OPINIÃO
17/03/2015 16:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Uma estrangeira no Brasil

Como uma estrangeira que voluntariamente se mudou para o Brasil, eu estou sempre recebendo comentários e questionamentos sobre os motivos que me levaram a me mudar para cá. Isso porque eu não gostaria de permanecer na Europa, onde a vida é "mais fácil, mais bonita, mais interessante".

Ghislain F/Flickr

Como uma estrangeira que voluntariamente se mudou para o Brasil, eu estou sempre recebendo comentários e questionamentos sobre os motivos que me levaram a me mudar para cá. Isso porque eu não gostaria de permanecer na Europa, onde a vida é "mais fácil, mais bonita, mais interessante".

Eu estou sempre surpresa ao ouvir o pouco orgulho que os brasileiros têm pelo seu País e como eles são loucos pelo "exterior". Na minha experiência, os brasileiros regularmente se queixam e culpam Brasil por coisas que não são problemas específicos do País, mas da vida em geral como o trânsito, as filas nos supermercados, e falta ocasional de energia. Parece que aos olhos da maioria dos brasileiros, estudar, trabalhar, viajar e fazer compras é melhor no exterior e eles têm um ligeiro complexo de inferioridade sobre o que seu próprio país é capaz de oferecer. Claro, o Brasil está passando por um momento difícil política e economicamente, mas sob o ponto de vista de uma cidadã espanhola, quando a Espanha passou por condições adversas semelhantes, eu não senti a mesma depreciação à cultura espanhola comparado, em geral, ao que eu percebo nos brasileiros.

Eu acredito que essa perspectiva anti-patriótica é prejudicial para o País e seu futuro. Se não houver nenhum orgulho em marcas locais, instituições ou até mesmo do País, os brasileiros vão sempre olhar para o exterior em busca de inspiração e realização. Por exemplo, eu acho que os brasileiros são muitas vezes tão preocupados em passar as férias no exterior que poucos conhecem o próprio Brasil. O lugar mais incrível que eu já estive fica no Brasil (Lençóis Maranhenses), e mesmo assim poucas pessoas que encontro aqui já estiveram lá ou pretendem ir.

Da mesma forma, Inhotim, o centro de arte contemporânea, é na minha experiência mais amplamente elogiado e visitado por estrangeiros do que pelos próprios brasileiros. Seria muito mais fácil e barato para um brasileiro passar as férias no seu País em vez de passar em Miami, porém na sua visão isso é menos atraente e prestigiado.

Eu também percebo uma associação positiva desproporcional em relação à educação estrangeira. Recentemente, fui indicada a falar com um arquiteto sobre um projeto, simplesmente porque ele tinha estudado no Reino Unido. Este foi o selo de aprovação dos arquitetos: porque uma instituição estrangeira lhe deu credenciais. Fiquei surpresa que o Reino Unido esteja sendo equiparado à qualidade global da educação, quando no Reino Unido há ao mesmo tempo milhares de programas arquitetônicos ótimos, mas outros péssimos. Eu prefiro um arquiteto brasileiro, com um portfólio forte e experiência, do que aquele que possui somente formação em uma escola estrangeira.

Meu ponto é que eu acho que os brasileiros deveriam ter mais orgulho de seus próprios talentos em vez de olhar para o exterior com tanta admiração. Se os brasileiros tivessem mais orgulho nos pontos fortes do seu País e fossem menos duros a respeito dos pontos fracos, eu acredito que o País poderia se promover e se inspirar para competir com a noção geral do "estrangeiro".