vale o constrangimento do outro.

- Sim, as crianças na Ásia são fofíssimas! Mas pare e pense: você gostaria que um estranho chegasse apontando a câmera para seu filho e fosse embora sem dar maiores explicações? Duvido. Então, não fazer o mesmo com o filho dos outros é o mínimo. Já fotografei crianças, claro, mas sempre vou devagar. Procuro fazer o tal contato visual com os pais, brinco um pouco com os pequenos e aí sim, todos confortáveis e de acordo, pego a câmera e faço a foto ou o vídeo que eu quero. Mais uma vez, respeito é a alma do negócio.

- Aqui pela Ásia as pessoas são muito amigáveis e simpáticas, nunca tive nenhum problema em fotografá-las. O que pega às vezes é que são muito tímidas. Aprendi que um sorriso, muitos gestos e alguns elogios quebram qualquer (ou quase toda) timidez. Mostrar o resultado da foto depois é sempre um sucesso! Mulheres e crianças adoram se ver retratadas no visor. Independente do resultado do trabalho, essa interação por si só já é muito gostosa e eu guardo essas lembranças com mais carinho do que a fotografia em si.

- Talvez minha maior lição na estrada foi a de que tempo é fundamental. Não dá para esperar registros criativos e únicos viajando na correria, pulando de uma atração turística a outra. Algumas das minhas melhores fotos eu tirei enquanto estava simplesmente vendo a vida passar em algum canto da cidade. Sentar para tomar uma cerveja (ou café, chá...) em algum estabelecimento local, de preferência na calçada, é a garantia de interagir com as pessoas e vê-las em sua rotina. Depois de um tempo sentado ali, ninguém mais percebe nem você nem a câmera...

- Mas, vamos lá... isso não quer dizer que o negócio seja ficar em um canto bancando o paparazzi ou voyeur. Se fazer perceber e olhar no olho sempre que possível é muito melhor do que ser pego fotografando às escondidas. Não é preciso esconder a câmera para fazer uma foto ou vídeo de alguém, muito pelo contrário. É justamente ela que vai te conectar e te aproximar das pessoas.

- Se na fotografia de rua seguir normas básicas de convivência e educação costumam prevenir conflitos e situações constrangedoras, em templos e festivais religiosos a questão pode ser um pouco mais sensível. Mais uma vez o tal "dever de casa" se faz necessário. Procurar saber qual a postura esperada no lugar, as normas e costumes adotados pelos fiéis, se (e o quê) é permitido fotografar é fundamental. Venci minha insegurança em registrar cerimônias religiosas me informando ao máximo para evitar gafes ou uma postura desrespeitosa. Então, na dúvida, vale perguntar a alguém no local, na recepção do hotel ou simplesmente observar se há alguma pessoa ofendida com a sua presença antes de sair clicando por aí.

Resumindo a história, não agir como um turista - na pior definição da palavra - é o primeiro passo para ser respeitado e aceito como fotógrafo em um ambiente que não é o seu. No fim das contas, minha experiência nesses mais de dois anos de estrada não me tornou uma melhor fotógrafa, mas uma melhor viajante. O resto foi consequência.

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